Grandes instituições brasileiras têm preferido sacrificar fontes lucrativas de receita de juros em favor de carteiras de menor risco
4 de setembro de 2026
Por André Marinho
O aperto no caixa das empresas e a deterioração das finanças dos consumidores sujeitaram o setor bancário a escolhas difíceis em um momento complexo do ciclo de crédito. Como um remédio preventivo contra uma onda generalizada de calotes, boa parte das maiores instituições financeiras se afastaram de linhas mais arriscadas e migraram o apetite para modalidades com mecanismos robustos de garantia.
No clássico dilema entre rentabilidade e segurança, os grandes bancos brasileiros têm preferido sacrificar algumas fontes lucrativas de receitas de juros em favor de carteiras de menor risco. Nessa equação, perdem espaço o crédito pessoal direto (CDC) sem consignação e o cartão de crédito para clientes de menor renda. No lugar deles, o protagonismo se volta para consignado privado, financiamento imobiliário e operações para pequenas e médias empresas (PMEs) garantidas por programas do governo.
A postura defensiva responde aos sinais de piora na inadimplência, que fechou o primeiro semestre no nível recorde de 4,7%, de acordo com dados mais recentes do Banco Central. Ao redirecionar concessão para as linhas garantidas, a indústria bancária mantém a torneira parcialmente aberta sem precisar mobilizar volumes desproporcionais de provisões contra calotes.
O fenômeno ficou visível em instituições de todos os portes ao longo dos últimos meses, do Itaú Unibanco ao PicPay. Para os bancões, o movimento é crucial para preservar as margens mesmo em um horizonte macroeconômico encoberto pelas nuvens da Selic de dois dígitos. No segundo trimestre, Santander, Itaú , Bradesco e Banco do Brasil, juntos, somaram R$ 97,18 bilhões em margem financeira, um crescimento de 7,5% em relação a igual período do ano passado. Essa métrica mede os ganhos com operações que rendem juros, descontados do custo para captar recursos.
Na contramão, o Nubank foi o principal agente a nadar contra a maré e seguir firme nas linhas conhecidas como clean, sem garantia. Essa carteira cresceu 45% na comparação anual do segundo trimestre, a US$ 10,3 bilhões, bem à frente da expansão do portfólio garantido, de 30%. A fintech promoveu uma agressiva rodada de aumento de limites de seus cartões, ajudada principalmente por avançados modelos de inteligência artificial. A estratégia permitiu ao banco digital avançar na contramão dos principais rivais.
“Em nossa visão, recuar da baixa renda ou mover-se em direção ao crédito garantido não é tão poderoso quanto realmente ter decisões de crédito muito, muito disciplinadas que são resilientes durante uma desaceleração”, disse o novo CFO do Nubank,Rob Livingston, em uma entrevista à Broadcast logo depois da divulgação do balanço.
Para o restante do universo financeiro, a reorganização do mix de crédito gera uma corrida setorial em busca do melhor retorno ajustado ao risco, ou seja, um equilíbrio mais eficiente entre resiliência e lucratividade. Não é um esforço trivial, principalmente para as instituições que demoraram mais tempo para virar a chave.
O Itaú, por exemplo, saiu na frente nesse processo, porque já vinha adotando uma posição mais seletiva desde o ciclo anterior de turbulências econômicas, o da pandemia de covid-19. O maior banco privado do País é o único que tem mantido a taxa de inadimplência numericamente estagnada, em 1,9%, pelo critério de atrasos superiores a 90 dias. Para isso, avançou na liderança do consignado privado e buscou fortemente os consumidores de média e alta renda.
Já o Bradesco deu sequência ao plano de transição estratégica que vem implementando desde 2024, sob o comando do presidente Marcelo Noronha. Ao final de junho, o Banco da Cidade de Deus havia ampliado a fatia de sua carteira com garantia para 61%, de 58,5% um ano antes. “Isto é o trabalho de gestão de portfólio, e estamos trabalhando muito mais com linhas colateralizadas”, ressaltou Noronha, durante a apresentação de resultados.
Na outra ponta, o Santander começou a sentir os primeiros efeitos do processo conhecido como de-riskin (redução de risco) da carteira. A estratégia deve trazer uma melhora na qualidade do crédito no ano que vem, mas no curto prazo impõe pressão sobre a rentabilidade. Não à toa, o retorno sobre o patrimônio do banco despencou para 12,5%.
Apesar dos desafios, os gigantes bancários têm a vantagem de poder oferecer uma prateleira de produtos mais robusta a uma base de clientes com relacionamento mais produto. Essas instituições já brigam há décadas pela folha de pagamentos das empresas, o que as coloca em posição melhor para ganhar a disputa pelo consignado privado. A tendência é de que elas conquistem as grandes contas, companhias de maior porte que também concentram os maiores salários.
Alguns degraus abaixo, os neobancos vão concorrer por segmentos menos resilientes. “Nem toda empresa tem estrutura para descontar essa porcentagem diretamente da folha e repassar ao banco. Quando a empresa não está pronta, o custo operacional fica ainda mais alto. Essa dinâmica torna a disputa no segmento mais baixo uma selvageria”, analisou o diretor de instituições financeiras da Fitch Ratings, Jean Lopes, em entrevista à Broadcast/b>.
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