Clubes de futebol encontram no mercado de capitais forma de não depender de bancos tradicionais para manter a casa em ordem
28 de agosto de 2026
Por Eduardo Puccioni
Quem acompanha o futebol no fim de semana costuma focar no placar e no desempenho dos reforços em campo, mas o verdadeiro drible na crise tem acontecido nos bastidores das finanças. Cansados das taxas e exigências do circuito bancário tradicional, os clubes brasileiros estão recorrendo ao mercado de capitais para manter a casa em ordem.
A busca de clubes e empresas do ecossistema esportivo por financiamento fora do circuito bancário tradicional vem acelerando a entrada de instrumentos do mercado de capitais no setor. Estruturas como Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs), fundos de private equity e veículos voltados à compra de dívidas em litígios esportivos, por exemplo, têm sido usados para reforçar caixa, antecipar receitas e reorganizar passivos.
Segundo dados da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima), nos últimos dez anos, vieram ao mercado pelo menos 27 instrumentos financeiros ligados ao mundo do futebol. Desse total, 20 foram alvo de ofertas públicas já encerradas que movimentaram R$ 1,3 bilhão.
Zeca Doherty, diretor-executivo da Anbima, nota que o mercado financia a economia real, e o futebol faz parte dela. Segundo ele, o mercado está mais próximo do cotidiano do que as pessoas imaginam: na empresa que cresce, na infraestrutura que avança e até no seu time do coração.
O levantamento da Anbima foi realizado a partir da pesquisa por uma série de palavras-chave entre os emissores das ofertas. “O estudo não reflete necessariamente a totalidade do mercado, mas oferece indícios consistentes sobre a evolução do acesso do segmento esportivo aos principais produtos para captação de recursos”, ponderou a associação.
Um dos exemplos é a Outfield Ventures, que começou há cerca de dez anos como consultoria em esporte e entretenimento e, a partir de 2020, criou uma gestora para começar a oferecer soluções financeiras ao setor. Segundo Marina Del Guerra, executiva responsável pela área de investimentos, a mudança ocorreu após a constatação de que muitos clientes, como clubes, empresas e startups, não encontravam crédito em condições adequadas no mercado tradicional, ou seja, por meio dos bancos.
A gestora atua em duas frentes principais: equity (participação societária) e crédito. No equity, o foco vai de aportes em empresas de tecnologia com perfil de venture capital a operações em clubes com perfil de private equity. No caso brasileiro, em geral por meio de Sociedades Anônimas do Futebol (SAFs). Já no crédito, a casa estrutura fundos para antecipação de recebíveis e também opera com compra de dívidas relacionadas a disputas na Câmara Nacional de Resolução de Disputas (CNRD), vinculada à Confederação Brasileira de Futebol (CBF).
Apesar de o futebol puxar a fila em volume, a atuação não se limita ao esporte. A gestora afirma ter operações envolvendo, por exemplo, ligas de padel (esporte de raquete jogada em duplas, misturando as regras do tênis) no exterior, projetos ligados a entretenimento e eventos (como corridas de rua) e empresas de conteúdo digital.
Na frente de crédito, a antecipação de recebíveis é apontada como um dos instrumentos mais demandados por clubes. A diferença, segundo a executiva, está na estruturação de garantias. Enquanto financiadores tradicionais tendem a restringir lastro a direitos de transmissão e patrocínios, operações especializadas no segmento podem incluir uma cesta mais ampla, como bilheteria, sócio-torcedor e até receitas ligadas a atletas.
O porcentual de receitas que pode ser antecipado varia caso a caso, segundo Guerra. A análise considera a classificação de risco, o rating, do clube, a capacidade de geração de caixa, o nível de endividamento e se as garantias já foram comprometidas em outras operações.
A Outfield afirma ter atuado com mais de 20 clubes no Brasil entre Série A e Série B, incluindo estruturas dedicadas. Um exemplo citado é um fundo de crédito exclusivo para o São Paulo, desenhado para antecipação de recebíveis. Paralelamente, há veículos pulverizados que fazem operações menores com múltiplos clubes.
Arbitragem de capital
Outra via de financiamento ou reestruturação citada é a compra de créditos ligados a disputas na Câmara Nacional de Resolução de Disputas (CNRD), instância que arbitra conflitos entre clubes, atletas e agentes. Essas dívidas podem resultar em sanções esportivas em caso de inadimplência, como transfer ban e outras penalidades, o que tende a aumentar o incentivo ao pagamento. O transfer Ban é uma punição aplicada pela Fifa ao clube de futebol que descumpre obrigações financeiras, bloqueando o registro de novos jogadores.
Na prática, o investidor compra a dívida com deságio e dá liquidez imediata ao credor (jogador, agente ou outro clube), assumindo o direito de receber no futuro. A gestora diz que não compra qualquer caso e que avalia o estágio do processo, deságio possível e capacidade de pagamento do devedor.
A Galapagos Capital, gestora com cerca de R$ 45 bilhões sob gestão, afirma que vem ampliando sua atuação no setor nos últimos quatro anos, mirando uma demanda recorrente dos clubes por capital e um interesse crescente de investidores em produtos do setor. Hoje a casa possui quatro fundos dedicados ao esporte, distribuídos para a base de clientes da própria Galapagos (exceto varejo) e também para investidores de outras instituições, como assets, bancos e family offices.
Dos quatro fundos da Galapagos com mandatos distintos, dois deles são focados em clubes específicos (como São Paulo e Atlético-MG), enquanto um terceiro atua com múltiplos clubes e diferentes formatos de garantia. Um quarto veículo compra créditos estressados contra clubes em disputas na CNRD, em estrutura similar à de créditos judiciais. O fundo antecipa recursos a credores e busca o recebimento posterior no âmbito do procedimento arbitral.
Segundo Joel La Banca Neto, sócio e diretor da Galapagos Capital, o mercado esportivo, especialmente o futebol, historicamente ficou à margem do financiamento tradicional por questões reputacionais e de governança. “Sempre houve resistência em emprestar para clube de futebol por histórico de não pagamento, governança complexa e gasto acima da arrecadação”, disse o executivo.
A leitura, porém, é que mudanças recentes no setor, como a adoção do modelo de SAF, a entrada de investidores e o aumento do patamar de faturamento, passaram a permitir estruturas bem amarradas, com garantias e mecanismos de controle mais próximos dos padrões do mercado financeiro.
Do lado do investidor, os retornos mencionados nas operações de crédito variam, com exemplos em faixas como CDI + 7% a CDI + 12%, dependendo do fundo e do risco de cada operação. Os FIDCs costumam ter prazo na faixa de quatro a cinco anos, com possibilidade de reciclagem de capital conforme os recebíveis são liquidados. Já os fundos de equity tendem a ter prazo mais longo, com veículos que podem chegar a dez anos.
A captação, segundo a executiva da OutField, é sustentada majoritariamente por investidores institucionais, com aportes via commitment (compromisso de aporte) e chamadas de capital conforme surgem as operações. Entre os alocadores citados estão casas como Galápagos (também cogestora em fundos de crédito), Spectra (fundo de fundos), além de áreas de grandes bancos e investidores de private equity. Fundos de pensão podem participar, a depender do regulamento de cada entidade.
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