Selecione abaixo qual plataforma deseja acessar.

Onda ‘sell America’ turbina saldo estrangeiro na B3 e institucional fica fora

Rotação global e interferência de Donald Trump na geopolítica mundial impulsionam fluxo externo a emergentes

4 de fevereiro de 2026

Por Mateus Fagundes, Luis Eduardo Leal, Maria Regina Silva e Bruna Camargo

Os dados da B3 sacramentam uma tendência vista desde meados do mês passado: janeiro terminou com o segundo melhor fluxo estrangeiro para a Bolsa na série histórica. Com aporte líquido de R$ 26,313 bilhões, o começo de 2026 só não foi melhor em termos de fluxo para o mercado acionário brasileiro que o de 2022, quando houve ingresso de R$ 32,490 bilhões. Foi também maior que todo o saldo positivo externo em 2025. Enquanto isso, o investidor institucional brasileiro segue reticente em acompanhar o otimismo dos estrangeiros, saindo do mercado apesar dos recordes sucessivos do Ibovespa, e deve continuar hesitante nos próximos meses, segundo especialistas ouvidos pela Broadcast.

Por trás do movimento da entrada dos estrangeiros está a rotação global de ativos típica do primeiro mês do ano, mas que ganhou do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ingredientes importantes por sua ação na conjuntura geopolítica. Isso tem levado a um trade apelidado de “Sell America” (“Venda Estados Unidos”, em tradução livre). A tese passou pela liquidação de posições em ações, Treasuries e dólar americano em favor da compra de papéis de empresas de países emergentes e metais. Em menor grau, chegou a títulos públicos e moedas de fora do G10.

Na avaliação de gestores, os investidores estrangeiros estão olhando mais para o ciclo de política monetária do que para as eleições presidenciais deste ano. Assim, com a queda da taxa Selic em breve, o fluxo pode aumentar e ser reforçado a depender do que de fato acontecer no cenário político adiante.

“No fim do ano passado, a pergunta dos gringos era quando o juro vai cair no Brasil. Ainda não tinha começado o call de metais e emergentes, com o Trump mais agressivo. O que o gringo está é olhando isso”, afirma Christian Keleti, presidente-executivo da Alpha Key Capital Management.

Há uma necessidade do investidor global de portos mais seguros para seus portfólios. Nos cálculos do JPMorgan, foram aportados em ações de países emergentes US$ 39 bilhões (R$ 205 bilhões na cotação de ontem). Tudo isso levou a uma valorização mensal de 12,56% do Ibovespa em reais e 17,74% em dólar, ainda abaixo das referências de bolsas vizinhas, como do Peru e da Colômbia, que avançaram mais de 20%.

Saída dos locais

O investidor institucional, que já havia retirado R$ 46,6 bilhões da Bolsa em 2025, entre 1 e 29 de janeiro manteve o movimento de saída, com fluxo negativo de R$ 16,7 bilhões. Segundo Bruno Takeo, estrategista da Potenza Capital, a participação do investidor institucional pode melhorar com a queda iminente da Selic, mas sem virada brusca.”Pode começar a tomar mais risco à medida em que os juros forem caindo, mas permanece receoso”, afirma.

A disputa eleitoral à Presidência da República, em outubro, também inspira cautela, diz Takeo. “A eleição deve inibir a tomada de risco por pessoa física. O consenso é de pessimismo com Brasil diante um cenário eleitoral binário. Acho que vai preferir algum sinal de quem vencerá para investir”, estima.

“Fizemos um estudo e só 12, 13 papéis estão concentrando quase 80% do ganho acumulado pelo Ibovespa”, observa Felipe Cima, analista da Manchester Investimentos. “É o rali mais triste da história”, acrescenta. “Você tem uma situação em que grande parte das pessoas físicas está na bolsa perdendo dinheiro – e muita gente que deveria estar, não está.”

Ele nota que o estrangeiro prefere ações de grandes empresas, com peso no índice e alta liquidez, como Vale, Petrobras, bancos como o Itaú e algumas do setor elétrico. “É menos o investidor fundamentalista, que busca uma tese, e mais um cara passivo que vem aqui comprar índice”, afirma.

“É menos o investidor fundamentalista, que busca uma tese, e mais um cara passivo que vem aqui comprar índice”, afirma Cima, observando que o investidor doméstico permanece um tanto à parte, inativo, na medida em que a própria explosão de preços em pouco tempo assusta, tornando o investimento em ações num momento de juros ainda altos menos “factível”.

Luis Ferreira, chief investment officer (CIO) do EFG Private Wealth Management, lembra que, em 2025, os estrangeiros responderam por 58,3% do volume negociado na B3, maior fatia desde 2014; os institucionais domésticos ficaram com 25,4% e as pessoas físicas, 12,4%.

Segundo ele, o investidor doméstico não ficou ausente, mas participou menos: manteve postura defensiva, priorizando renda fixa, enquanto o estrangeiro liderou compras no mercado à vista e, em parte, via derivativos, reforçando a pressão compradora no curto prazo.

“Para o institucional local, a Selic em nível ainda alto é um freio substancial para a tomada de risco”, diz André Buscácio, diretor de produtos da AF Invest. “Fundos de pensão, por exemplo, têm metas atuariais majoritariamente entre Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) +5,0% e IPCA + 6,0%, enquanto títulos públicos vêm apresentando retorno real de 10,0% no curto prazo, até 7,0% para títulos de maior maturidade”, acrescenta.

Veja também