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8 de junho de 2026
Por Guilherme Caetano, do Estadão
Brasília, 08/06/2026 – Após conseguir um respiro do caso Vorcaro com a ofensiva da Casa Branca sobre o PCC e o CV, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) voltou às cordas em meio ao domínio da esquerda no debate do tarifaço e do Pix, e agora vê a sua pré-campanha à Presidência pressionada com uma fala do irmão Eduardo Bolsonaro.
Flávio vem tendo dificuldades em se dissociar da ofensiva do governo Trump. Dados do Instituto Democracia em Xeque (DX) mostram que o total de menções que atribuem culpa ao senador pelas tarifas nas redes sociais foi quase dez vezes maior que as que responsabilizam o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Dados mostram que o presidenciável vem tentando se dissociar da crise sem sucesso. Um relatório do Instituto Democracia em Xeque mostra que a narrativa do tarifaço ou “tariflávio” concentrou 563,1 mil publicações e 4,7 milhões de interações nas redes sociais, enquanto a tentativa de atribuir a culpa a Lula alcançou 58,9 mil publicações e 606,4 mil interações.
Esta disparidade indica, segundo o relatório divulgado na quinta-feira, 4, que a narrativa de responsabilização da família Bolsonaro conseguiu engajar a conversa pública com mais força, conectando a tarifa de 25%, a ofensiva contra o Pix e a aproximação entre Flávio Bolsonaro e Trump entendida como traição aos interesses nacionais.
Os pesquisadores mostram que, na quinta-feira passada, a direita bolsonarista dominou o debate com a classificação do PCC e do CV como organizações terroristas pelo governo americano e levou o debate para o campo da segurança pública, em que nada de braçada, mas que o debate migrou para a responsabilização do tarifaço com o anúncio do USTR.
“A partir daí, o total de menções que atribuem culpa a Flávio pelas tarifas foi quase 10 vezes maior que as que responsabilizam Lula. Desde então, a direita não conseguiu separar o novo “tarifaço” da figura de Flávio Bolsonaro, e a tentativa de tratar a sobretaxa como ação exclusivamente externa e legítima esbarrou na narrativa, então dominante nas redes, de que a medida tinha envolvimento de atores brasileiros e custo nacional”, diz o relatório.
Criado em 2021, o instituto é especializado em mapeamento de redes sociais para acompanhar o debate político digital e detectar campanhas de desinformação.
A repercussão negativa ganhou uma nova camada quando, na quarta-feira, 3, Eduardo foi questionado numa entrevista à TMC News se o Pix estava “ameaçado” pelo governo Trump, do qual ele é apoiador, e deu uma resposta ambígua.
A pergunta se devia ao fato de o sistema de pagamentos brasileiro ter se tornado alvo da Casa Branca após o Escritório Comercial dos Estados Unidos (USTR, na sigla em inglês) concluir uma investigação sobre as práticas comerciais do Brasil e propor uma tarifa adicional de 25% sobre produtos brasileiros importados.
O Pix aparece entre os argumentos para justificar a medida. Os Estados Unidos afirmam que o Brasil tem prejudicado injustamente empresas americanas que atuam em serviços concorrentes de pagamento eletrônico.
Eduardo respondeu ter pedido ao governo Trump para postergar qualquer retaliação comercial ao Brasil até as eleições de outubro, já que um eventual novo governo Bolsonaro, se Flávio derrotar Lula nas urnas, possa ter um relacionamento melhor com Washington.
“Agora, os EUA têm mecanismos muito semelhantes ao Pix, como, por exemplo, o Zelle, que é o Pix dos EUA. Então dá para você ir a uma mesa de negociação com os americanos com bons argumentos. Dá para você sentar, dá para negociar”, declarou Eduardo.
O ex-deputado foi criticado por quem entendeu que sua resposta se tratava de uma sugestão para que o Brasil cedesse à cobrança americana e flexibilizasse o Pix, que se tornou xodó nacional a partir de 2020, quando o Banco Central passa a implementá-lo.
“Eu citei o Zelle para dizer o seguinte: ‘americanos, calma aí, o que há de problema com o Pix quando vocês têm plataformas semelhantes sendo usadas nos EUA?’ Esse é um bom argumento pra você botar na mesa”, disse ele no dia seguinte.
Uma pessoa da cúpula do PL, partido ao qual a família Bolsonaro é filiada, disse ao Estadão que a declaração havia sido um “desastre”. Outra pessoa ligada à campanha afirmou que o comentário “pode atrapalhar muito” se não for bem explicado.
Flávio já vinha tendo de se defender no debate sobre o novo tarifaço ao Brasil, que foi anunciado dias após ele se encontrar com o presidente Donald Trump – o americano publicou uma foto e elogios ao senador no mesmo dia do anúncio, o que ajudou a colar Flávio na crise. Uma hora depois da entrevista do irmão, ele defendeu o Pix numa entrevista ao jornal O Tempo.
“O Pix é do Brasil e o Pix é do Bolsonaro. Ele foi criado em 2020, foi uma grande inovação que o Banco Central já vinha trabalhando, mas o presidente Bolsonaro veio e foi uma forma que ele encontrou de colocar aquela coisa de ‘menos Brasília, mais Brasil’ em prática”, disse ele.
Para ajudar a empurrar o senador à repercussão negativa do tarifaço, o PT tem dado a orientação para a militância usar o termo “tariflávio” para fazer a associação, assim como resgatar campanhas que o governo Lula já fez no ano passado em defesa do Pix e da soberania nacional.
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