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Choque do petróleo por conflito no Oriente Médio leva a avaliações opostas dos bancos centrais dos EUA e do Brasil
19 de março de 2026
Por Aline Bronzati, correspondente, Eduardo Laguna, Daniel Tozzi, Antonio Perez, Caroline Aragaki e Arícia Martins
As incertezas em torno dos impactos econômicos dos conflitos no Oriente Médio levaram o Comitê Federal de Mercado Aberto (Fomc, na sigla em inglês) do Federal Reserve (Fed) a debater a possibilidade de um aumento de juros na próxima reunião, em abril. Ao saber que o tema foi alvo do encontro, realizado nesta semana, Wall Street voltou a postergar suas expectativas de retomada de corte nas taxas americanas, agora para 2027.
Ontem, o Fomc manteve a taxa dos Fed Funds na faixa entre 3,50% e 3,75% ao ano, como amplamente esperado pelo mercado. Foi a segunda manutenção consecutiva, após três reduções seguidas no ano passado – em setembro, outubro e dezembro. A decisão, contudo, não teve consenso: o diretor Stephen Miran votou por um corte de 25 pontos-base.
O presidente do Fed, Jerome Powell, alertou para o risco de o salto nos preços do petróleo elevar a inflação geral. Ponderou, contudo, que o cenário é incerto e, portanto, cedo demais para saber o tamanho e a duração dos impactos dos conflitos. Diante do aumento das expectativas de inflação nos EUA no curto prazo, os dirigentes do Fomc debateram a possibilidade de aumento nas taxas na próxima reunião, agendada para abril.
“A possibilidade de que nosso próximo passo possa ser um aumento foi, sim, levantada na reunião, tal como ocorreu no encontro anterior”, disse Powell, em coletiva de imprensa. Apesar disso, a grande maioria dos dirigentes do Fomc não considera a possibilidade de aumento das taxas em seu cenário-base. Mas naturalmente, não descartam nenhuma opção, acrescentou.
Apesar disso, ele reafirmou que a política monetária não segue um curso preestabelecido e que as decisões serão tomadas a cada reunião. As projeções econômicas do Fed (SEP) continuaram a apontar chances de um corte de juros ainda em 2026. “O que acontecer no Oriente Médio será um grande fator”, afirmou.
As falas de Powell causaram um novo movimento nas placas tectônicas das projeções de Wall Street, desta vez, para o próximo exercício. O mercado chegou a empurrar de dezembro deste ano para março de 2027 a expectativa de início dos cortes de juros pelo Fed. Na sequência, voltou a ver o último mês do ano como o mais provável para a retomada do ciclo de flexibilização monetária no país.
Para o canadense TD Bank, o Fed ignorará o choque petrolífero se a transferência de tarifas mostrar sinais de redução. O banco continua projetando três cortes de 25 pontos-base trimestrais, começando em setembro de 2026 e terminando em março de 2027.
Na visão de Powell, assim como a covid-19, o choque no setor de energia por conta dos conflitos no Oriente Médio também é único. O presidente da Queen’s College e conselheiro econômico-chefe da Allianz, Mohamed El-Erian, discorda. “Há boas razões para sugerir que estamos em um mundo de choques mais frequentes e mais violentos”, disse ele, que é considerado uma espécie de guru em Wall Street.
Além dos impactos da guerra, a inflação dos EUA deu sinais de piora antes mesmo do início dos conflitos, em 28 de fevereiro. O índice de preços ao produtor (PPI, na sigla em inglês) nos EUA subiu 0,7% no mês passado ante janeiro e 3,4% em um ano. Ambos vieram bem acima das expectativas de analistas consultados pela FactSet, que esperavam altas de 0,3% e 2,9%, respectivamente.
Em paralelo, os temores de recessão também cresceram em Wall Street, apontam os mercados de previsão. O economista-chefe da Moody’s Analytics, Mark Zandi, alertou que os EUA podem entrar em recessão nos próximos 12 meses caso os preços do petróleo continuem elevados. O Citi passou a prever que os preços alcancem a faixa de US$ 110 a US$ 120 por barril no curto prazo.
Aliado do presidente Donald Trump, o economista americano e líder do Bureau of Labor Statistics (BLS), EJ Antoni, disse que a maior economia do mundo não será capaz de lidar com os preços do petróleo a US$ 100 por barril. “Simplesmente não é”, disse ele, em entrevista ao britânico Financial Times, nesta quarta-feira.
Para o presidente do Fed, a situação atual é muito difícil, com riscos de alta para a inflação e de baixa para o emprego. Mas, apesar disso, não há uma situação de estagflação nos EUA, como ocorreu na década de 70. “Essa não é a situação em que nos encontramos”, reforçou.
Powell também prometeu liderar o Fed até a aprovação do nome de seu substituto, Kevin Warsh, indicado pelo presidente Donald Trump. Ele também não tem a intenção de deixar o conselho até que a investigação do Departamento de Justiça dos Estados Unidos (DoJ, na sigla em inglês) “esteja bem e verdadeiramente concluída com transparência e finalidade”.
“Se meu sucessor não for confirmado até o final do meu mandato como presidente, eu serviria como presidente até que ele seja confirmado”, disse. Conforme ele, é o que a lei exige. “É o que fizemos em várias ocasiões, inclusive envolvendo a mim, e é o que vamos fazer nesta situação”, concluiu.
Com uma sinalização explícita em janeiro sobre seu próximo passo, o Comitê de Política Monetária (Copom) parecia preparar o mercado a uma abertura de ciclo de baixa da Selic com um corte de 0,5 ponto porcentual na quarta-feira. Mas entre uma reunião e outra, a guerra no Oriente Médio e um barril de petróleo acima de US$ 100 fizeram as apostas migrarem nos últimos dias a uma redução mínima dos juros de referência do País.
Assim, a primeira redução da Selic em quase dois anos ficou em 0,25 ponto porcentual. O comunicado que anuncia a decisão veio menos conservador do que boa parte do mercado esperava, em tom classificado por muitos analistas como suave ou dovish no jargão financeiro. Desse modo, na leitura dos especialistas, o tom do documento parece afastar a possibilidade de o conflito interromper o ciclo de alívio monetário.
Apesar da disparada do petróleo, a expectativa de inflação no horizonte observado pelo BC, o terceiro trimestre de 2027, subiu menos do que alguns economistas imaginavam: de 3,2% para 3,3%.
Ainda que tenha retirado a sinalização sobre a próxima decisão, o chamado forward guidance, o Copom falou de passos futuros do processo que chamou de calibração da taxa básica de juros. Junto com a revisão discreta na inflação projetada e a convicção demonstrada pela autoridade de que os juros altos estão surtindo efeito, ficou a sensação de que o ciclo de corte de juros continuará, embora em ritmo que dependerá da duração dos conflitos envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã.
Na sequência do comunicado do Copom, Pantheon Macroeconomics, Warren Investimentos e Santander convergiam na leitura de que o Copom deve repetir um corte de 0,25 ponto porcentual na próxima reunião, marcada para os dias 28 e 29 de abril.
Para Andres Abadia, economista-chefe para a América Latina da Pantheon, o Copom indicou que a barra para acelerar o ritmo para cortes de 0,5 ponto porcentual segue elevada, sobretudo porque aumentaram os riscos de desancoragem das expectativas de inflação diante das tensões no Oriente Médio e seus efeitos sobre commodities e cadeias de suprimento.
Na mesma direção, a Warren avalia que, enquanto persistir o conflito e seu potencial impacto inflacionário, a autoridade monetária tende a manter passos de 25 pontos-base, projetando Selic em 13,25% ao fim de 2026.
Economista do Santander, Marco Caruso entende que a comunicação tornou novos cortes de 0,25 mais prováveis, reduzindo a chance de uma pausa no ciclo de baixa da Selic. Uma aceleração para 0,50 ponto porcentual pode voltar ao radar, interpreta Caruso, se houver melhora relevante do cenário – por exemplo, com reversão de parte da alta recente do petróleo.
“A regra base é seguir com cortes de 0,25. Se houver alguma melhora, pode ir para 0,5, e só com uma piora mais expressiva consideraria uma pausa numa próxima reunião”, comenta Caruso. “O plano, hoje, parece ser seguir na toada de 0,25”, acrescenta o economista do Santander.
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