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Preços muito além das estações

Antigas variações previsíveis deram lugar a um ambiente de preços bem mais volátil, com espaço para dinâmicas globais e transformações na forma do consumo

14 de agosto de 2026

Por Francisco Carlos de Assis

Transformações climáticas globais mais rápidas e intensas, inovações tecnológicas e mudanças no consumo deixaram a composição da inflação menos suscetível à sazonalidade -variações regulares e previsíveis de preços em certas épocas do ano. Soma-se a isso uma economia mais aberta do que há duas ou três décadas. Nos anos 1990 e 2000, era comum que coordenadores de índices de preços alertassem para geadas, excesso ou falta de chuva nos cinturões verdes, afetando hortifrutigranjeiros. No campo, a preocupação incluía a escassez de pasto em invernos rigorosos, com impacto sobre preços da carne, e danos à florada do café.

Economistas como Juarez Rizzieri (Fipe), Salomão Quadros (FGV), Cornélia Nogueira (Dieese), Luís Roberto Cunha (IBGE), Basiliki Litvac (à época na MCM Consultores), Heron do Carmo (Fipe) e Paulo Picchetti (Fipe/FGV) eram fontes recorrentes para estimar, por exemplo, o efeito da quaresma nos preços de ovos e peixe ou as quedas sazonais das carnes.

Também no vestuário a sazonalidade era mais visível: famílias esperavam liquidações entre coleções e, em São Paulo, a Fenit (1958-2009), no Anhembi, simbolizava o ritmo do setor e ajudava a reforçar padrões sazonais de preços.

Para especialistas ouvidos pela Broadcast Weekend, a sazonalidade ainda exerce algum efeito sobre os preços, mas enfraqueceu diante de choques maiores e mais frequentes. Heron do Carmo, hoje professor sênior da FEA/USP, atribui parte dessa mudança à demografia e ao consumo. Segundo ele, o microclima regional perdeu peso frente a crises climáticas de escala global, como El Niño bem rigoroso em 2014 e 2024.

“Diante desses fenômenos, uma geada no Paraná já não assusta tanto”, diz. Ele aponta ainda que crises geopolíticas, como a guerra na Ucrânia, e mudanças no mercado de vestuário tornaram os padrões menos nítidos: as diferenças entre moda de inverno e de verão já não se refletem como antes nos preços.

André Braz, coordenador dos Índices de Preços da FGV Ibre, afirma que a sazonalidade não desapareceu, mas tem sido mascarada por eventos atípicos sobrepostos. Ele cita a pandemia em 2020, que alterou consumo e elevou preços com gargalos produtivos e logística mais cara, a crise hídrica de 2021, que afetou safras e pressionou a energia via bandeiras tarifárias, e, em 2022, a guerra entre Rússia e Ucrânia, que atingiu commodities como soja e trigo e encareceu alimentos.

Após alívio em 2023, 2024 voltou a registrar impactos climáticos. Para Braz, a maior frequência e intensidade de El Niño e La Niña reduz os intervalos de estabilidade e aumenta a instabilidade dos preços.

Rafael Cardoso, economista-chefe do Banco Daycoval, prefere analisar o El Niño por duas lentes: global e local, pois o fenômeno afeta de modo diferente preços internacionais de commodities e itens da cesta básica, como hortaliças e legumes. Como as pressões são heterogêneas -altistas para algumas culturas e neutras ou baixistas para outras -, mudam correlações históricas e tornam a inflação mais volátil e menos previsível pelos padrões tradicionais.

Avanço agrícola 

 O desenvolvimento de variedades agrícolas mais resilientes às mudanças climáticas é uma realidade crescente e tem ajudado a mitigar boa parte dos efeitos da sazonalidade sobre a inflação, avalia Braz. Ele cita como exemplo a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), que trabalha no aprimoramento de cultivares, como um tipo de milho que demanda 25% menos água, permitindo o cultivo em condições climáticas adversas.

“Esse avanço tecnológico contribui para atenuar a sazonalidade na produção, uma vez que possibilita a colheita em ambientes anteriormente inóspitos, o que tende a estabilizar os preços. Todavia, essa estabilidade depende da frequência de eventos climáticos extremos. Caso fenômenos como o El Niño se tornem recorrentes, as projeções de regularidade ficam severamente comprometidas”, alerta.

Além dos fatores climáticos, tensões geopolíticas exercem pressão constante sobre os mercados, mascarando a sazonalidade tradicional dos alimentos, acrescenta Braz. “Embora o ciclo natural dos produtos ainda exista, a combinação de inovações tecnológicas, como o cultivo em ambientes controlados e o aprimoramento genético, com a dinâmica da logística global tem alterado a nossa percepção sobre essas oscilações”, observa o economista do FGV IBRE.

Heron do Carmo, da FEA-USP, entende que o menor protagonismo da sazonalidade na composição da inflação reflete principalmente uma mudança nos padrões de consumo, impulsionada pela maior disponibilidade de produtos, decorrente de um processo de abertura econômica mais amplo do que o observado no passado.

“Nesse contexto, os índices de preços ao consumidor se baseiam em amostras selecionadas. Contudo, há uma vasta gama de itens que, embora individualmente tenham peso reduzido no índice, influenciam indiretamente o consumo e os preços da cesta básica ao servirem como substitutos”, diz.

Segundo ele, no setor de alimentos essa dinâmica é ainda mais evidente. Antigamente, variações climáticas regionais impactavam severamente os preços de produtos específicos, como feijão ou batata. Hoje, a sofisticação da produção agrícola e a maior integração do mercado nacional mitigaram esse efeito.

“O avanço tecnológico permitiu a expansão de novas fronteiras agrícolas, como a fruticultura no Nordeste, que agora abastece todo o País, independentemente das condições climáticas em outras regiões. Ademais, apesar de deficiências logísticas remanescentes, houve avanços significativos na infraestrutura de transporte, reduzindo o tempo de escoamento das mercadorias. Esse cenário altera a percepção de sazonalidade”, pontua o professor da FEA-USP.

Assim, reforça Heron, produtos antes marcados por variações sazonais acentuadas, como frutas, batatas e tomates, podem ter impacto relevante nos índices de inflação não necessariamente por seu peso na cesta, mas pela volatilidade extrema de seus preços. Por isso, diz, é importante distinguir esse efeito da dinâmica dos itens de maior peso no grupo alimentação.

Carne bovina

Heron cita também a transformação do modelo de produção pecuária como fator de mitigação da sazonalidade dos preços. A carne bovina, por ser o principal produto do segmento, exerce papel determinante na formação de preços e consolidou o Brasil como um dos maiores exportadores globais. “Com a predominância do confinamento em substituição à pecuária extensiva, foi mitigada a sazonalidade que historicamente elevava os preços no inverno, um período em que a escassez de pasto reduzia a oferta e afetava o peso do gado”, avalia.

Ainda que essa sazonalidade anual tenha arrefecido, os ciclos pecuários de longo prazo persistem. Eles seguem a lógica de flutuações na oferta. Quando os preços caem, aumenta o abate de matrizes, o que aprofunda a queda inicial e, mais adiante, gera escassez que impulsiona os preços. Contudo, ressalta o economista, a volatilidade atual é determinada menos por fatores regionais e mais por dinâmicas globais.

“Fenômenos climáticos, como o El Niño, impactam a produção de alimentos mundial de forma abrangente. Exemplos recentes incluem a alta expressiva do azeite, devido a secas na Europa, e a valorização do café, afetado por quebras de safra tanto no Brasil quanto no Vietnã, um dos principais produtores da variedade robusta”, afirma.

Para Heron, esses movimentos confirmam a aplicação do modelo econômico de defasagem distribuída: choques de oferta elevam os preços e, após um intervalo, estimulam o aumento da produção, reequilibrando o mercado.

Novas oscilações

Heron do Carmo afirma que a sazonalidade perdeu peso na composição da inflação brasileira não porque tenha desaparecido, mas porque passou a conviver com novas fontes de oscilação de preços e com um ambiente inflacionário mais estável desde meados dos anos 1990. Para ele, a leitura dos índices hoje exige separar a sazonalidade “clássica” de movimentos recentes, além de levar em conta choques de oferta cada vez mais frequentes.

Segundo ele, surgiram fatores de sazonalidade que antes praticamente não existiam, com destaque para passagens aéreas. O item passou a registrar variações sazonais acentuadas, intensificadas no pós-pandemia. Na avaliação do professor, a fragilidade financeira das companhias aéreas durante a crise sanitária levou muitas empresas a adotar políticas de preços mais agressivas, consolidando uma dinâmica de fortes oscilações em períodos de maior demanda.

Ao mesmo tempo, ele diz ser necessário distinguir esse tipo de sazonalidade de ajustes tradicionais, frequentemente chamados de movimento gregoriano de preços. Trata-se dos reajustes habituais concentrados no início do ano, como mensalidades escolares, IPTU e honorários de serviços profissionais, que costumam acompanhar o retorno das férias. Esses aumentos, observa, historicamente estiveram atrelados à indexação e à inflação do período anterior.

Apesar disso, Heron ressalta que a inflação brasileira se tornou mais resiliente e comportada desde 1996. Pelas contas do professor, a média do IPCA desde então gira em torno de 6%, com raras oscilações acima de 10% ou abaixo de 4%. Nesse contexto, embora reajustes contratuais continuem ocorrendo, eles tendem a manter coerência com a expectativa inflacionária do próprio ano, o que reduz o potencial de amplificação sazonal no índice. Ele reconhece que há exceções, como planos de saúde, que frequentemente registram reajustes acima da média, mas pondera que, no conjunto, esses movimentos acabam contribuindo para uma trajetória mais estável ao longo do ano.

Crise hídrica

Heron acrescenta que, além da mudança na natureza da sazonalidade e da maior estabilidade do regime inflacionário, a dinâmica recente dos preços é cada vez mais influenciada por choques de oferta. Entre eles, cita fatores geopolíticos, como a volatilidade do petróleo, e eventos climáticos extremos. O El Niño, exemplifica, aumenta a incerteza no setor de alimentos, tanto no Brasil quanto no exterior, e também pode afetar a energia ao elevar o risco de crise hídrica.

O professor observa, porém, que esse risco vem sendo parcialmente mitigado pela diversificação da matriz energética, com maior participação de fontes solar e eólica. Ele destaca que projetos dessas fontes têm viabilidade operacional e agilidade de execução superiores às de usinas termoelétricas, embora o principal desafio esteja na expansão e modernização da infraestrutura de transmissão, que exige mais tempo. Ainda assim, Heron avalia que a volatilidade dos preços de energia -historicamente associada a crises hídricas – está hoje mais controlada com o sistema de bandeiras tarifárias, mecanismo que teria reduzido a sazonalidade que caracterizava o setor.

Para o economista, essa suavização da sazonalidade contribui para manter a inflação em uma faixa mais previsível, em geral entre 4% e 6%, o que facilita a condução da política econômica. Com índices mais comportados, afirma, o Banco Central consegue atuar com maior precisão diante de choques como altas de alimentos, buscando impedir que pressões pontuais se propaguem e contaminem expectativas de longo prazo.

Heron acrescenta que, além da reação monetária para evitar efeitos secundários, o governo pode lançar mão de instrumentos para amortecer choques, como facilitar importações, desonerar tributos ou conceder subsídios a combustíveis, medidas que ajudam a estabilizar a trajetória inflacionária ao longo do ano.

Ele lembra, por fim, que a vulnerabilidade da inflação a eventos climáticos é tema relativamente recente no debate econômico. Historicamente, esse fator não tinha o peso atual, e os marcos dessa mudança foram a crise hídrica de 2001-2002, com fortes impactos políticos e econômicos, e um novo episódio severo em 2014, que reforçou a necessidade de monitoramento constante de choques exógenos.

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