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Minério de ferro chega a junho com viés de estabilidade, de olho em China, guerra e Simandou

29 de maio de 2026

Por Cecília Mayrink

São Paulo, 29/05/2026 – Os preços do minério de ferro seguiram acima do nível de US$ 100 a tonelada em maio, mas com leve baixa em relação a abril. Na visão do mercado, a commodity permaneceu resiliente, apesar dos ruídos macroeconômicos e do alívio dos riscos de oferta. Para junho, a expectativa é que essa tendência se mantenha, mas analistas ressaltam que fatores como a produção e a demanda da China devem continuar sendo monitorados pelos investidores.

A tonelada da commodity caiu 0,71% na comparação de abril com maio no mercado futuro da bolsa de Dalian, encerrando o mês em US$ 115,56.

O preço oscilou numa faixa curta entre US$ 119 e US$ 122 na primeira metade de maio e depois ficou entre US$ 115 e US$ 116 na segunda metade. Essa variação decorreu de custos crescentes desde março, quando a guerra entre os Estados Unidos e o Irã começou, avalia o head de ações da Levante, Flávio Conde.

“O preço do frete ficou mais alto porque os navios que levam o minério de ferro do Brasil e Austrália são movidos por óleo combustível marítimo, conhecido pelo nome de bunker, que tiveram seus preços elevados em cerca de 30% em relação ao pré-guerra. Na segunda metade de maio, o preço do bunker arrefeceu um pouco e, assim, o preço do minério recuou”, explica.

Considerando essa pequena variação na cotação, o analista de siderurgia e mineração do Itaú BBA, Daniel Sasson, escolheu a palavra “estabilidade” para definir a performance do minério em maio e no acumulado de 2026.

“No pós-guerra, não ficamos nenhum dia abaixo dos níveis que o minério estava negociando antes da guerra. O conflito no Oriente Médio em si não tem um impacto super relevante do ponto de vista de oferta e demanda, mas tem efeitos secundários, como por exemplo, no custo de transporte transoceânico”, explica Sasson.

Assim, o desempenho da China segue sendo o principal vetor no mercado de commodities metálicas. Ainda não foram divulgados os indicadores de maio, mas os dados de abril já mostram alguns sinais de recuperação. A produção industrial subiu 4,1% em abril, na comparação com igual período de 2025. Já o índice de gerentes de compras (PMI) de manufatura subiu de 50,8 em março para 52,2 em abril, segundo pesquisa da S&P Global em parceria com a RatingDog. O dado sinaliza uma expansão da atividade.

Ainda assim, o quadro atual é de tensão entre demanda real e estoques elevados, na visão do analista do setor de Metais & Mineração, Papel & Celulose, Agrícolas & Frigoríficos da Genial, Luca Vello.

“A produção diária média de ferro-gusa sinaliza que as siderúrgicas ainda mantêm ritmo de produção elevado, mas o problema estrutural ainda permanece: a indústria do aço chinesa segue lidando com excesso de oferta e ainda demonstra muita dependência das exportações como forma de compensar o baixo poderio de consumo doméstico”, observa.

A Genial, inclusive, elevou em maio as suas projeções de preço para o minério de ferro, adotando uma postura “cautelosamente otimista” no curto prazo. A estimativa da corretora para o preço da tonelada do minério de teor de 61% de ferro (conhecido no jargão da indústria como 61% Fe) passou para US$ 102,5 em 2026, alta de 5,7% em relação à projeção anterior. Também subiram as expectativas para 2027 (US$ 100,50 a tonelada, 18% mais alto que o previsto antes) e 2028 (US$ 94, alta de 25%).

A revisão para cima reflete dois fatores principais: o ramp-up mais lento do projeto Simandou, megaprojeto da Rio Tinto na Guiné, agora estimado em 15 milhões de toneladas em 2026 ante projeção anterior de 20 milhões; e a rigidez estrutural do lado da oferta marítima.

Vale ressaltar ainda que, em maio, o minério chegou a atingir US$ 122, nível que não era visto desde setembro de 2024. A cotação alcançou esse valor no dia 6 do mês, quando o mercado chinês voltou a operar após ficar fechado durante três dias devido a feriado.

Segundo a XP, a recente alta tem sido impulsionada principalmente pela dinâmica de redução de custos, mais do que por uma aceleração da demanda, o que deve continuar limitando o potencial de elevação. Com os estoques de minério da China em declínio, a leitura da corretora é que o mercado permanece preso entre a fraca demanda doméstica e os custos estruturalmente mais altos, com os preços provavelmente permanecendo estáveis no curto prazo.

Perspectivas no curto prazo

Para os próximos meses, a expectativa é que o minério permaneça em níveis próximos aos atuais, sem grande margem de alta adicional e “razoavelmente equilibrado”, apontam Vello, da Genial, e Sasson, do Itaú BBA.

Vello destaca que os principais fatores a monitorar são a produção de aço da China, o ritmo dos gastos em infraestrutura e o timing de novos projetos de oferta. Com um tom mais construtivo, ele ressalta que o piso de preços pode ficar mais elevado, dado que o custo marginal do setor se aproxima de US$ 100 a tonelada, especialmente com fretes e energia mais caros. “Dito isso, meu cenário-base, hoje, é de gradual acomodação nos preços ao longo do segundo semestre de 2026”, acrescenta.

Conde, da Levante, por sua vez, pondera que a oferta de minério tende a continuar alta em junho e que há dúvidas sobre se a demanda continuará resiliente na China, uma vez que alguns players citam uma queda sazonal na demanda por aço em junho e julho.

Contato: cecilia.kuinghttons@estadao.com

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