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Maior aversão a risco reduz blindagem do real vinda de exportação de petróleo

Apesar de recuar cerca de 3% frente ao dólar no mês, em 2026, avança e tem terceiro melhor desempenho entre divisas emergentes

24 de março de 2026

Por Antonio Perez

Um choque mais agudo nos preços de energia, decorrente de um agravamento e prolongamento da guerra no Irã, pode levar a uma depreciação mais forte do real nos próximos meses, ainda que o petróleo em alta seja visto no momento como algo positivo para a moeda brasileira, segundo especialistas ouvidos pela Broadcast.

Apesar de recuar cerca de 3% em relação ao dólar neste mês, dada a escalada da aversão ao risco com a guerra no Oriente Médio, o real ainda avança em 2026 e apresenta no ano o terceiro melhor desempenho entre as divisas de economias emergentes e exportadoras de commodities no período, pouco atrás do dólar australiano e do peso argentino.

Da eclosão da guerra para cá, o real sofre menos que as demais moedas latino-americanas, à exceção do peso colombiano, que exibe ganhos de 1,5% frente ao dólar no período. No momento, a moeda é beneficiada pelo fato de o Brasil ser exportador líquido de petróleo, o que leva a arrancada das cotações da commodity a se traduzir em melhora dos termos de troca. No entanto, o quadro pode mudar se o conflito desorganizar as cadeias de suprimento de energia.

O contrato do petróleo tipo Brent para maio terminou a semana passada acima de US$ 110 o barril, com avanço superior a 50% no mês e de mais de 80% no ano.

No fim de semana, o presidente dos EUA, Donald Trump, ameaçou, em postagem na rede Truth Social, atacar e destruir as usinas elétricas iranianas se Teerã se recusasse a reabrir em até 48 horas o Estreito de Ormuz, por onde é escoada 20% da produção global de petróleo. O Irã respondeu prometendo fechar completamente o Estreito caso Trump cumpra sua ameaça. A Fitch Ratings estima que os preços do petróleo podem se manter acima de US$ 120 por barril caso o Estreito de Ormuz permaneça fechado por um período de seis meses.

O diretor de Pesquisa Econômica do Banco Pine, Cristiano Oliveira, observa que episódios de disparada dos preços do petróleo reduzem as expectativas de crescimento global e aumentam a aversão ao risco, o que tende a ampliar a demanda por ativos seguros e levar a uma valorização global da moeda americana. Termômetro do comportamento do dólar em relação a uma cesta de seis moedas fortes, o índice DXY sobe mais de 2% em março e opera acima de 100 pontos.

O Brasil conta com um importante amortecedor macroeconômico, dado que, nos últimos anos, tornou-se exportador líquido de petróleo, o que pode amenizar os impactos do aumento da tensão externa sobre o real. Além da melhora dos termos de troca, há uma elevação das receitas associadas ao setor do petróleo, o que tende a contribuir para a melhora da dinâmica fiscal no curto prazo.

“Por outro lado, o real permanece uma moeda altamente líquida e sensível às condições globais. Em momentos de aversão a risco, moedas de mercados emergentes tendem a sofrer depreciação, independentemente de seus fundamentos domésticos”, diz Oliveira.

O Citi observa que não está claro se já ficaram para trás tanto o pico dos preços do petróleo quanto do VIX – índice que mede a volatilidade do mercado de ações dos EUA e é conhecido como termômetro do medo. Por ora, o real permanece parcialmente blindado da piora do ambiente global com a guerra no Irã, uma vez que o Brasil se tornou na última década um player relevante do mercado global de petróleo, com um superávit comercial relacionado à commodity de cerca de 1,5% do Produto Interno Bruto (PIB).

“Não podemos descartar a possibilidade de que a aversão ao risco aumente a ponto de anular a proteção ao real concedida pela posição comercial favorável ao Brasil no setor petrolífero”, alerta o Citi, que prevê uma depreciação moderada do real ao longo dos próximos meses e estima taxa de câmbio em R$ 5,40 no fim do ano, com aumento da volatilidade com as eleições presidenciais.

Reação do governo

O gestor de fundos multimercados da AZ Quest, Eduardo Aun, pondera que os eventuais ganhos líquidos para o saldo na balança comercial podem ficar em segundo plano se houver uma alta ainda mais forte e persistente dos preços do petróleo.

“O problema é que a valorização do petróleo provoca uma desorganização economia que é ruim para a moeda. Como o governo vai lidar com a Petrobras no caso do aumento dos preços de combustíveis? Vai haver uso de recursos fora da meta fiscal para subsídios? Tudo isso pode aumentar a percepção de risco doméstico e prejudicar o real”, afirma Aun.

O governo já zerou as alíquotas de PIS e Cofins sobre o diesel e anunciou uma subvenção para a produção do combustível, com o objetivo de diminuir o preço nas refinarias em R$ 0,64 por litro. Para compensar as perdas de receita, estimadas em R$ 30 bilhões, adotou um imposto de exportação de 12% sobre petróleo bruto.

O Ministério da Fazenda levantou a possibilidade de que Estados e o Distrito Federal zerem até o fim de maio o Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) sobre a importação de óleo diesel, com a União arcando com 50% das perdas com a renúncia fiscal.

“A leitura de que alta do petróleo protegia de certa forma o real, porque levava a uma melhora da balança comercial, pode mudar um pouco com a taxação das exportações de petróleo para compensar as medidas de alívio no preço do diesel”, afirma o economista-chefe da corretora Monte Bravo, Luciano Costa.

Política monetária

Além da perspectiva de melhora dos termos de troca com a alta do petróleo, parte da resistência do real era atribuída à taxa de juros doméstica elevada, que garantia um amplo diferencial entre juros interno e externo, estimulando o carry trade -operação em que investidores tomam recursos em moedas de países de juros baixos para aplicar em divisas de países com taxas elevadas, caso do Brasil.

Um dos pontos-chave para a manutenção do bom desempenho das divisas emergentes era a perspectiva de retomada de cortes de juros pelo Federal Reserve a partir do segundo semestre deste ano. A perspectiva de um choque de energia prolongado, com o agravamento das tensões no Oriente Médio, pode levar, contudo, a um aperto monetário nos EUA e em outros países desenvolvidos. Por aqui, a perspectiva é a de que o ciclo de queda da taxa Selic iniciado na semana passada pelo Comitê de Política Monetária (Copom), com um corte da taxa Selic em 0,25 ponto porcentual, para 14,75%, possa ser menor do que se imaginava antes da guerra.

Aun, da AZ Quest, ressalta que o principal evento para os mercados globais foi a mudança de tom dos bancos centrais dos países desenvolvidos, puxada pelo discurso mais cauteloso do presidente do Fed, Jerome Powell, na quarta-feira, 18, e seguida no dia seguinte por Banco da Inglaterra (BoE), Banco Central Europeu (BCE) e Banco do Japão (BoJ). A exemplo do Fed, todos optaram pela manutenção dos juros, mas alertaram para os riscos inflacionários com a escalada dos preços de energia.

“Os BCs adotaram uma postura mais dura, com um grau maior de preocupação com a inflação, o que provocou uma reprecificação das curvas de juros. O dólar ficou mais forte nesse processo”, afirma Aun, ressaltando que eventual aperto monetário nas economias centrais vai depender da extensão do conflito no Oriente Médio.

O chefe da Tesouraria do Travelex Bank, Marcos Weigt, ressalta que o mercado está muito sensível ao vaivém das cotações do petróleo, dada a preocupação com a inflação global e seus impactos na decisão de política monetária nos países desenvolvidos, em especial nos Estados Unidos.

“O Powell veio com tom mais duro e as taxas dos Treasuries subiram, o que tirou força de divisas emergentes. Mas o Fed nem precisa cortar os juros para o real se recuperar. Se ficar claro que não vai aumentar, o dólar despenca por aqui”, afirma Weigt.

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