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Entrevista/Avenue/Marcela Rocha: não vemos alta de juros pelo Fed, apesar do choque de petróleo

22 de maio de 2026

Por Maria Regina Silva e Denise Abarca

São Paulo, 22/05/2026 – Apesar do aumento das pressões inflacionárias decorrentes da guerra entre Estados Unidos e Irã, o Federal Reserve (Fed) não deve elevar os juros e, diante da incerteza sobre o desfecho do conflito, tampouco deve haver espaço para corte neste ano. A avaliação é da CIO da Avenue, Marcela Rocha, em entrevista à Broadcast. “Até o quarto trimestre, o Fed não deve fazer nada”, afirma.

Rocha avalia que, mesmo diante de um choque de oferta via petróleo, a autoridade monetária tenderia a esperar para medir efeitos secundários sobre atividade e consumo. “Acho que não reagiriam ao choque de oferta”, diz. Sobre a chegada de Kevin Warsh à presidência do Fed, a expectativa é de mais ruído: “a palavra mais constante será volatilidade”, com maior dissenso e desafios na comunicação e no guidance.

Em ações, a economista diz que a recuperação em “K” reforça a preferência por tecnologia, diante da fragilidade de small caps e de segmentos mais ligados a consumo discricionário e imobiliário. Em renda fixa, a estratégia é neutralidade na parte curta da curva de Treasuries e posição na ponta longa, por resiliência econômica e preocupações fiscais.

Leia a seguir os principais trechos da entrevista:

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Broadcast: O cenário é de alta dos juros nos Estados Unidos?

Marcela Rocha: No nosso portfólio, não vemos alta de juros pelo Fed. É um momento de grande incerteza: o impasse entre Estados Unidos e Irã dura mais do que se imaginava. Há incentivos para resolvê-lo dos dois lados – e, do lado americano, muito mais pela situação política do presidente Trump. Esse conflito é diferente do tarifaço: vai deixar cicatrizes e provocar danos maiores. O preço da gasolina sobe, a confiança do consumidor cai, e isso afeta a popularidade do presidente. As eleições de meio de mandato estão ali, em novembro.

Broadcast: Com pressão inflacionária, por que o Fed deixaria de elevar os juros?

Rocha: Se o impasse continuar e o preço do petróleo explodir, o impacto na inflação seria alto. Mas a economia sofreria um baque maior, sobretudo nos setores já mais frágeis. Condições financeiras mais apertadas podem reduzir o consumo, não apenas por juros, mas também por queda de ações, via efeito riqueza. O consumo tem sido apoiado por valorização de equities. Se houver uma realização mais forte em meio a um choque de oferta, a volatilidade econômica pode aumentar. Nesse cenário, o Fed pode querer tempo para observar o cenário. Não reagiriam ao choque de oferta, vão querer entender os efeitos secundários.

Broadcast: E um corte de juros seria possível?

Rocha: Nesse cenário, não. Se o impasse se resolver, aí sim pode haver espaço para corte, mas após alguns meses para confirmar se o impacto primário perdeu força. Até o quarto trimestre o Fed não deve fazer nada. Com a normalização, voltaríamos ao quadro anterior: recuperação em “K”, grande divergência entre setores e ganhos ligados à inteligência artificial, visíveis em produtividade, emprego e até inflação. O próximo movimento, nesse caso, seria um corte. Se o impasse não for resolvido e o petróleo continuar subindo, a pressão por alta de juros aumenta, mas acreditamos que o Fed ainda adotará serenidade até entender o impacto e a reação da economia.

Broadcast: Esse cenário em “K” se reflete no mercado de ações de Nova York, que tem batido recordes?

Rocha: Em alocação, preferimos seguir mais expostos a tecnologia, justamente pelas dúvidas de uma recuperação em “K”. Small caps não acompanham o ritmo e permanecem baratas, mas com desafios, especialmente em imobiliário e varejo. Nos resultados e guidances, muitas empresas seguem mais preocupadas com o balanço das famílias e com a capacidade de manter o consumo em meio a choques simultâneos. Hoje, é preferível ficar em setores de crescimento (growth), sobretudo tecnologia, onde os resultados têm surpreendido, com forte crescimento de lucros.

Broadcast: Devemos ver alguma mudança no perfil do Fed com a chegada do novo presidente, Kevin Warsh, indicado por Trump?

Rocha: A palavra que será mais constante é “volatilidade” – nos votos e na comunicação. Não necessariamente por interferência direta de Trump, mas porque o cenário é complexo, com várias teses competindo e pouca convicção. Warsh chega com a pressão política e com a visão de que a inteligência artificial é desinflacionária. Ele tende a se apoiar em dados para tentar convencer o Comitê, mas o Fed dá independência a cada membro. Vai ser difícil convencê-los. O cenário muda a cada mês. Construir consenso no meio desse turbilhão pode ser difícil.

Broadcast: Pelo o que você sugere, será difícil desenhar a política monetária de maneira mais clara.

Rocha: Com Warsh, podemos ter um Fed mais volátil e mais difícil de acompanhar, com ele ainda construindo reputação e credibilidade. Discursos divergentes são normais, mas a última decisão foi surpreendente, com dissenso até sobre o guidance. Isso pode ficar mais comum: não apenas divergências sobre a decisão em si, mas se a comunicação está adequada em relação aos próximos passos, se tem que ter um forward guidance.

Broadcast: Qual a sua avaliação sobre a discussão de uma eventual mudança no duplo mandato do Fed?

Rocha: Seria uma surpresa. Acho válido bancos centrais repensarem seu papel, mas o duplo mandato é bem estabelecido nos EUA, compreendido por sociedade e mercados. Até aqui, não gerou desancoragem de expectativas nem inflação estruturalmente mais alta. Também não está matando o crescimento. Estamos falando de uma economia pujante, com produtividade. Mudar esse arcabouço poderia aumentar a volatilidade de comunicação e de expectativas.

Broadcast: O que a curva dos Treasuries nos diz sobre a economia americana?

Rocha: Estamos neutros na parte curta, até três anos, pelas incertezas sobre os próximos passos do Fed. Já em prazos mais longos, de 7 a 10 anos, estamos posicionados para abertura de taxas. A economia segue resiliente e sustentando lucros. Se o Fed ficar parado por mais tempo, as taxas longas podem mudar de patamar. Soma-se a isso a preocupação fiscal: mesmo com arrecadação favorecida por crescimento, permanece a dúvida sobre o financiamento da dívida. Há ainda um efeito global – o que acontece no Japão é impressionante e respinga em ativos de longo prazo. Por isso, ainda vemos espaço para os yields longos seguirem abrindo.

Broadcast: O status do dólar como moeda de reserva está ameaçado?

Rocha: Acho que não. Temos discussões entre países de como usar outras moedas para fazer comércio, a próprio China querendo usar, países pensando como diversificar, mas, na verdade, quando a gente olha os dados, o que a gente vê é que muitas das mutações foram por conta de valuation, de mudança do preço do ativo, no caso das reservas. Dada a centralidade do mercado americano, grande parte das transações cambiais, comerciais e financeiras – inclusive crédito – segue em dólar, algo como 60% a 70%, dependendo da métrica. Ainda não vemos o dólar perdendo o status de reserva de valor.

Contato: reginam.silva@estadao.com e denise.abarca@estadao.com

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