A atriz Flávia Alessandra conta como transformou sua reputação e experiência em uma carreira de empreendedora, com negócios nos setores de beleza e autocuidado.
24 de julho de 2026
Por Victor Ohana
No ar no horário nobre da TV Globo, a atriz Flávia Alessandra divide a rotina de gravações com a vida de empresária. Aos 52 anos, a artista começou a empreender na pandemia e, desde então, transformou sua experiência e reputação no universo do autocuidado em negócios. Hoje, é sócia do Salão Marcos Proença Cabeleireiros e da Royal Face, rede de clínicas de estética com mais de 250 unidades no País, além de comandar uma agência de estratégia de carreiras. Da gestão de carreiras ao mercado de estética, escolheu investir em segmentos nos quais acredita ter legitimidade para competir.
Em entrevista à Broadcast Weekend, Flávia explica por que recusou oportunidades fora de sua área de atuação, conta como concilia a rotina de gravações com a administração das empresas e compartilha as lições que considera importantes para quem decide empreender. Mais do que uma conversa sobre celebridades que se tornaram empresárias, a entrevista traz reflexões sobre gestão, escolha de sócios, formação de equipes e tomada de decisão. Dominar o produto e saber dizer não a oportunidades estão entre as lições que ela diz ter aprendido no mundo dos negócios. Veja os principais trechos da entrevista:
Broadcast – Como nasceu a Flávia Alessandra empreendedora?
Flávia Alessandra – Eu acho que essa Flávia já existia dentro de mim. Porém, digamos, um pouco sufocada. Eu não tinha como tirar ela de dentro, botar no papel, com uma novela atrás da outra, do jeito que eu fazia. A pandemia obrigou a todos nós a frearmos, a estarmos em casa e tal, e foi quando eu pude realmente olhar para dentro, entender onde eu queria estar de fato e conseguir me realizar com esse lado de empreendedora. Foi nessa época que a gente montou a nossa agência, a Agência Family, que veio com o intuito de guiar nossas carreiras: minha e do Ota (Otaviano Costa, ator e marido de Flávia). Só depois, mais tarde, no ano passado, que a Giulia (filha de Flávia) também veio para a Family. A gente entendeu que, além da agência que a gente queria, guiando as nossas carreiras, precisávamos de um local onde pudéssemos realizar os nossos projetos. Então, fundamos o nosso estúdio, o Estúdio Family, que fica em um shopping aqui no Rio de Janeiro, na Barra da Tijuca, perto de onde a gente mora.
Broadcast – E como você decidiu transformar essa experiência em novos negócios e entrar no mercado de autocuidado?
Flávia Alessandra – Na época da pandemia, foi aquele boom de lives, então a gente também fazia uma live atrás da outra. E dali eu abri também verticais para outros segmentos onde eu já queria estar e que eu definitivamente consegui me realizar, entrando em sociedade. Eu sabia que queria estar em um universo de autocuidado, um lugar que sempre me cercou. Nunca fui uma pessoa paranoica, mas sempre fui uma pessoa que cuidou de mim como um todo, de cabeça, de entender o meu corpo muito mais como um templo do que uma estatueta. E eu queria estar em locais ligados ao autocuidado. Foi quando me tornei sócia do Salão Marcos Proença, aumentei minha participação no primeiro e, depois, abrimos o segundo. Hoje, somos sócios em todos os nossos negócios. Também sou sócia da Royal Face, clínica de estética líder no mercado.
Broadcast – A escolha por esses segmentos veio de uma leitura das oportunidades de mercado, de um desejo pessoal ou de propostas que surgiram ao longo do caminho?
Flávia – Durante a pandemia, além de muita terapia, fiz cursos online sobre empreendedorismo. Também comecei a pagar uma consultoria para ter acesso a dados do universo de autocuidado. A partir da terapia, cruzada com os cursos, entendi que precisava estar em um segmento no qual tivesse domínio sobre o produto. E percebi que esse era um universo que tinha tudo a ver comigo e com a minha trajetória. Cuidados estéticos, treinos, cuidados ligados ao cabelo — acho que fui uma das atrizes que mais mudou de cabelo a cada personagem. Não adiantava eu querer me associar a uma empresa de high-tech, por exemplo, se aquilo não tivesse relação com a minha essência.
Broadcast – E como essa afinidade se transformou nas escolhas de negócios e de parceiros?
Flávia – A partir daí, foi se desenvolvendo. O Salão Marcos Proença foi onde frequentei a vida inteira. Proença é meu irmão de vida, meu padrinho de casamento. Já existia uma vontade, então tiramos o projeto do papel e depois abrimos o segundo. Eu recebo muitos convites semanalmente para participar de algum negócio, para entrar em sociedade. Tudo o que conheci sobre a Royal batia com o que eu idealizava: a democratização da beleza, tornar esse mercado mais acessível às pessoas, com preços que permitissem o acesso aos melhores produtos. Somos os maiores compradores de marcas como Allergan, Galderma e Sculptra, o que nos dá uma margem de negociação maior. Eu sonhava em fazer com que pessoas que nunca entraram em uma clínica de estética passassem a frequentar esses espaços e pudessem pagar pelos tratamentos em 12 ou até 24 vezes.
Broadcast – Qual é o estágio atual dos negócios em termos de crescimento, faturamento e alcance?
Flávia – A gente está com uma pesquisa bem fresquinha sobre o resultado final da Royal Face. Foi bem interessante, porque tivemos dados curiosos sobre as classes sociais que estamos atingindo e também sobre como o universo masculino está passando a se engajar mais e frequentar mais, sem preconceitos. No salão, quando inauguramos o segundo, fizemos uma pesquisa interna com nossas clientes. Perguntamos: vocês querem que a gente cresça? E o que ouvimos de todas elas é que não queriam que aumentasse a quantidade de atendimentos, porque são universos completamente diferentes. No Salão Marcos Proença, temos um público Triple A, que busca mais exclusividade. Prefere pagar mais e não ter um lugar tumultuado. Na outra ponta, tenho uma clínica completamente democrática.
Broadcast – Diante de públicos tão diferentes, como vocês pensam a estratégia de expansão de cada negócio?
Flávia – A gente até tem vontade de expandir o salão, mas estudamos muito, porque entendemos que a figura do Proença ainda é um fator sine qua non para estar presente em todos eles. Ele precisa se fazer presente, porque é um diferencial. Enquanto isso, na Royal Face, estamos em absoluta expansão, de uma forma muito controlada e inteligente, porque nossas franquias funcionam dessa forma. Estudamos a localização de cada uma, porque não queremos que haja incompatibilidade ou concorrência entre as franquias. Queremos que todas funcionem. Temos estudos desde a localização até o apoio necessário para que cada unidade aconteça e atinja suas metas.
Broadcast – Os resultados estão satisfatórios?
Flávia – Super satisfatórios. Maravilhosos. É um mercado que não chega nem perto do que pode ser consumido. A gente fez um encontro de renovação com franqueados e com outros possíveis para tirar dúvidas e tudo mais, e a gente vê que o percentual de pessoas que acessam uma clínica de estética ainda é baixíssimo, dentro do que a gente ainda espera, dentro do que ainda é o mercado. Então, é daí para a Lua mesmo.
Broadcast – Como você concilia a rotina de gravações de uma novela com a gestão dos seus negócios?
Flávia – Essa parte é a mais difícil. Eu justamente consegui me realizar nessas áreas numa época em que eu estava distante de novelas na Globo. Então criamos a nossa novela vertical junto com o UOL, apresentei um reality show, apresentei um podcast também de autocuidado, lancei uma plataforma de desenhos, e eram coisas que eu fazia de forma pontual. O que está sendo uma loucura hoje é justamente conciliar tudo, empreender junto com uma novela. Posso dizer para você que não é fácil. Estou tentando administrar cada vez melhor aqui meu tempo, porque eu tenho podcast também, que virou um outro case que, além de ser delicioso de fazer, é superlegal, porque eu faço com a minha filha, o Pé no Sofá Pod, com a Giulia Costa. E a gente hoje tem várias marcas procurando, então a gente abre para gravar, para estar com as marcas. E tem sido aos domingos, porque é o meu único dia certeiro de folga. Então, se você olhar para a minha agenda, os meus domingos já estão lotados. Então, assim, está sendo uma loucura mesmo, não tem sido fácil.
Broadcast – Quais características você considera essenciais para quem quer empreender?
Flávia – Empreender é um universo que me encanta. Dá trabalho, é um exercício diário, mas é encantador. Eu faço palestras também, pelo Brasilzão, sobre a necessidade de estar sempre em movimento, em mudança, buscando fazer coisas novas. O que mais ouvi é que você precisa dominar o produto do qual quer falar. Não adianta eu querer me tornar sócia e vir falar de algo que não conheço. O segundo ponto é: não coloque todas as suas economias nesse negócio, porque, por mais que você saiba e esteja cercada de pessoas, esse negócio vai levar um tempo até amadurecer. Não conheci até hoje um negócio que foi lançado e deu certo de cara. Ele tem um tempo de ajuste, de coordenação.
Broadcast – E quando é preciso dividir a sociedade? O que você considera fundamental na escolha de um sócio e de uma equipe?
Flávia – Se você precisar ter um sócio, porque é algo da nossa realidade, tem que se fazer aquela famosa pergunta: você se vê com esse sócio daqui a 20 anos? Porque é um casamento. Se você tem dúvidas, eu vou dizer: não abra esse negócio, porque você pode até perder o seu negócio. Talvez, no momento em que o produto já esteja bem colocado, com o nome bombando, se você não tiver sintonia com o seu sócio, você vai romper com ele, e vocês vão cair numa briga. Você pode perder o seu negócio, o seu produto, tudo o que realizou até então. Outro ponto muito importante é cercar-se de um belo time. É isso que vai fazer toda a diferença para você conseguir aprender a delegar.
Broadcast – É possível dizer algo que desperte alguém para o empreendedorismo?
Flávia – O brasileiro, de forma geral, a gente não estuda sobre empreender, sobre economia financeira do dia a dia. A gente não tem isso na nossa cultura. São passos que os Estados Unidos já fazem há algum tempo dentro de sala de aula. Então, a gente tem visto, de uns anos para cá, o brasileiro com esse movimento de querer empreender. É muito trabalho, mas é um trabalho que, quando você se dedica, você tem uma realização muito grande. Ver o seu negócio acontecendo, ter a sua independência financeira. Daqui, eu retiro frases que a gente tanto ouvia, como, “ah, eu quero empreender porque eu não quero ter patrão”. É mentira, porque todos viram seu patrão quando você começa a empreender. Mas é num lugar de autonomia, de estar se realizando com algo que você ama e de ter o retorno financeiro, com toda a batalha na nossa economia, sem incentivos, com todos os impostos, mas é uma grande realização empreender.
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