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A equação que encareceu o prazer

Dos ventos do Saara, passando pelo super El Niño até crises financeiras. Saiba qual o cenário global para os novos preços do cacau

26 de junho de 2026

Por Guilherme Nannini

O chocolate ficou mais caro, mas a história do cacau hoje está menos na prateleira do supermercado e mais no cruzamento entre clima, geopolítica, dívida pública e novas regras ambientais. Depois do choque que levou os contratos futuros da commodity a superar US$ 12 mil por tonelada no início de 2025, o mercado dava sinais de acomodação. Bastaram novas preocupações climáticas na África Ocidental para reacender a percepção de que o cacau entrou em uma era estruturalmente mais cara e muito mais instável.

A recuperação recente dos preços para a faixa de US$ 4 mil por tonelada escancarou a fragilidade da cadeia global. Costa do Marfim e Gana, responsáveis por cerca de 60% da produção mundial, seguem no centro do mercado, agora pressionados por uma combinação delicada de eventos climáticos extremos, crise financeira e desgaste do modelo estatal de comercialização agrícola. Com a confirmação de um El Niño mais severo no segundo semestre pela Administração Nacional Oceânica e Atmosférica (NOAA), e com chance de 67% de um “Super El Niño”, as próximas safras voltam a ficar sob vigilância. Isso principalmente pelo fortalecimento do Harmatã, o vento quente e seco vindo do Saara que reduz a umidade nas áreas produtoras.

O problema é que o clima piora justamente quando os produtores estão mais expostos. Em março, a Costa do Marfim cortou em 57% o preço pago aos agricultores para tentar conter perdas fiscais após o colapso do sistema estatal de hedge. Em Gana, o Cocobod, órgão que coordena a comercialização do cacau, enfrenta uma crise de liquidez estimada em US$ 600 milhões e atrasa pagamentos desde o fim do ano passado. Em algumas regiões, produtores começaram a abandonar lavouras ou migrar para a mineração ilegal de ouro, atividade que oferece retorno mais rápido e imediato.

Para o mercado financeiro, o cacau passou a reagir menos como uma commodity agrícola tradicional e mais como um ativo exposto a riscos sistêmicos. O setor convive, ao mesmo tempo, com extremos climáticos, dificuldade de financiamento rural, pressão regulatória e mudanças no padrão global de consumo. O superávit projetado para a safra 2026/27, por exemplo, já começou a ser revisado para baixo após novas avaliações de campo na África Ocidental.

A Europa adicionou outra camada de pressão. A entrada em vigor plena do Regulamento de Desmatamento da União Europeia (EUDR), prevista para o fim de 2026, exigirá rastreabilidade completa da produção agrícola. Isso deve funcionar, na prática, como uma barreira para parte do cacau africano, produzido majoritariamente por pequenos agricultores com baixa capacidade tecnológica. O custo de adaptação pode reorganizar os fluxos globais de oferta e abrir espaço para novos exportadores.

É nesse cenário que Brasil e Equador começam a ganhar relevância. No Brasil, a produção avançou 61% no primeiro trimestre de 2026, impulsionada pelo Plano Inova Cacau 2030. Mais do que ampliar o volume, o País tenta reposicionar sua produção em direção ao mercado premium, com foco em cacau fino e de aroma, segmento que pode pagar prêmios de até 30% sobre as cotações internacionais.

Outra mudança importante ocorre longe das bolsas de commodities. Com as margens pressionadas, a indústria acelerou a substituição da manteiga de cacau por gorduras vegetais alternativas. O processamento global recuou de forma consistente. No Brasil, por exemplo, a queda se aproxima de 15%. É o movimento clássico de destruição de demanda: preços elevados começam a alterar primeiro os hábitos industriais, antes mesmo de afetar o consumo final.

No meio desse rearranjo surgem também novas fontes de receita para produtores rurais. Plataformas de crédito de carbono ligadas a sistemas agroflorestais já permitem monetizar a preservação ambiental como complemento de renda. Em Gana, o governo trabalha na emissão de Cacao Bonds para captar US$ 1 bilhão e reorganizar o financiamento do setor antes da próxima safra.

O mercado do cacau acabou se transformando em um retrato bastante preciso das tensões da economia global atual: clima extremo, pressão ESG, insegurança geopolítica, escassez agrícola e financeirização convivendo na mesma cadeia produtiva. E, ao contrário do que muitos imaginavam há um ano, o maior risco talvez já não seja um choque temporário de preços, mas a consolidação de um cenário em que produzir chocolate ficou estruturalmente mais caro.

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