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Alta da demanda por commodities e novo cenário geopolítico favorecem alocações em emergentes da América Latina, que ganham destaque como fornecedores.
24 de abril de 2026
Por Eduardo Laguna
O Brasil conta com um ambiente favorável para seguir atraindo investimentos diante da escalada nos preços do petróleo, um dos principais produtos exportados pelo País, em paralelo à corrida que acontece no mundo para assegurar o fornecimento de matérias-primas. A avaliação é de David Beker, chefe de economia do Bank of America (BofA) no Brasil, para quem os investidores estrangeiros estão “bem tranquilos” com as posições em ativos brasileiros, a despeito dos riscos relacionados à guerra envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã.
“Num cenário onde, eventualmente, a guerra se resolve, a propensão é para, inclusive, aumentar as alocações em Brasil”, comenta Beker. O economista, que também é o chefe de estratégia do BofA na América Latina, falou com a Broadcast após participar na semana passada, em Washington, nos Estados Unidos, das reuniões de primavera do Fundo Monetário Internacional (FMI).
No início do mês, o BofA melhorou as previsões para o crescimento da economia brasileira, apontando os impactos positivos do choque do petróleo tanto nas exportações quanto nos investimentos na produção da commodity. A previsão de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) em 2026 subiu de 2% para 2,3%. Para 2027, passou de 1,8% para 2%.
Segundo Beker, apesar das preocupações com o crescimento da dívida, o resto do mundo piorou mais do que o Brasil no campo fiscal. “Não é que o Brasil melhorou. O mundo, em termos fiscais, piorou mais.”
Leia abaixo os principais trechos da entrevista.
Broadcast: A revisão para cima nas previsões do Bank of America (BofA) para o Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil parte da premissa de que, mesmo se houver um acordo de paz, o preço do petróleo subiu a um nível estruturalmente mais alto?
David Beker: Nossa visão é de que, em parte, o estrago foi feito. Mesmo que a guerra acabe, o petróleo ficará em patamar acima de onde estava antes do conflito. Haverá um período de normalização dos movimentos no estreito [de Ormuz], algumas instalações foram afetadas. Há a questão da oferta também, uma série de fatores que acabam deixando o petróleo mais pressionado. O cenário-base para este ano é de uma média em torno de US$ 100 por barril. Para o ano que vem, talvez haja um alívio adicional, para um petróleo perto de US$ 75, a depender de como as coisas evoluírem. Mas mesmo US$ 75 é acima do que imaginávamos anteriormente, que era perto de US$ 65, US$ 60 o barril ao longo do tempo.
Broadcast: Como isso favorece o Brasil?
Beker: Há, por um lado, um impacto positivo para a arrecadação, a balança comercial e o crescimento. Por outro, o impacto é negativo na inflação. No caso do crescimento [do PIB], acabamos subindo a nossa estimativa, que era de 2% este ano, para 2,3%. Fizemos a revisão num relatório em que olhamos todos os países do mundo. O Brasil é um dos poucos que tiveram alteração de crescimento para cima.
Broadcast: Os países que tiveram revisão do crescimento para cima são produtores de petróleo, certo?
Beker: Isso. Alguns anos atrás, o Brasil não tinha o patamar de produção que tem hoje. É uma economia mais sensível às flutuações de preço do petróleo. Os investidores olham para os países que podem, eventualmente, se beneficiar nesse ambiente de petróleo mais pressionado.
Broadcast: O senhor poderia detalhar os impactos positivos do choque do petróleo na economia brasileira?
Beker: Só para dar alguns números: a cada US$ 10 de aumento no barril, há uma melhora no saldo da conta corrente em 0,15% do PIB. A melhora no PIB é de 0,2%. As receitas do governo sobem 0,4% do PIB.
Broadcast: Com base no que o senhor ouviu na semana passada, durante as reuniões de primavera do FMI, em Washington, como os investidores estrangeiros veem hoje o Brasil?
Beker: Estão bem tranquilos com a exposição em Brasil, e me parece que, num cenário onde, eventualmente, a guerra se resolve, a propensão é para, inclusive, aumentar as alocações em Brasil. Essa foi a percepção das conversas que tivemos.
Broadcast: Enquanto as exportações de petróleo aumentam em razão da guerra, outras atividades, em especial o agronegócio, são afetadas pelo aumento nos preços de insumos, como fertilizantes, e do frete. Ainda assim, o saldo para a atividade econômica é positivo?
Beker: É cedo para dizer. A questão dos fertilizantes vai depender muito de por quanto tempo a guerra se alastra. Muda a história se continuar até agosto, porque é lá que vai precisar dos fertilizantes disponíveis para começar a plantar as safras do ano que vem. Hoje, no curto prazo, os impactos positivos no crescimento acabam se sobrepondo aos negativos. Agora, se a guerra se estender por muito mais tempo, as consequências negativas podem começar a aparecer mais.
Broadcast: E em relação aos impactos na inflação?
Beker: As consequências já estão aparecendo. Os preços dos alimentos estão subindo. Os IGPs [Índices Gerais de Preços, que medem a inflação desde as matérias-primas ao custo final para o consumidor] estavam negativos e já viraram para o positivo. As consequências negativas, do lado da inflação, já estão se materializando.
Broadcast: Qual deve ser a reação do Copom na reunião da semana que vem? O senhor aguarda mudanças no comunicado do comitê?
Beker: Nossa visão antes da guerra era de que o Banco Central tinha condições de iniciar um ciclo de afrouxamento monetário com cortes de 0,5 ponto porcentual [a cada reunião do Copom]. Com a guerra, temos hoje uma previsão de IPCA de 5,5% para este ano, provavelmente uma das mais altas do mercado. Revisamos na semana passada: de 5% para 5,5%. O ambiente de incerteza requer cautela. Então, esperamos que o Banco Central faça mais um movimento de 0,25 ponto e espere até a próxima reunião, ganhando tempo para eventualmente ter mais convicção sobre o cenário. Não esperamos grandes mudanças na linguagem [do comunicado]. Esperamos que o BC diga que está monitorando o desenvolvimento do cenário para decidir os próximos passos da política monetária.
Broadcast: Ou seja, manterá a postura ‘dependente de dados’…
Beker: Isso, uma linguagem muito parecida com a que já tinha.
Broadcast: Para o BC, a atividade econômica está convergindo ao crescimento potencial. Mas o seu cenário aponta a um crescimento maior do que se esperava antes da guerra. Isso contribui para atrasar essa convergência e diminui o espaço para cortes de juros?
Beker: Sim, e por isso estamos trabalhando com uma inflação acima da projetada pelo Banco Central. Não é só pelo choque [do petróleo]. Tem também a questão da atividade um pouco mais forte. Então, o hiato [diferença entre o crescimento efetivo e o potencial] demora mais para fechar, para entrar no território negativo, e a convergência da inflação tende a ser mais lenta. Não podemos esquecer que estamos em um ambiente de alta incerteza, onde a estratégia de calibragem da política monetária faz sentido. O juro vai continuar acima da neutralidade por bastante tempo.
Broadcast: Qual leitura o senhor faz quando o Banco Central diz que o ciclo é de ‘calibração’, não de afrouxamento?
Beker: Indica que, por enquanto, o Banco Central vê a necessidade de o juro permanecer, em termos reais, acima da neutralidade, de modo que o processo desinflacionário continue. Estamos trabalhando hoje com o juro em 13,25% no fim do ano, sendo cortado em 0,25 ponto porcentual em todas as reuniões [do Copom] até dezembro.
Broadcast: A escalada dos conflitos geopolíticos afeta a diversificação dos investimentos internacionais que vinha favorecendo a liquidez em mercados emergentes?
Beker: Alguns fatores têm favorecido as alocações em mercados emergentes na América Latina. Um deles é a demanda mais alta por commodities. Nessa nova configuração geopolítica, os países que são fornecedores de commodities acabam tendo destaque positivo. Além disso, o dólar provavelmente vai permanecer fraco em relação às moedas de mercados emergentes. Os investidores veem que as alocações deles na América Latina seguem muito baixas. Então, mesmo com a guerra, parece que o ambiente ainda é favorável a maiores alocações na região. E dentro da América Latina o Brasil se destaca por ser uma economia maior e oferecer liquidez. O cenário continua favorável. Mesmo com a mudança no cenário de juros [agora com cortes menores ao que era esperado antes], o fluxo continua entrando.
Broadcast: O aumento da arrecadação com o choque do petróleo vai ajudar o governo a cumprir metas de superávit primário? Ou deve ser quase todo consumido por subsídios e desonerações para segurar o preço dos combustíveis?
Beker: O saldo ainda é positivo: vai arrecadar mais do que gastar. Mas parte será utilizada para amortecer os impactos da guerra. Por isso, melhoramos apenas marginalmente a nossa projeção de déficit primário [de 0,4% para 0,3% do PIB em 2026}.
Broadcast: A eleição presidencial, a julgar pelas pesquisas de hoje, será novamente polarizada. Isso traz preocupações sobre a criação de novas despesas e pacotes de bondade?
Beker: Temos, sim, uma preocupação fiscal porque a dívida está subindo em relação ao PIB. Mas os investidores internacionais acham que [o fiscal] piorou mais em outros países. Não é que o Brasil melhorou. O mundo, em termos fiscais, piorou mais. Então, em termos relativos, dá a impressão de que está melhor. Sobre novas medidas [de estímulo fiscal], existem limitações estruturais por conta do calendário eleitoral. Amarras na legislação tornam mais complicado fazer grandes despesas. Então, acho que a maior parte das medidas que tinham que ser feitas já são conhecidas.
Broadcast: Diante da deterioração fiscal e de juros sobre a dívida tão altos, um ajuste nas contas públicas tornou-se inevitável independentemente do resultado das eleições?
Beker: Para o ano que vem, alguma coisa vai ter que ser feita. Tem uma discussão sobre o arcabouço, sobre o que pode ser feito de forma estrutural do lado da despesa. O próprio ministro Dario Durigan [da Fazenda] tem falado do limite em continuar aumentando a carga [tributária]. A solução vem em parte do lado da despesa, e esta discussão é natural a quem quer que seja o vencedor. A discussão no mercado é sobre como vai ser o ajuste, qual candidato pode fazer mais ou menos. De qualquer maneira, estamos ainda longe das eleições, de forma que ainda não dá para operar, entre aspas, em cima dessa discussão.
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