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‘WARSH DEIXARIA LEGADO SE CONSEGUISSE AJUSTAR BALANÇO DO FED’

Ex-presidente da distrital de Kansas City, Thomas Hoenig se mostra animado com a escolha do ex-colega para lugar de Jerome Powell

1 de março de 2026

Por Isabella Pugliese Vellani e Pedro Lima

Considerado como um dos dirigentes com carreira mais longeva no Federal Reserve (Fed), o ex-presidente da distrital de Kansas City Thomas Hoenig se mostra animado com a escolha do ex-colega Kevin Warsh para a presidência do banco central americano a partir de maio. Em entrevista à Broadcast, Hoenig não poupou elogios a Warsh, afirmando que ele é muito fácil de interagir. “Estou ansioso e torcendo por um presidente muito ponderado que leve o Fomc em uma direção que modere o crescimento do seu balanço patrimonial, nos proporcione estabilidade de preços em um sentido real e torne o mercado mais responsável e menos dependente do BC”.

Segundo Hoenig, Warsh sempre demonstrou preocupação com o crescimento do balanço do Fed e reduzir seu tamanho sem provocar turbulências pode se tornar um legado importante, muito benéfico a longo prazo para os EUA e globalmente. “O Fed se envolveu demais nos mercados”, avalia Hoenig. “Esse não é um lugar para um banco central. O papel do banco central deve ser garantir a estabilidade de preços que permita o máximo emprego, não financiar a dívida nacional a qualquer custo”. Confira os principais trechos da entrevista:

Broadcast: Qual foi a sua reação inicial à indicação de Warsh ao Fed por Trump?

Thomas Hoenig: Se voltarmos no tempo, Kevin e eu éramos muito alinhados em relação à nossa visão de política monetária. Então, nesse sentido, acredito que ele e eu ainda estamos na mesma página. Conheço-o, e seus artigos de opinião desde então mostram que ele ainda está preocupado com o balanço patrimonial do Fed. Portanto, penso que, da minha perspectiva, ter essa experiência em política monetária e essa visão é muito saudável para o Fomc, para o Fed e para os EUA a longo prazo.

Broadcast: Existem no mercado preocupações de que a nomeação de Warsh possa enfraquecer a independência do Fed. Há riscos de um Fed mais “politizado” sob a liderança de Warsh?

Hoenig: É difícil prever porque, em primeiro lugar, independentemente de quem fosse indicado para o cargo, essa questão seria levantada. Sei que, quando se assume o cargo, quando se está na cadeira, é diferente de quando se está de fora. E, portanto, caberá a Kevin decidir como se posicionar, como interagir não apenas com o presidente, mas também com o Congresso dos EUA. É uma incógnita que todos teremos até que ele assuma o cargo.

Broadcast: Alguns economistas dizem que qualquer corte nos juros neste ano poderia ser interpretado como resultado de pressão política da Casa Branca. Qual sua opinião?

Hoenig: Isso é possível, mas também é possível que a inflação continue a cair para 2%. A desaceleração do CPI de janeiro a 2,4% foi um pouco surpreendente para o mercado. Se os preços continuassem a cair e se o Congresso começasse a resolver seu problema de dívida de longo prazo, poderia haver um argumento [para redução]. Se a inflação aumentasse de volta para 3%, então reduzir as taxas de juros seria incomum. Você ficaria mais desconfiado das razões para isso. Para agora, eu diria que manter as taxas onde estão é a coisa certa, assumindo que a inflação continue a cair muito lentamente como tem caído e dado o fato de que a dívida está muito alta. Não vou julgar antecipadamente o que os movimentos das taxas de juros significam para quem quer que esteja no comando.

Broadcast: Há riscos de um “efeito dominó global” se o Fed parecer mais influenciado pela política?

Hoenig: Acredito que os EUA já têm seus problemas com o resto do mundo em termos de suas políticas econômicas. O dólar está mais fraco, e o resto do mundo terá que fazer seus julgamentos, assim como o mercado faz. Os EUA precisam conduzir suas políticas pensando no longo prazo, espero, e o resto do mundo precisa fazer o mesmo e se ajustar de acordo. Então, não sei que tipo de efeito isso terá sobre o resto do mundo. Depende de como Kevin, se confirmado, se sairá no cargo. Isso certamente afetará o resto do mundo.

Broadcast: Acha que os economistas, ou até o mercado, irão divergir sobre Warsh ser dovish ou hawkish? Como isso pode moldar o futuro da política do Fed?

Hoenig: Eu não tenho muita simpatia pelo mercado. Mais importante que isso, estou esperando que Kevin mantenha as opiniões que ele e eu tínhamos em 2010, e que ele mantenha suas opiniões de forma muito objetiva e lidere o Fomc. O mercado oscila de um dia para o outro. Um dia Warsh é hawkish e, no dia seguinte, não mais. Eu sou da opinião de que sei que ele conhece a política. Sei que ele tem experiência, e estou muito esperançoso de que ele permaneça objetivo em seu trabalho.

Broadcast: A liderança de Warsh priorizará estabilidade de preços ou o máximo emprego?

Hoenig: Se ele for capaz de chegar a um acordo com o Tesouro e o Congresso sobre o balanço patrimonial, poderia ser muito bom para os Estados Unidos. Acho que ele deveria priorizar isso de forma geral. Agora, na ponderação entre estabilidade de preços e máximo emprego, eu não conheço suas opiniões. Eu sei que compartilhei minhas opiniões com ele muitas vezes quando estava no Fomc, que você não pode ter máximo emprego a longo prazo sem preços estáveis. E isso deveria ser a prioridade.

Broadcast: Qual a trajetória ideal das taxas de juros para o restante do ano, na sua opinião?

Hoenig: Os juros estão agora bem próximos da minha visão de equilíbrio. O mercado está forte. A inflação ainda não está em 2%, mas em 2,5%. E, dada a quantidade de dívida que precisa ser financiada em nosso governo, e a demanda por capital para inteligência artificial (IA), acho que as taxas de juros reais são de pelo menos 1%. Nesse caso, o Fed está ou neutro ou modestamente acomodatício. Onde está agora é provavelmente um lugar muito bom para a saúde a longo prazo da economia. Isso também, vale lembrar, será difícil porque a dívida dos EUA continua a crescer.

Broadcast: Warsh sugeriu que IA e ganhos de produtividade poderiam justificar taxas de juros mais baixas. O argumento é convincente?

Hoenig: Se você obtivesse bons ganhos de produtividade, dependendo de muitas outras coisas, as taxas podem permanecer onde estão. Você simplesmente não sabe até realmente ter os números na sua frente. Não acho que isso necessariamente signifique que uma queda de juros seguiria, mas é um argumento.

Broadcast: Comparando sua época no Fomc e a era Powell, como você vê a evolução do papel do Fed na macroeconomia e na política?

Hoenig: Na política, sempre esteve e sempre estará lá. Acho que o próprio Fed se envolveu demais nos mercados. Seu balanço, na época da crise, quando eu estava no Fomc, era inferior a US$ 1 trilhão em tamanho. Desde então, cresceu até US$ 9 trilhões. Ainda é US$ 6,5 trilhões. Ainda tem um papel importante nos mercados monetários, e esse não é um lugar para um banco central. O papel do banco central deve ser garantir a estabilidade de preços que permita o máximo emprego, não financiar a dívida nacional a qualquer custo. Essa é a preocupação que tenho com o crescimento do balanço do Fed.

Broadcast: Mas que impacto uma redução mais agressiva desse balanço poderia ter nos mercados e na economia?

Hoenig: Convidaria a uma recessão, tiraria muita liquidez do mercado e forçaria as taxas de juros a subirem. Não estou sugerindo que é isso que o Fed deve fazer. Estou sugerindo que o Fed deve parar de aumentar seu balanço e trabalhar com o Congresso para desacelerar o crescimento da dívida. O objetivo do Congresso deveria ser fazer o déficit crescer em algo menos de 3% do PIB, e isso permitiria ao Fed gerenciar sua parte da economia.

Broadcast: Qual o maior legado de Warsh no Fed?

Hoenig: Sua preocupação com o crescimento do balanço. É um legado muito significativo, um ao qual ele meio que se apegou e um que acho que deveria ser uma prioridade para ele. Não quero dizer que ele deva reduzir esse balanço violentamente, porque acho que seria disruptivo. Mas controlar esse balanço levaria seu legado adiante, e seria muito benéfico a longo prazo para os EUA e globalmente.

Broadcast: Como é Warsh como colega?

Hoenig: Ele é fácil de lidar, muito fácil de interagir, tem ótimas habilidades interpessoais, é muito forte nesse aspecto. Estou ansioso e torcendo por um presidente muito ponderado que leve o Fomc em uma direção que modere o crescimento do seu balanço patrimonial, nos proporcione estabilidade de preços em um sentido real e torne o mercado mais responsável e menos dependente do BC.

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