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‘Guerra pode ser desinflacionária para alimentos no Brasil no curto prazo’

Para economista-chefe do Morgan Stanley, Ana Madeira, menor escoamento de carnes a Oriente Médio tende a elevar oferta doméstica

23 de março de 2026

Por Gustavo Nicoletta e Renata Pedini

O atual cenário geopolítico pode aliviar a alta nos preços de alimentos no Brasil no curto prazo, ainda que o efeito líquido do conflito, no médio prazo, seja inflacionário. A avaliação é da economista-chefe do Morgan Stanley para Brasil, Ana Madeira. Em entrevista à Broadcast, ela afirma que a dificuldade de escoar exportações de carnes para o Oriente Médio tende a aumentar a oferta no mercado doméstico.

A economista espera aceleração no ritmo de cortes da taxa Selic para 0,50 ponto porcentual a partir de junho, levando a taxa a 12% ao final de 2026, abaixo do consenso de mercado (12,25% no último boletim Focus). Confira abaixo os principais pontos da entrevista:

Broadcast: A redução de 0,25 ponto porcentual na taxa Selic na reunião do Copom foi do tamanho certo? Poderia ter sido mais agressiva?
Ana Madeira:
Nossa projeção, já fazia um tempo, era de um corte de 0,50 ponto porcentual. Na última semana, ressaltamos os riscos aumentados para a redução de 0,25 ponto. A volatilidade geopolítica continuou e os riscos inflacionários por conta do preço do petróleo ficaram mais presentes. Achamos que haveria uma discussão válida sobre um começo de ciclo um pouco mais cauteloso. Acabou pesando na decisão o fato de o mercado ter ido para 0,25 ponto.

A decisão do Copom nos levou a revisar toda a nossa projeção. Esperávamos uma Selic de 11,50% no fim deste ano, partindo de cortes de 0,50 ponto desde o início. Com o começo mais brando do ciclo, ajustamos a projeção para a Selic terminal deste ano para 12%, com 0,25 ponto em abril e 0,50 ponto a cada reunião dali até o fim do ano.

Broadcast: O Copom diz que os riscos “se intensificaram” com o conflito no Oriente Médio. Para você, o choque é mais inflacionário ou mais desinflacionário?
Madeira:
O Brasil em específico é um pouco diferente dos outros países. Há um problema de curto prazo, já que 30% de tudo o que é exportado de frango vai para o Oriente Médio e passa pelo Estreito de Ormuz, e 15% mais ou menos de algumas carnes, proteínas, também passam por lá. Considerando isso, o fato de o Brasil enfrentar dificuldade de armazenamento e ter fazendeiros bem endividados, acabará tendo que desovar essa exportação no mercado doméstico. Como a nossa inflação de alimentos representa um pouco mais de 20% da cesta do IPCA, para a inflação é relevante. Assim, no curto prazo, para o Brasil, pode haver impacto desinflacionário. Mas não seria algo que o Banco Central usaria para argumentar pela aceleração dos cortes de juros.

No médio prazo, o impacto mais relevante é o aumento de preços de petróleo. Em 60% da economia os produtos são distribuídos via caminhões, que usam diesel. O impacto da primeira ordem é o aumento dos custos de produção. De segunda ordem é um repasse disso ao consumidor final. No líquido, continua sendo mais inflação para cima do que para baixo.

Broadcast: É possível descartar uma pausa do ciclo de cortes da Selic?
Madeira:
É difícil falar que está descartado dado o que está acontecendo no mundo. Achamos que o Banco Central daria mais peso para continuar cortes no ritmo de 0,25 ponto em vez de simplesmente parar. Se começarmos a ver as expectativas de inflação subindo, não haverá espaço para acelerar esse ritmo.

Broadcast: O Banco Central revisou para cima a projeção de inflação, mas não tanto quanto alguns agentes de mercado esperavam. Ele está subestimando a inflação? Ao mesmo tempo, a estimativa está acima da meta de 3%. Você vê um momento de ancoragem?
Madeira:
O aumento da projeção do modelo do Banco Central foi mais comedido. Prevíamos de 3,4% a 3,5%. Vamos esperar a ata na semana que vem para ter mais visibilidade. Provavelmente a ideia foi suavizar o impacto do preço do petróleo – há um choque de oferta, os preços futuros estão mais comportados, não vamos apresentar uma reação tão explosiva.

Sobre a ancoragem, estamos de acordo com o Banco Central. Ele vinha comunicando que o ciclo seria de calibragem. A taxa Selic ainda permaneceria num nível contracionista. O Banco Central não espera que a ancoragem das expectativas de inflação seja rápida.

Muito da alta das expectativas para os próximos anos inclui um pouco de risco fiscal. Há uma eleição e incertezas sobre qual plano o próximo governo vai apresentar. O mercado não está com apetite para reduzir esse risco. O Banco Central deve ser mais cauteloso, esperar para ver como esse risco se resolve, para depois ter melhor visibilidade sobre onde de fato terminar com a Selic em 2027.

Broadcast: Se as expectativas de inflação do Focus não cederem, até onde o BC consegue cortar juros sem perder credibilidade?
Madeira:
Prevemos alta de 3,9% para o IPCA ao final do ano. A expectativa da Focus agora foi para 4,1%, mas há um evento muito forte [guerra no Irã] que, dependendo de quanto tempo durar, pode mudar de um momento para o outro a expectativa de inflação no longo prazo. Os riscos estão mais para os eventuais cortes a serem feitos no quarto trimestre do que os eventuais cortes a serem feitos no curto prazo. Fico mais preocupada com a nossa expectativa de que os cortes vão continuar no quarto trimestre do que com a de que haverá espaço nos próximos meses para continuar cortando.

Broadcast: Dentro da inflação, uma das questões é serviços. Qual é a sua projeção para a inflação desse segmento e quais indicadores vão dizer que ele convergirá à meta?
Madeira:
O consumo passa uma sensação de repique na margem por causa dos indicadores econômicos que surpreenderam para cima. Mas desde o ano passado esses indicadores continuam mostrando arrefecimento. É menos forte que o esperado, mas neste momento não vemos dados apontarem para uma reaceleração da atividade em 2026 vis-à-vis 2025. Isso dá espaço para o Banco Central fazer algum tipo de calibragem. Outra questão é a inflação de serviços. Prevemos 5,3% para o final do ano. É uma queda ante o ano passado, mas não muito grande. Se houver algum tipo de surpresa, não será tanto nessa variável. É mais noutro tipo, como por exemplo não duráveis, alimentos, tradables [itens que podem ser importados], por conta de uma moeda mais forte. Serviços acabam sendo menos voláteis e começam a indicar estagnação. A inflação do setor começou a dar um platô, e a lógica seria começar a ver uma queda.

Broadcast: Então há um risco baixo de a desaceleração da atividade ficar menos intensa do que o Banco Central espera?
Madeira:
Nossa previsão é de crescimento de 2% neste ano. Os riscos a essa estimativa estão bem balanceados. Sempre estivemos mais construtivos sobre a atividade do que o mercado. Este cenário, com inflação de 3,9% em 2026, continua coincidindo com um juro que termina o ano em 12%, um nível bem contracionista.

Broadcast: A premissa de câmbio usada pelo Banco Central melhorou no cenário de referência. Você interpreta essa melhora como “janela técnica” ou como um sinal de menor estresse?
Madeira:
Investidores consideram o carry oferecido pelo Brasil simplesmente muito atrativo, inclusive se ajustado para a volatilidade. A expectativa é de que a volatilidade no Brasil aumente com as eleições, mas provavelmente só na segunda metade do ano. Tendo isso em conta e considerando que, mesmo cortando juros, o diferencial vai permanecer bem grande ante os EUA, isso deve continuar a atrair demanda para o real. Não é uma melhora estrutural no sentido de o País estar melhor como um todo – para isso precisa haver visibilidade de um plano fiscal. É mais uma janela de oportunidade neste momento.

Broadcast: Qual nível ou velocidade de depreciação do câmbio mudaria o jogo para o ritmo de cortes da Selic?
Madeira:
É difícil esse olhar para esse nível, mas no final do ano passado a expectativa era um câmbio perto de R$ 5,30, R$ 5,40, e hoje está em R$ 5,20. Até que volte aos números anteriores talvez ainda exista uma margem para o Banco Central ficar relativamente confortável.

Broadcast: Qual é o preço que vocês projetam para o petróleo?
Madeira:
As nossas premissas para Selic, IPCA e PIB levam em conta um valor de US$ 70 por barril de Brent no final do ano. Antes era US$ 65.

Broadcast: Sobre a sucessão no Banco Central, há duas cadeiras vazias na diretoria. O mercado tem receio de um Copom só de indicados pelo presidente Lula?
Madeira:
Receio tem, mas hoje em dia é um pouco menor do que há um ano. Temos visto nomes indicados pelo governo fazendo uma política monetária muito independente e focada na convergência da inflação. Em muitas ocasiões, inclusive, contrariando um mercado que via espaço para uma postura até mais dovish em relação ao que foi feito.

Broadcast: O Brasil está bem posicionado em relação a outras economias emergentes neste momento em termos de política monetária?
Madeira:
O Brasil está relativamente bem posicionado porque, no meio de tudo que está acontecendo, tem um colchão de juros que ajuda, e uma percepção de uma volatilidade baixa até a gente chegar no segundo semestre. Desaceleração econômica bem leve, ordenada, ausência de ruído fiscal. Tudo isso ajuda. E outra coisa importante: hoje em dia o investidor internacional pensa quem é exportador líquido de petróleo e quem é importador. Antes até de começarmos a olhar os detalhes, o Brasil acaba ficando na caixinha dos que seriam mais resguardados por um tempo.

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