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15 de junho de 2026
Por Camila Vech e Crisley Santana
São Paulo, 15/06/2026 – Caracterizado por um aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial, o fenômeno climático El Niño é capaz de alterar a dinâmica econômica ao afetar aspectos como oferta e demanda, inflação, juros, energia, logística e resultados corporativos. Segundo especialistas ouvidos pela Broadcast, o fenômeno deve aumentar a volatilidade na Bolsa e alterar o prêmio de risco de empresas mais expostas ao clima, podendo desencadear revisões de projeções e, ainda, ter reflexos nos resultados.
Ainda não há uma estimativa única e confiável, porque o impacto de um Super El Niño depende da intensidade, da duração e da região afetada. “Em ações, o efeito tende a aparecer em três etapas: primeiro, aumento de volatilidade e prêmio de risco; depois, revisão de projeções de produção, margens e inadimplência; por fim, impacto efetivo nos resultados trimestrais”, explica o analista da Ouro Preto Investimentos, Sidney Lima.
Para ele, a proteção aos investimentos deve vir por diversificação, redução de concentração em empresas muito sensíveis ao clima e preferência por companhias com balanço forte, baixa alavancagem, geração de caixa previsível e menor exposição direta ao ciclo agrícola.
“Não existe uma ação imune ao Super El Niño, mas há perfis mais defensivos: empresas com receita regulada, modelos de negócio menos dependentes de safra, companhias com poder de repasse de preços e negócios com menor volatilidade operacional”, afirma.
A economista-chefe da InvestSmart XP, Mônica Araújo, aponta que o investidor deve manter parte de seus investimentos alocados em ativos que protejam seu poder de compra e em ações de empresas que tenham garantido o repasse, a seus produtos e serviços, da pressão inflacionária que poderá vir.
Entre as empresas mais resilientes, o professor de finanças da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Ahmed El Khatib, cita transmissoras de energia, como Taesa e Isa Energia Brasil; as de saneamento, como Sanepar e Copasa; a Telefônica, no setor de telecomunicações; e seguradoras, apesar da alta na sinistralidade. “Seguradoras maiores e mais capitalizadas, como Porto, frequentemente conseguem absorver melhor esses choques devido à diversificação operacional, capacidade atuarial e escala financeira”, explica.
Nesse contexto, a Genial avalia o agro como o setor com o risco mais elevado, seguido por bancos, seguradoras, mineração e energia, entre os segmentos considerados moderado/alto. Frigoríficos são classificados como moderados, enquanto o setor imobiliário, papel e celulose são de baixo risco.
No caso dos bancos, a corretora explica que o risco é alto porque o agro já vive um ciclo pressionado, com margens menores, endividamento, juros altos, queda de commodities e mais recuperações judiciais. Um novo choque climático pode piorar o crédito rural, elevar provisões das instituições financeiras (PDD) e renegociações, pressionar capital e lucro, sobretudo no Banco do Brasil, Banco ABC e Banrisul, apesar da mitigação via seguro agrícola.
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Khatib, da Unifesp, complementa a visão da Genial, citando as aéreas, que tendem a sofrer porque um El Niño forte geralmente aumenta a frequência de turbulências operacionais, atrasos, cancelamentos e custos logísticos.
Já empresas como Magazine Luiza e Casas Bahia ficam vulneráveis porque eventos climáticos severos tendem a pressionar alimentos, energia e transporte. “Quando o orçamento familiar passa a ser consumido por itens essenciais, sobra menos espaço para consumo de bens duráveis, eletrônicos e produtos financiados”, explica o professor.
Ele também cita a Rumo e outros operadores ferroviários, portuários e exportadores agrícolas, que podem sofrer com interrupções em rodovias, redução da navegabilidade de rios e aumento de custos operacionais.
Intensidade
Previsões climáticas discutem a possibilidade de o evento se comparar com os episódios de 1982 e 1983, 1997 e 1998, além de 2015 e 2016, considerados alguns dos mais intensos já registrados. A grande questão agora não diz respeito apenas à ocorrência do fenômeno, uma vez que a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA, na sigla em inglês) confirmou nos últimos dias o início oficial do El Niño, mas à intensidade com que ele deve se manifestar.
“A consequência dessa mudança vai afetar vários setores de forma direta, tais como o agronegócio e utilities (energia e saneamento), a mineração de forma mais relevante, mas também de forma secundária outros setores, entre eles o setor financeiro”, afirma Mônica, da XP.
O analista de investimentos da Daycoval Corretora, Gabriel Mollo, destaca a volatilidade de preços que pode ser causada pelo El Niño. “É muito difícil nos beneficiarmos de um fenômeno como esse porque introduz muita volatilidade na economia. Por exemplo, se houver uma mudança no fluxo dos rios, como a nossa matriz energética é hidrelétrica, pode acontecer de termos que recorrer às termelétricas”, diz.
Ele acrescenta que tende a haver mudanças mais relevantes em empresas do agronegócio e de geração de energia, embora as consequências possam se “ramificar para cadeias inteiras”. Isso porque, em um cenário em que haja quebra de safra, empresas podem ter dificuldades em arcar com suas responsabilidades, aumentando a inadimplência, o que atinge bancos e seguradoras.
El Khatib, da Unifesp, observa ainda que o El Niño pode produzir um efeito indireto sobre a política monetária, uma vez que, caso a inflação climática pressione alimentos e energia por vários trimestres, o Banco Central pode manter juros elevados por mais tempo. Ele explica que isso reduz o crédito disponível, encarece o financiamento e afeta diretamente empresas dependentes de parcelamento e consumo financiado.
Contato: camila.vech@estadao.com; crisley.santana@estadao.com
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