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Carros elétricos redefinem o mercado de seguros

O avanço dos veículos eletrificados leva seguradoras a rever produtos e preços. Menor sinistralidade e maior adesão ao seguro impulsionam o segmento

17 de julho de 2026

Por André Marinho

A explosão do mercado de veículos elétricos e híbridos no Brasil está redesenhando a estratégia das seguradoras para a venda de apólices de automóveis. Após décadas acostumado a cobrir riscos mecânicos tradicionais, o setor agora enfrenta a missão de precificar um sistema tecnológico mais avançado e se adaptar a uma cadeia de reparos mais cara.

O processo envolve contínuos investimentos na especialização da mão de obra das oficinas credenciadas, mas o principal gargalo ainda tem sido a reposição de peças. No caso dos elétricos, o prazo para a substituição ainda é entre seis a sete dias maior que o dos carros a combustão, segundo o presidente da Comissão de Automóvel da Federação Nacional de Seguros Gerais (Fenseg), Jaime Soares.

“Estamos aprendendo a cada ciclo mensal como adaptar nossos produtos e operações para atender a esse público que consome cada vez mais veículos eletrificados”, afirma Soares.

A adequação se torna ainda mais urgente em meio à crescente adesão aos eletrificados, impulsionada pela chegada de marcas chinesas. No primeiro semestre, foram vendidos 215.023 veículos leves eletrificados no País, um salto de 125% em relação a igual intervalo de 2025, de acordo com a Associação Brasileira do Veículo Elétrico (ABVE). No período, 16 em cada 100 automóveis leves vendidos tinham algum tipo de sistema eletrificado.

Cultura securitária

Para as seguradoras, um aspecto positivo é que essa transição tecnológica tem sido acompanhada de uma cultura de proteção securitária mais forte que a média nacional. Dos cerca de 950,8 mil veículos elétricos e híbridos em circulação nos seis primeiros meses do ano, cerca de 69% (656,2 mil) estavam cobertos por seguro, conforme levantamento da Confederação Nacional das Seguradoras (CNSeg), a partir de dados da Secretaria Nacional de Trânsito (Senatran).

O apetite por proteção também se destaca nos modelos puramente elétricos: 62% da frota de 374,45 mil veículos rodam com seguro. Em ambos os casos, os porcentuais de cobertura securitária são mais de duas vezes superiores ao patamar de toda a frota brasileira, estimado em 27,8%.

O contraste reflete uma combinação de fatores econômicos e técnicos. Por serem mais caros que os tradicionais, os eletrificados têm como público-alvo consumidores de renda mais alta, que já estão acostumados a contratar seguros. O valor mais alto também incentiva os proprietários a buscarem mecanismos que garantam a reposição do patrimônio em caso de perda total, roubo ou furto. “Há uma correlação forte com o poder aquisitivo das pessoas”, diz Soares, da FenSeg.

Ao mesmo tempo, esses modelos costumam ser equipados com sistemas de assistência ao condutor, como sensor de colisão e freio automático. Com isso, a frequência de aviso de sinistros tende a ser entre 5% a 8% menor que em automóveis convencionais, de acordo com Soares. “Por conta dessas tecnologias, a sinistralidade é um pouco menor que nos demais veículos”, ressalta.

Divisor de águas

Diante dessas vantagens, a Bradesco Seguros registrou um crescimento de 67% nas contratações de seguro para veículos elétricos no primeiro trimestre, na comparação com igual período de 2025. “O carro elétrico é o mais recente divisor de águas para o mercado segurador em relação à oferta do seguro automotivo”, argumenta o diretor de produtos da Bradesco Seguros, Sain’t Clair Lima, em entrevista à Broadcast Weekend.

Segundo o executivo, estudos da seguradora observaram tendência de frequência de colisões levemente menor nos eletrificados, em relação aos carros com motor a combustão. Por outro lado, quando um acidente acontece, o custo do conserto tende a ser mais elevado, devido à complexidade dos componentes tecnológicos. As companhias seguradoras ainda calculam se os dois fatores se equilibram, afirma Lima.

Apesar dos desafios, o setor não tem verificado escassez de peças. “As montadoras que chegam ao País com modelos eletrificados têm se preocupado muito com o pós-venda, pois perceberam que a falta de peças para reposição em casos de colisão desvaloriza rapidamente o veículo”, explica Lima.

Esses fatores já começam a baratear a precificação do seguro para eletrificados. Na Allianz, o prêmio médio em híbridos e elétricos era 30% superior ao dos veículos movidos a combustão no primeiro semestre do ano passado. Na primeira metade deste ano, essa diferença caiu 16 pontos porcentuais, para 14%. A seguradora, quarta maior do País no segmento auto, também registrou aumento de 47% no volume de apólices nos modelos eletrificados no período, com alta de 42% dos prêmios.

“Esse movimento traz uma evolução contínua da estratégia no seguro de automóvel, com investimentos em inteligência de dados, novas maneiras de precificação e desenvolvimento de soluções cada vez mais conectadas à mobilidade”, afirma o diretor executivo de automóvel, massificados e vida da Allianz Seguros, Fábio Morita.

O vice-presidente comercial e de produtos massificados da seguradora Tokio Marine, Marcelo Goldman, acrescenta que os carros elétricos apresentam, até o momento, incidência de roubo menor, diante da ausência de um mercado ilegal de desmanche de peças. O cenário ajuda a compensar os custos mais elevados de reparação, o que permite a oferta de apólices a preços competitivos. Segundo ele, a Tokio tem aumentando os valores máximos de aceitação do seguro para contemplar os eletrificados.

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