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Brasil no mapa global dos combustíveis do futuro

Para José Fernandes, presidente da operação da Honeywell na América Latina, país será protagonista no mercado de combustíveis renováveis

10 de julho de 2026

Por Gabriel Baldocchi e Elisa Calmon

A reorganização global da Honeywell, gigante americana que faturou US$ 40 bilhões em 2025 e desmembrou seu conglomerado em empresas independentes, coloca o Brasil no centro da estratégia da nova Honeywell Technologies. Em entrevista à Broadcast Weekend, José Fernandes, presidente da operação da companhia na América Latina, afirma que o País será protagonista no mercado de combustíveis renováveis. Segundo o executivo, uma nova onda de investimentos em diesel verde e combustível sustentável de aviação (SAF) começa a ganhar força, após um período de incerteza.

A empresa acompanha sete projetos na América do Sul, com destaque para as iniciativas de Petrobras e Acelen, previstas para entrar em operação a partir de 2030. Na avaliação de Fernandes, o avanço desse mercado pode até justificar a instalação de uma fábrica da Honeywell no Brasil para produzir equipamentos hoje importados. “Há um mercado novo que vai se construir nas próximas décadas e esse é o momento de entrar”, afirma.

Com passagens por empresas como Dow Chemicals e países como a Argentina, o executivo é mestre em Administração de Empresas (MBA) pela Fox School of Business, da Temple University, nos EUA, e ingressou na Honeywell em 2018. Neste ano, assumiu também a presidência do Conselho de Administração da Câmara Americana de Comércio (Amcham Brasil). Confira os principais trechos da entrevista:

Broadcast – A Honeywell acaba de concluir a nova estrutura, de separar seus principais negócios no mundo. Como essa decisão impacta o Brasil?

José Fernandes – Há dois anos e meio, quando o atual CEO assumiu o cargo, ele fez uma revisão estratégica do portfólio, das áreas que desejávamos focar olhando para o futuro. E foi tomada a decisão de separar a companhia em três diferentes negócios. A razão é de que isso dá mais foco nas divisões.

Broadcast –  Historicamente,  inclusive as companhias americanas lideraram esse processo, a direção era na formação de grandes conglomerados. Hoje esse modelo não faz mais sentido?

Fernandes –  A Honeywell é um dos últimos grandes conglomerados que se separaram. Além de conseguir dar o foco necessário nas áreas que você quer, os investidores começaram a repensar a maneira das decisões. Antigamente, os grandes fundos de Wall Street gostavam muito dos conglomerados porque quando uma divisão não ia bem, a outra compensava. Ao longo do tempo, começaram a querer saber se o investimento era de longo prazo ou mais de curto prazo. Aí os grandes conglomerados começaram a perder um pouco desse investimento. Quando você faz a cisão fica muito claro para os investidores agora onde eles vão investir, se numa indústria aeroespacial, botar mais dinheiro ali para desenvolver e esperar esse retorno que vem no longo prazo, que é uma indústria mais de longo prazo, ou se eles vão fazer o investimento numa empresa de automação, na qual somos hoje o líder, e ter um retorno mais rápido.

Broadcast – Agora nessa nova divisão, quais são as áreas mais promissoras no Brasil?

Fernandes –  O setor de automação vai ser muito importante, com o advento da inteligência artificial. Vamos sair de um processo de automação tradicional para sistemas autônomos. E o segundo grande mercado é o de combustíveis renováveis. O Brasil vai ser um grande protagonista nesse segmento e temos avançado de forma eficiente agora, principalmente nos últimos meses. Conseguimos alguns FIDs (documento de Decisão Final para Investimentos) para construção de fábricas de puro biorrefino. Temos uma indústria de biocombustíveis muito forte, mas são mesclas. Estamos falando agora de construção de fábricas de biocombustível puro, 100% renovável. Essas duas áreas, tanto a área de automação, como a área de combustíveis renováveis, são grandes pilares de crescimento no Brasil.

Broadcast –  Você está incluindo aí também as plantas para produção de SAF (combustível sustentável de aviação) ?

Fernandes – Sim. Você pode ter dois produtos nesse processo: o diesel renovável, 100% renovável, não o biodiesel que nós temos hoje, que é uma mescla, ou pode ter o SAF. As empresas estão construindo as fábricas para ter a opção de produzir os dois. Fábricas com tecnologias Honeywell. Já foram anunciados tanto a fábrica da Petrobras como a da Acelen. Vão produzir tanto o diesel verde ou podem produzir SAF. Pelo que nós temos conversado com as companhias, hoje existe uma tendência maior de SAF, porque existe uma demanda global de SAF para o setor de aviação para ajudar a acelerar a diminuição na questão das emissões de carbono nessa, nessa indústria.

Broadcast – Quando você fala de uma perspectiva de produzir SAF, qual é o horizonte de tempo para iniciar a produção?

Fernandes – Tanto a Acelen, como a Petrobras, já estão fazendo os investimentos e existem mais alguns investimentos que estão vindo aí. A Summit Agricultural Group também já anunciou que pretende construir uma fábrica a partir de etanol no Brasil. As primeiras plantas que vão entrar em operação serão as Hefa (que processa óleos residuais ou gorduras), na Acelen e na Petrobras. Devem estar em produção entre final de 2029 e começo de 2030. Em 2030, estimamos que o Brasil será detentor de mais ou menos 2% da demanda global, isso significa aproximadamente 260 milhões de galões por ano, de produção de SAF equivalente. Percentualmente é um número muito baixo para a demanda global, mas muito importante no caminho de converter esse mercado no curto prazo. Não é um mercado que vai se converter em  4, 5 anos. Vão levar algumas décadas para acontecer. O Brasil tem capacidade de ser protagonista, dada a capacidade que está sendo instalada.

Broadcast  – Vimos muitos protocolos de investimentos sendo assinados para produção de SAF, mas alguns projetos não saíram do papel. O que mudou?

Fernandes – De fato, se olharmos os anúncios de 2024 e 2025, houve uma desaceleração. Na realidade nenhum dos nossos clientes disse que os projetos estavam cancelados. Estavam postergados. Neste ano, a Acelen aprovou o investimento de US$ 1,3 bilhão e a Petrobras recentemente anunciou que aprovou o investimento para a refinaria de Hefa, em Presidente Bernardes, em Cubatão. Então agora os projetos estão saindo do papel de fato. A Summit informou que vai em frente com a produção no Brasil na rota de etanol. Uma vez que começa esse movimento as outras empresas com as quais estamos conversando com intenção de produzir SAF vão ver isso com outros olhos e começam a fazer um movimento para não ficar para trás. Esse é um mercado novo que vai se construir nas próximas décadas e esse é o momento de entrar. Vejo que os clientes não estão deixando a oportunidade passar, porque uma vez que passou, passou. São investimentos vultuosos, refinarias novas, que estarão aí por 50, 60 anos.

Broadcast- Com quantos clientes vocês estão conversando? Quantas plantas poderíamos ter?

Fernandes – Temos praticamente sete projetos em conversa andando na região, todos em que já há informações públicas. São dois da Petrobras, o da Acelen e o da Summit. Temos um projeto com a Essential Energy na Argentina, um com a Be8, mas é uma fábrica no Paraguai, não no Brasil. E tem uma fábrica de refinar no Uruguai. São sete projetos que estão muito bem encaminhados para produzir SAF ou biodiesel nos próximos anos. As primeiras produções devem sair em 2030. As demais devem sair aí durante 2031, 2032, 2033. Nos próximos anos deve ter uma sequência de fábricas novas produzindo SAF ou diesel verde aqui na região, entre Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai.

Broadcast – Isso muda alguma coisa nos planos de investimentos para vocês aqui?

Fernandes – O Brasil já é uma área de bastante relevância para a companhia. Pode ser que, dado esse movimento bastante forte de novos projetos de combustível renovável, podemos avaliar se vale a pena ter uma fábrica de equipamentos no Brasil. Mas essa é uma análise cuidadosa. Tem que ser uma fábrica que não sirva somente para o mercado da América Latina, mas seja um hub global também.

Broadcast – Vocês já começaram algum estudo nesse sentido?

Fernandes – Sempre fazemos estudo, uma vez por ano. Nesse ciclo que de 2025, 2026, não via-se nenhuma razão para ter uma fábrica aqui. Agora, com todo o andamento dessas novas fábricas que vão ser instaladas no Brasil em 2026, no próximo ciclo, avaliamos novamente, se faz sentido fazer investimento. Isso vai ser analisado entre o quarto trimestre e o primeiro trimestre do próximo ano.

Broadcast – Com essa nova lógica tarifária do mundo e o rearranjo das cadeias globais, não há mais força para esse pleito?

Fernandes – Com certeza. Esse pode vir a ser um fator até determinante. Vamos supor que sejam aplicadas as tarifas que estão sendo discutidas na sessão 301 hoje pelos Estados Unidos com o Brasil. Vamos dizer que sejam implementadas, isso só dificulta que uma planta no Brasil seja efetiva para exportar aos Estados Unidos.

Broadcast – Ainda na questão tarifária, qual é avaliação que você, como presidente do Conselho da Amcham, faz sobre a relação Brasil e Estados Unidos? É possível enxergar uma mudança estrutural?

Fernandes – Eu não sei se é um tema que veio para ficar. Essa foi uma recomendação de aplicação de uma tarifa de 25% devido à sessão 301. E depois o governo também fez uma segunda recomendação pela questão do trabalho forçado, de mais 12,5%. Se as duas forem aplicadas, isso representa 37,5% de tarifa adicional para determinados produtos e setores da economia. Nós como Amcham, estamos trabalhando muito de perto com a CNI (Confederação Nacional da Indústria) e com a U.S. Chamber nos Estados Unidos, para criar um ambiente de trabalho no qual ambos os governos possam encontrar uma solução satisfatória e que isso não impacte as relações bilaterais. A decisão final deve ocorrer em 15 de julho.

Broadcast – Mas podemos concluir que o tema das tarifas vai passar a ter um peso maior na relação?

Fernandes – O governo americano tem utilizado as tarifas para negociar certas posições com cada um dos governos. É uma prerrogativa do governo americano. Não dá para saber se vão continuar usando. Pelo governo brasileiro, tem que demonstrar uma abertura para tentar buscar um consenso para minimizar o impacto para certas indústrias.  E o governo brasileiro tem feito isso de maneira muito perspicaz. É preciso mostrar que prejudica a nós como indústria e como economia, mas também prejudica os Estados Unidos nesses setores.

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