Jatos executivos, obras de arte e até obtenção do Green Card ganham peso nas carteiras de investimento como ferramentas de sucessão patrimonial
21 de agosto de 2026
Por Jean Mendes
A categoria de ativos ilíquidos, que reúne aplicações cuja venda costuma demandar mais tempo, como imóveis, veículos, obras de arte e cotas de fundos fechados, tem ganhado cada vez mais espaço nas carteiras dos ultrarricos.
“Em muitos casos, já representam uma fatia maior do patrimônio do que os investimentos que têm mais liquidez”, ressalta Marcelo Gorenstein, diretor da LCR Capital Partners no Brasil e América Latina.
Entre esses ativos, a compra de aeronaves virou trend de investimento. O movimento, que ganhou força após a pandemia de Covid-19, se mantém em alta impulsionado principalmente pela longa fila de espera para a entrega de jatos novos, que há anos supera 24 meses e pode chegar a 60 meses, segundo a Associação Brasileira de Aviação Geral (ABAG).
Diante dessa demora, o mercado de aeronaves usadas passou a representar uma oportunidade atrativa para esse público, com modelos mais antigos registrando valorização ano após ano, segundo Marianna Gatti, líder de Estruturação de Crédito do Santander Private Banking.
Hoje, o Brasil é o segundo maior mercado de aviação executiva do mundo, atrás apenas dos Estados Unidos, segundo a ABAG. Dados da entidade indicam que a frota de aviação de negócios no País, a categoria que inclui aeronaves de empresas e de pessoas físicas, somava 11.362 unidades em maio deste ano. Desse total, 1.193 eram jatos executivos, número 12,5% superior ao registrado em maio de 2025.
Segundo Marcos Florentino, supervisor técnico da ABAG, ao contrário do mercado de automóveis, não existe para as aeronaves uma referência equivalente à Tabela Fipe que sirva como parâmetro de preços. A avaliação de um avião depende de fatores como ano de fabricação, modelo, motorização, estado de conservação, histórico de manutenção e configuração.
De acordo com Florentino, aeronaves com boas manutenções já realizadas, motores revisados e interior modernizado tendem a alcançar valores mais elevados. Em contrapartida, inspeções vencidas, restrições técnicas, pendências de aeronavegabilidade ou histórico de avarias podem reduzir de forma significativa o preço do ativo.
A velha lei da oferta e demanda infla os preços. Segundo Gatti, como a disponibilidade de modelos é limitada e a procura permanece elevada, compradores dispostos a receber o avião de forma imediata acabam pagando um prêmio sobre o valor de mercado.
“Esses ativos de maior valor são muito disputados. Dependendo da avaliação e da demanda, uma aeronave avaliada em US$ 10 milhões pode receber ofertas de US$ 11 milhões ou até US$ 12 milhões, simplesmente porque o comprador quer levá-la imediatamente”, afirma Gatti.
A Embraer, por exemplo, tem lidado com atrasos de seus fornecedores, o que impacta a produção de jatos executivos. No entanto, segundo disse em teleconferência o presidente da companhia, Francisco Gomes Neto, a perspectiva é de um desempenho muito melhor no nivelamento da produção, com produtividade e eficiência maiores.
O Embraer Praetor é uma família de jatos executivos de médio e supermédio porte. Em 2020, o prazo de produção era de 18 meses; agora é de cerca de oito meses e meio, prazo muito menor que a média vista no mercado, de 24 a 60 meses. Segundo Gomes, a Embraer está aplicando esse tipo de melhoria aos demais aviões e, com isso, pretende produzir mais aeronaves com a mesma estrutura.
Mas as aeronaves são apenas uma parte dessa estratégia. Segundo apuração da <b>Broadcast</b>, imóveis, veículos de luxo, obras de arte e até investimentos voltados à obtenção do visto EB-5 figuram entre as principais escolhas desse perfil de investidor.
O programa de visto EB-5 concede o Green Card (residência permanente nos Estados Unidos) a investidores estrangeiros e suas famílias em troca de um aporte financeiro em um empreendimento nos Estados Unidos que gere empregos, geralmente vinculado ao mercado imobiliário. Atualmente, o investimento mínimo para participar do programa é de US$ 800 mil.
Gorenstein afirma que esse tipo de investimento (visto EB-5) costuma ser realizado por brasileiros com patrimônio financeiro líquido superior a R$ 10 milhões, mas existe a busca por investidores que têm portfólios a partir de R$ 5 milhões. Segundo ele, trata-se de uma estratégia de médio e longo prazo, geralmente associada ao planejamento de uma futura mudança para os Estados Unidos.
Nesse contexto, o EB-5 aparece no radar como um ilíquido com objetivo que vai além do retorno financeiro: para parte dos investidores, ele se conecta a decisões familiares e ao planejamento patrimonial de longo prazo, incluindo a forma de organizar bens e preparar a sucessão.
Sucessão patrimonial
Alamy Candido, sócio fundador do Candido Martins Cukier, comenta que essa parcela de investimentos ilíquidos também tem função relevante na construção do patrimônio das famílias, especialmente quando o assunto é sucessão patrimonial.
Segundo Candido, o planejamento sucessório de grandes fortunas não segue um modelo único, já que cada família possui características e objetivos específicos. Ainda assim, ativos de alto valor e maior complexidade, como aeronaves executivas, costumam ser alocados como parte da estratégia de sucessão e organização do patrimônio em holdings patrimoniais, as empresas constituídas para administrar bens e investimentos.
Com a diversificação para ativos menos líquidos, cresce também a necessidade de planejamento para compra, gestão e eventual venda desses bens, além de regras claras de governança e sucessão. Na prática, o movimento combina oportunidades pontuais de mercado com escolhas patrimoniais de longo prazo, que variam conforme o perfil e os objetivos de cada família.
* Com colaboração de Júlia Pestana
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