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Crédito privado tem spread comprimido e maior seletividade nas carteiras

Para especialistas, momento é de diligência redobrada, com preferência por ativos high grade, indexados à inflação e títulos públicos

23 de fevereiro de 2026

Por Bruna Camargo

O mercado de crédito privado começa o ano com spreads mais apertados após um forte fechamento observado em janeiro, reduzindo o prêmio disponível para novas alocações e exigindo maior seletividade dos investidores. Embora ainda vejam valor na classe, especialistas ouvidos pela Broadcast ajustam agora posicionamento e afirmam que o momento é de diligência redobrada, com preferência por ativos high grade, indexados à inflação e, em alguns casos, migração para títulos públicos.

Para Matheus Gonzalez, líder da Liberta Wealth, a grande janela de oportunidade ocorreu em outubro do ano passado, quando os spreads abriram de cerca de 0,5% para acima de 2% em meio ao ruído sobre mudanças na tributação de debêntures incentivadas, CRIs e CRAs. Gonzalez explica que a abertura não refletia piora de risco das empresas, o que configurou oportunidade de alocação.

Desde então, parte desse movimento foi revertida. Em janeiro, os spreads recuaram para a faixa de 1,2% a 1,5%, impulsionados por maior demanda por renda fixa, o que inclui recursos de dividendos antecipados e pagamentos do Fundo Garantidor de Crédito (FGC) que retornaram ao mercado. “Estamos pisando um pouquinho mais no freio”, diz Gonzalez, sobre novas alocações. Ele avalia que pode haver algum fechamento adicional, mas ressalta que, historicamente, os spreads deveriam flutuar entre 2% e 2,5% e que os níveis atuais já são baixos. Na casa, a preferência atual é por crédito estruturado.

O sócio da Astra Capital Guilherme Suzuki também destaca o fechamento expressivo dos spreads em janeiro, especialmente nos papéis atrelados ao IPCA. A casa não está “pesando a mão” em crédito privado neste momento e prefere aguardar uma normalização no médio prazo. Em algumas emissões primárias no fim do ano passado, a Astra optou por não recomendar entrada por entender que o prêmio não remunerava adequadamente o risco, mesmo em papéis com rating elevado.

A estratégia tem priorizado debêntures incentivadas, sobretudo de setores considerados mais previsíveis, como utilities e energia, com forte diligência sobre alavancagem. Suzuki afirma que a alocação em crédito privado manteve o ritmo, mas observa maior interesse recente pela Bolsa brasileira, o que deixou o início de ano “um pouco mais devagar” para a renda fixa.

Em termos de indexador, a Astra vem reduzindo exposição a CDI e aumentando posições em IPCA+, apostando na queda de juros ao longo do ano e em uma inflação estruturalmente mais alta no médio e longo prazo, por fatores globais e domésticos, segundo Suzuki.

João Guilherme Penteado, CEO da Apollo Investimentos, vê investidores mais confiantes no corte da Selic, mas ao mesmo tempo buscando ativos mais do tipo high grade, com nomes consolidados, diante de uma percepção de risco estrutural maior após o caso do Banco Master. De acordo com Penteado, o crédito privado tem cumprido papel de carrego, apoiado na previsibilidade de juros, mas a casa recentemente reduziu a exposição ao segmento e elevou a parcela em títulos públicos.

A mudança visa capturar o fechamento da curva, especialmente em papéis IPCA+, com maior liquidez e possibilidade de marcação a mercado. Penteado destaca que o principal concorrente do crédito privado neste momento é justamente o título público, pela liquidez e potencial de arbitragem.

No radar

No radar de riscos, os especialistas citam a questão fiscal doméstica como fator central. Gonzalez, da Liberta, traça cenários distintos a depender da condução das contas públicas após as eleições, com impactos tanto sobre juros reais quanto sobre os spreads de crédito. Penteado, da Apollo, acrescenta ainda os riscos geopolíticos – como tensões comerciais e conflitos internacionais – que podem provocar um sell off em ativos de risco e reforçar a busca por liquidez.

Além disso, do lado da oferta, Gonzalez destaca que a combinação de juros ainda elevados, menor apetite por investimento corporativo e ausência de grandes projetos de infraestrutura tende a reduzir o volume de novas emissões ao longo do ano, o que pode manter spreads comprimidos e tornar o mercado secundário mais relevante.

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