Plataformas Broadcast
Soluções de Dados e Conteúdos
Broadcast OTC
Plataforma para negociação de ativos
Broadcast Datafeed
APIs para integração de conteúdos e dados
Broadcast Ticker
Cotações e headlines de notícias
Broadcast Widgets
Componentes para conteúdos e funcionalidades
Broadcast Wallboard
Conteúdos e dados para displays e telas
Broadcast Curadoria
Curadoria de conteúdos noticiosos
Broadcast Quant
Plataformas Broadcast
Soluções de Dados e Conteúdos
Soluções de Tecnologia
Para economista-chefe do Citi Brasil, Leonardo Porto, Selic a 13,25% em dezembro pode ser maior se petróleo ficar acima de US$ 100 o barril por muitos meses
4 de maio de 2026
Por Gustavo Nicoletta e Renata Pedini
O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) reconheceu nas suas projeções que o cenário de inflação piorou e que isso implicará em um ciclo mais curto de redução da taxa Selic, embora não tenha sido explícito no comunicado de ontem, segundo o economista-chefe do Citi Brasil, Leonardo Porto.
“É inequívoco que há uma mudança importante de deterioração do cenário inflacionário a despeito de haver uma política monetária mais apertada subjacente a essas projeções” e de o balanço de riscos ter permanecido inalterado desde a reunião de março, diz ele em entrevista à Broadcast.
Porto prevê a Selic a 13,25% ao fim de 2026, mas ressalta que a taxa pode ser maior se os preços do petróleo ficarem acima de US$ 100 por barril por muitos meses e, principalmente, se houver efeitos de segunda ordem do choque de preços de energia nas expectativas de inflação.
“Piorar preço do petróleo é sério, mas não é tão sério quanto desancorar expectativa de médio e longo prazo”, afirma Porto. “A métrica para os efeitos de segunda ordem são as expectativas no Focus, especialmente de 2027 em diante.” Confira abaixo os principais trechos da entrevista:
Broadcast: O Banco Central mexeu nas projeções para a inflação, mas não no balanço de riscos. Não deveria ter feito um ajuste ali também?
Leonardo Porto: Estou menos preocupado com a assimetria ou a simetria do balanço de riscos porque houve correção no cenário central. O Copom elevou a projeção central de 3,9% para 4,6% este ano e saiu de 3,3% para 3,5% no horizonte relevante. Se a projeção central vai para um patamar mais alto, naturalmente reduz a probabilidade dos cenários alternativos superiores serem maiores. Mas é preciso lembrar que a hipótese por trás dessa projeção é uma Selic de 13% para este ano, 75 pontos-base maior que a da reunião passada, e de 11% para 2027, 50 pontos acima da anterior. Esse é o tamanho da pressão inflacionária que o Banco Central está reconhecendo. É inequívoco que há uma mudança importante de deterioração do cenário inflacionário a despeito de haver uma política monetária mais apertada subjacente a essas projeções. O Copom não reconheceu explicitamente que o ciclo de calibração de juros ficou mais curto, mas está implícito nas projeções.
Broadcast: Qual a trajetória esperada para a Selic após o comunicado do Copom?
Porto: O nosso cenário-base é o Banco Central cortar os juros em 25 pontos nas próximas reuniões e parar com 13,25% no final deste ano. Depois, vai ter eleição e quem sabe complementa o ciclo no segundo semestre de 2027. O comunicado mudou muito pouco o nosso cenário. O Banco Central colocou a projeção de inflação para o horizonte relevante em 3,5%, acima da meta de 3%. Os juros embutidos estão baixos e vão ter que ser mais altos. Tem que ser acima de 13%. Prevemos 13,25%. Estamos do lado certo da projeção. O risco é ficar acima disso. Na nossa projeção, o preço do petróleo Brent cai gradualmente a partir do segundo trimestre até atingir US$ 85 por barril no final deste ano. Mas não é só o nível. Importa o tempo em que o preço do petróleo vai ficar acima de US$ 100. Se ficar até novembro e depois cair a US$ 85, não resolve, porque enquanto estiver acima de US$ 100 gera pressão inflacionária, está pegando nos índices de inflação.
Também importam repercussões em outros mercados, como commodities, fertilizantes e alimentos. Por enquanto não está aparecendo e não consideramos esses efeitos. Mas tem um componente, os efeitos de segunda ordem, que dependem muito do tempo que o petróleo vai ficar em um patamar elevado. A projeção de inflação para 2027 no Focus pulou de 3,8% para 4%. Isso é um sinal de efeito de segunda ordem.
À medida que o tempo passa e o petróleo continua em três dígitos, incorporamos cenário novo. Se maio tiver petróleo em três dígitos, pode ficar claro que 13,25% para a Selic está ambicioso e a taxa terminará o ano acima deste nível. A incerteza é muito grande.
Broadcast: Qual seria o gatilho para uma pausa nos cortes da Selic?
Porto: Não há mais forward guidance. O Copom trocou “dar início” ao ciclo de calibração por “dar sequência”. A semântica significa que não tem forward guidance. Está com mais liberdade, mais flexibilidade. Há reconhecimento de que o juro real está bem acima do equilíbrio e existe algum espaço para cortar, mas limitado. Um gatilho para não cortar na próxima é o cenário inflacionário piorar ainda mais. O comunicado não parece de alguém prestes a parar. Parece desconfortável, ajustando o processo. Para parar teria que ter piora adicional em termos de projeção.
Algumas variáveis são mais graves no sentido de deixar o BC mais sensível. Piorar preço do petróleo é sério, mas não é tão sério quanto desancorar expectativa de médio e longo prazo. Se no próximo Copom o 4,6% para a inflação em 2026 virar 4,8%, e mantiver 3,5% no horizonte relevante, é menos grave do que o horizonte relevante pular de 3,5% para 3,7%. O horizonte relevante é o que ele mira. A métrica para os efeitos de segunda ordem são as expectativas no Focus, especialmente de 2027 em diante. Vai ser importante para avaliar o desconforto do BC.
Broadcast: Quanto à ata do Copom, há algum ponto que deve chamar mais atenção?
Porto: Muitas vezes o BC coloca na ata o que não é consensual, e não no comunicado. Esperar a ata é importante para desenhar melhor o que está passando na cabeça do BC e possivelmente ajustar o cenário de juros. Será relevante observar se vai ter reconhecimento de que o ciclo de calibração dos juros vai ficar menor em relação ao que ele tinha anteriormente. Isso está na projeção, mas não foi explicitado no comunicado.
Broadcast: Quais as projeções do Citi para a inflação? Espera revisão delas no curto prazo?
Porto: 4,5% para 2026 e 3,7% para 2027, levemente abaixo do BC este ano e levemente acima no ano que vem. Fizemos essa revisão no relatório global da semana retrasada. As hipóteses estão altamente sensíveis ao petróleo e à dinâmica do Focus. Se o petróleo continuar subindo, pressiona a revisão, mas a incerteza é alta. Não é hora de operar oscilações de curtíssimo prazo. Me parece mais apropriado serenidade e cautela, como diz o BC. O petróleo varia 10% de um dia para o outro.
Broadcast: E em relação à projeção para a Selic em 2027?
Porto: É 11,25%, com 200 pontos de corte adicional no segundo semestre de 2027. Mas aí tem toda uma história de novo governo reafirmar política fiscal, choque do petróleo passar, petróleo cair, reancoragem de expectativas e reforço da política fiscal. Mas se é difícil olhar agora, no ano que vem o nível de confiança é baixíssimo, com eleição no meio.
Broadcast: Qual a previsão para a atividade? Pode sofrer algum efeito colateral do petróleo acima de US$ 100 por barril?
Porto: A atividade mostra uma resiliência surpreendente. Os dados do primeiro trimestre são fortes: produção industrial subiu dois meses seguidos; Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD) da semana passada com desemprego mais alto é sazonalidade. Na leitura dessazonalizada está estável. Há crescimento do emprego e salário subindo. O Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) veio acima do que mantém o desemprego estável. O mercado de trabalho continua sólido. O PIB do primeiro trimestre deve acelerar. Estamos com previsão de alta de 0,8%. Esta semana começam os dados de março. O primeiro trimestre tende a ser o mais forte, depois, o crescimento diminui, terminando o ano em 1,8%. Ano que vem também deve ser 1,8%, perto do PIB potencial. A resiliência continua surpreendendo.
Veja também