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29 de maio de 2026
Por Julia Maciel*
Serra Negra (SP), 29/05/2026 – A transição para a agricultura regenerativa na cafeicultura brasileira rompeu a barreira do discurso ambiental para se tornar uma estratégia de rentabilidade. O sistema prevê práticas agrícolas que priorizam a regeneração e revitalização dos recursos naturais, como o solo, a água e a biodiversidade. Dados do primeiro ano do projeto piloto liderado pela JDE Peet’s, dona das marcas de café Pilão e L’Or, e Syngenta, do setor de insumos agrícolas, com duração de dois anos, que se completam nesta safra 2026, em fase inicial de colheita, revelam que o modelo não apenas recupera solos degradados, mas eleva a produtividade e reduz custos operacionais, proporcionando um incremento de renda líquida ao cafeicultor.
O projeto, que abrange 30 propriedades nas regiões do Cerrado Mineiro, sul de Minas e Mogiana, tem foco na saúde do solo como um seguro contra a instabilidade climática, conforme demonstrado na Fazenda Nonno Marchi, em Serra Negra (SP), a 150 quilômetros da capital paulista. Ali, o proprietário Roberto Marchi expandiu o manejo inicial de 3 hectares para 17,5 hectares após o primeiro ciclo em 2025. “A gente viu que deu tão certo que não ia deixar de levar para 100% da propriedade”, afirma Marchi. O produtor cultiva as variedades de arábica Catuaí, Mundo Novo, Arara Amarelo, Tupi e Obata.
A iniciativa aposta na eficiência do ecossistema o que, no caso de Marchi, se traduz em áreas de montanha. Na propriedade, o manejo regenerativo resultou em uma média de produtividade de 58,5 sacas por hectare, desempenho 46% superior ao manejo convencional, que rende, em média, 34,4 sacas por hectare, segundo a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab).
Marchi informou que, no manejo regenerativo, o uso de plantas de cobertura permitiu uma economia de 10% a 15% em fertilizantes. “Como é uma agricultura de sequeiro na região, quanto mais conseguir reter a água e os produtos que eu colocar no solo, a planta vai receber mais”, explica o produtor.
Outro benefício da agricultura regenerativa é sustentado por uma melhora na estrutura da raiz, que apresentou um volume 100% maior. “A raiz é a boca da planta. Na área convencional, a raiz fica limitada e não consegue soltar radículas novas, diferente da área do projeto”, compara o consultor do projeto e agrônomo, Fernando Sarreta.
Paralelamente aos ganhos produtivos, a resiliência das plantas se refletiu diretamente na qualidade final do grão e da bebida, uma vez que o solo equilibrado permite que os frutos amadureçam com maior concentração de açúcares. Esse diferencial qualitativo foi comprovado no concurso regional de 2025, quando a fazenda Nonno Marchi conquistou o primeiro lugar em três categorias (natural, microlote e fermentado), com lotes atingindo entre 89 e 90 pontos. Atualmente, Marchi comercializa 10% do seu café no e-commerce da marca, 30% em sua própria propriedade, por meio do turismo rural, e de 30% a 40% para a Cooperativa de Produtores Rurais, com sede em Bebedouro (SP), a Coopercitrus.
Segundo o cafeicultor, o manejo regenerativo funciona como uma valorização do ativo imobiliário. “A planta saudável é a vitrine”, diz Marchi. No âmbito médio regional, o projeto entregou incrementos médios de 7 sacas a mais por hectare no Cerrado e na Mogiana, enquanto no Sul de Minas o ganho adicional chegou a 14 sacas por hectare. O crescimento do rendimento das lavouras é acompanhado pelo aumento da lucratividade do cafeicultor.
Outro ponto central é a capacidade de o modelo mitigar o efeito da bienalidade (o café arábica alterna ano de safra cheia com outro de menor produção) e controlar pragas de forma biológica. Ao fortalecer a imunidade da planta por meio do processo de antibiose, que impede ação de microrganismos nocivos à planta, o manejo regenerativo reduziu drasticamente a vulnerabilidade do cafezal a doenças e pragas, como a broca-do-café, que foi zerada na propriedade modelo em Serra Negra. “A gente conseguiu zerar a broca, que era uma dor de cabeça aqui por ser área de montanha”, destacou Sarreta. Para a JDE Peet’s e a Syngenta, o projeto prova que o equilíbrio biológico é o caminho para a viabilidade econômica da cafeicultura.
* A jornalista viajou a convite da JDE Peet’s e da Syngenta
Contato: julia.maciel@estadao.com
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