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O governo prepara o Desenrola 2.0 para - conjunto de medidas para reduzir o endividamento das famílias e manter o consumo e evitar desaceleração econômica.
24 de abril de 2026
Eduardo Laguna, Renata Pedini e Francisco Carlos de Assis
Com as dívidas bancárias já batendo em quase metade da renda das famílias brasileiras, o governo finaliza um pacote de socorro a endividados que se soma ao rol de medidas capazes de, à medida que a eleição se aproxima, dar novo fôlego ao consumo e impedir uma desaceleração mais acentuada da economia.
O Desenrola 2.0, como está sendo chamado o conjunto de medidas discutidas, vem para adiar, ou ao menos suavizar, o processo de perda de poder aquisitivo que se desenhava a partir dos pagamentos de dívidas assumidas a juros mais altos e do avanço da inflação após a escalada do petróleo.Seja pelo uso do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) para a quitação de dívidas, seja pela renegociação delas com descontos agressivos, ou pela sua substituição por crédito mais barato, o programa vai abrir um espaço no orçamento que poderá ser usado para as famílias voltarem a gastar – algo que os dados recentes sugerem já estar ocorrendo, mas em função da isenção do imposto de renda sobre salários de até R$ 5 mil e do crédito consignado a trabalhadores do setor privado.
O efeito posterior do Desenrola 2.0, no entanto, pode ser contraintuitivo. “As medidas do governo poderão reduzir o endividamento, mas há o risco, no segundo momento, de esse abatimento abrir espaço a novas dívidas, voltando a elevar o endividamento”, comenta Luciano Costa, sócio da Meridian Investment.
Da bancarização de milhões de cidadãos durante a pandemia ao aumento do emprego e da renda, que ampliaram o acesso a produtos financeiros, passando pela digitalização, pela chegada das fintechs, pelas políticas de crédito e, até mesmo, pelo fenômeno dos sites de apostas, as bets, a escalada da dívida tem muitas explicações, tanto estruturais quanto conjunturais. Com a elevação dos juros de referência, a Selic, ao maior nível em quase 20 anos, as dívidas aumentaram como bola de neve.
Dados do Banco Central (BC), relativos a janeiro, mostram que as dívidas com bancos representam 49,7% do que os brasileiros ganham em um ano – sete anos atrás, não chegavam a 40%. A cada mês, de forma nunca antes registrada nas estatísticas do BC, 29,3% da renda das famílias está comprometida com pagamentos de juros e amortizações dessas dívidas.
O fato de haver muitos brasileiros endividados, a um custo alto, sem a perspectiva de que a economia seguirá gerando tantos empregos como antes, faz com que esse jogo se torne mais arriscado. É natural, então, que os bancos fiquem mais seletivos, as pessoas evitem gastar mais do que podem e, aos poucos, o endividamento caia.
O Brasil parecia ter entrado nessa trilha no segundo semestre do ano passado, quando o consumo ficou praticamente estagnado apesar do crescimento da renda. O descolamento chamou a atenção de economistas e motivou estudos com uma conclusão parecida: o crescimento da massa salarial deixou de puxar o consumo como antes porque os brasileiros passaram a pagar mais dívidas.
Um desses estudos, feito pelo banco Daycoval, estima que, em períodos de alto endividamento, a transmissão do crescimento da massa salarial ao consumo é 40% menor do que quando os brasileiros têm menos dívidas a pagar. “A massa salarial cresce de forma robusta, mas o consumo não acompanha na mesma proporção justamente porque uma parte relevante dessa renda está comprometida com o serviço das dívidas”, diz Antonio Ricciardi, economista do Daycoval.
Custo político
Em palestras recentes, o diretor de política monetária do BC, Nilton David, destacou que desde meados do ano passado os brasileiros estão mais pagando do que contratando novas dívidas. A desalavancagem – isto é, o processo de redução das dívidas – é importante para o BC cortar os juros. Para o governo, porém, ela tem um custo não só econômico, uma vez que limita o consumo de bens e serviços, como também político. Ainda que os brasileiros tenham emprego e mais renda, a sensação é de que nada mudou porque quase 30% do salário vai, em média, para os bancos.
Bons indicadores econômicos não se refletem, assim, em bem-estar e, consequentemente, na melhora da popularidade do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O diagnóstico de que a causa está no endividamento, com decorrente perda de poder aquisitivo, foi feito pelo governo. Por isso, propostas como a liberação de saques do FGTS, junto com notícias sobre a criação de novas linhas de crédito para troca de carros por taxistas e motoristas de aplicativos, assim como a ampliação no valor do crédito para reformas residenciais, são vistas com desconfiança por parte do mercado. Combinadas, representam uma ameaça ao processo de desalavancagem.
“As medidas do governo poderão ser contraproducentes, porque não deverão permitir que o processo de desalavancagem prossiga como esperado”, diz Luciano Costa, sócio da Meridian Investment.
Na mesma linha, o economista do Santander Henrique Danyi diz que a renegociação das dívidas a um custo mais baixo pode, de fato, reestimular a tomada de crédito e o consumo. “Nesse caso, haveria alívio momentâneo no endividamento, com risco de nova elevação no futuro”, comenta Danyi. Ele pondera que, nesse caso, o endividamento, mesmo que seja maior, tem melhor qualidade, já que as garantias reduzem o risco.
Conforme o economista do Santander, a migração de famílias endividadas para linhas mais baratas reduz o custo da dívida sem necessariamente ampliar o seu saldo. O risco, porém, é que o novo crédito, mais acessível, estimule a tomada de mais dívidas, especialmente em um contexto de confiança ainda sustentada. “O saldo líquido entre esses efeitos dependerá do ritmo e da magnitude do ciclo de afrouxamento [dos juros], bem como do comportamento das famílias e das instituições financeiras”, conclui Danyi.
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