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15 de junho de 2026
Por Flávia Said
Brasília, 15/06/2026 – Joe Ngai, sócio sênior e líder global do escritório da McKinsey na China, avalia que a questão posta ao Brasil na relação com o país asiático é encontrar uma maneira de trabalhar com as empresas chinesas e integrá-las ao ecossistema brasileiro, em vez de lutar contra o avanço delas no mercado nacional.
“O Brasil possui muitos recursos que a China precisa. Acredito que, em muitos aspectos, o Brasil é mais complementar à economia chinesa do que a maioria dos países. Penso que há muito mais potencial à medida que a China continua a prosperar e a se tornar mais rica como país”, sustentou Ngai em entrevista por escrito à Broadcast.
“Trabalhe com as empresas chinesas, não contra elas. Pense em parceria, não em competição. Este é o meu conselho para muitas empresas: as empresas chinesas continuarão a melhorar e, às vezes, sinto que é impossível ‘alcançar’ sua competitividade, então encontre outras maneiras de trabalhar com elas”, sugeriu o sócio da consultoria.
Na análise de Ngai, a questão prática para os líderes brasileiros é como melhor responder a esse cenário – aprimorando capacidades, encontrando posições complementares e construindo parcerias. “Dada a competitividade desses players chineses, como encontrar uma maneira de trabalhar com eles ou integrá-los ao seu ecossistema, em vez de competir com eles?”
O líder da McKinsey destacou que a China responde hoje por cerca de 30% da produção industrial global, mas apenas por cerca de 18% do consumo global. “Essa diferença aumentou a importância dos mercados externos para muitos fabricantes chineses. A participação da China nos fluxos globais de exportação industrial subiu de aproximadamente 5% em 2001 para mais de 20% em 2024, e a China é agora o maior exportador em quase 60% das categorias de produtos em todo o mundo.”
Ele argumentou que não se trata mais apenas da exportação de têxteis e brinquedos de baixo custo, como foi no passado. As empresas chinesas são agora competidoras world-class em veículos elétricos, baterias, equipamentos solares, eletrônicos avançados, produtos com inteligência artificial (IA) e em marcas de consumo, agrotecnologia e máquinas industriais.
Em um mercado interno extremamente competitivo, a maioria das empresas chinesas encontra margens muito pequenas. “O retorno sobre o capital investido na China é menor do que o da maioria dos mercados ocidentais e maduros. De certa forma, as empresas chinesas estão indo para o exterior em busca de margens melhores. É quase uma maneira de sobreviver à concorrência doméstica”, argumentou.
Além disso, ele acrescentou que as sobreviventes dentro do mercado chinês são aquelas que combinam velocidade, eficiência, obsessão pelo cliente e execução implacável.
“Costumo descrever o mercado interno da China como ‘a academia mais difícil do mundo’. As condições hipercompetitivas e de excesso de oferta no mercado interno forçaram as empresas chinesas a desenvolver capacidades que antes eram desnecessárias”, prosseguiu.
Competição na indústria e no varejo
Indagado sobre o que essa nova fase de competição impulsionada pela China significa para a política industrial do Brasil e para a estratégia corporativa, Ngai explicou que pode ser um alerta para muitas empresas brasileiras. “As implicações setoriais variam, mas um tema comum é a crescente importância das capacidades, da produtividade e da competitividade.”
O setor industrial é, naturalmente, o mais exposto à pressão competitiva da China, o que inclui siderurgia e processamento de metais, fabricação de equipamentos, produtos químicos, cadeia de suprimentos automotiva, etc.
O consultor destacou que as empresas chinesas estão avançando no uso de IA em seus processos de negócios principais. Atualmente, todos os presidentes de empresas chinesas estão incentivando suas companhias a adotar IA em larga escala. “É claro que muitos desses experimentos não trarão benefícios imediatos, mas, considerando a velocidade com que estão sendo feitos, haverá muitos casos de sucesso. E essas empresas serão ainda mais competitivas do que são agora”, projetou.
A única saída, na visão dele, é tornar-se mais produtivo e competitivo. “Talvez esta seja uma oportunidade para as empresas abraçarem a tecnologia e a IA e descobrirem como aproveitar essa oportunidade para se modernizarem e se tornarem mais produtivas. É mais fácil falar do que fazer, mas acredito que a IA representa uma grande oportunidade como o maior impulsionador de produtividade da nossa época.”
Nesse contexto, ele estima muitos desafios para o setor industrial brasileiro, e repete a questão de como o País pode ter uma política industrial capaz de atrair empresas chinesas para investir aqui. “Acredito que os chineses podem aprimorar muitas capacidades no Brasil, se forem incentivados ou forçados a fazê-lo.” Há alguns anos, empresas europeias e americanas formaram joint ventures e parcerias na China, resultando em muitas transferências de tecnologia. “Penso que chegou a hora de as empresas chinesas fazerem o mesmo em todo o mundo. Exportar suas habilidades, capacidades e propriedade intelectual, em vez de apenas exportar seus produtos físicos”, sustentou.
Joe Ngai avaliou que, mesmo a parcela de “baixa tecnologia” não está imune. Assim, os modelos chineses de fast-fashion, com sua cadeia de suprimentos superior e ciclos rápidos do projeto à entrega, representarão desafios significativos para as empresas têxteis e de vestuário locais.
No entanto, Ngai vislumbra muitas oportunidades de colaboração. Na avaliação dele, as empresas chinesas estão apenas nos estágios iniciais de aprendizado sobre como fazer negócios na América Latina. “Acredito que muitas empresas brasileiras podem ser suas parceiras para que elas se adaptem bem e se tornem membros sustentáveis ??a longo prazo da comunidade empresarial.”
E prosseguiu: “Costumo dizer que a indústria manufatureira chinesa é amiga dos consumidores, mas precisa descobrir como ser também uma empresa cidadã global e amiga das comunidades empresariais locais”.
Em uma reflexão final, ele apontou que, talvez, sob inspiração das chinesas, as empresas brasileiras podem se tornar ainda mais relevantes globalmente do que são atualmente. “Acredito em parcerias ganha-ganha, e essa oportunidade entre Brasil e China tem muito potencial para se tornar uma relação sustentável e complementar”, finalizou.
Em coautoria com Nick Leung, Ngai é autor do livro “The Next China is Still China” (A Próxima China Ainda é a China, em tradução livre), sobre como fazer negócios na China e uma análise profunda sobre por que o país, apesar dos desafios que enfrenta, ainda possui perspectivas incomparáveis de crescimento e oportunidades. O livro, ainda sem tradução para o português, será lançado nesta semana.
Contato: flavia.said@broadcast.com.br
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