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IPCA deve ficar perto da meta de 3% em março e servir de trunfo para reeleição

Comportamento benigno da inflação e da economia como um todo deve acontecer nos meses que antecedem eleição

12 de fevereiro de 2026

Por Gabriela Jucá, Francisco Carlos de Assis, Daniel Tozzi e Eduardo Laguna

A inflação acumulada pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) em 12 meses deve ficar abaixo de 4% a partir de fevereiro, e se aproximar do centro da meta perseguida pelo Banco Central, de 3%, já a partir de março, segundo economistas consultados pela Broadcast. O comportamento benigno não só da inflação, mas da economia como um todo, deve acontecer nos meses que antecedem a eleição presidencial de outubro e servir de trunfo para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que disputará a reeleição.

A deflação de alimentos e a apreciação cambial – essa última, que afeta tanto os alimentos como os bens industriais – devem responder por boa parte do alívio na inflação acumulada em 12 meses.

Caso o cenário de parte relevante do mercado se confirme, será a primeira vez que a inflação permanece consistentemente abaixo de 3,5% desde o início da atual série histórica do IBGE, que começa em 2021. Desde que a meta de inflação foi definida em 3%, a taxa em 12 meses nunca chegou a estar colada neste número, como deve acontecer em meados deste ano.

Para Bruno Serra, ex-diretor de política monetária do BC, a inflação corrente deve atingir 3,2% já em março, em meio ao início do ciclo de redução da taxa Selic. Nos cálculos de Serra, a inflação deve permanecer nesse nível, ou abaixo, até o fim de outubro, com aceleração prevista entre os meses de novembro e dezembro. “Mas essa alta também é questionável. Estamos mais confiantes de que a inflação vai ficar abaixo de 3,2% até outubro do que em relação a esse repique no fim do ano”, afirma.

Lula pode ter em mãos um nível baixo da inflação acumulada sobretudo em julho, de acordo com parte dos economistas. João Fernandes, da gestora Quantitas, por exemplo, considera que o IPCA deve rodar abaixo dos 3,5% de março a julho, com o ponto mais baixo justamente no sétimo mês do ano, quando ele espera que a inflação atinja 3,07%. O IPCA de julho deve ser divulgado no dia 11 de agosto, a cinco dias do início oficial da campanha eleitoral.

Segundo ele, esse “vale” deve ser atingido no período justamente por causa do impacto do bônus de Itaipu nas contas de energia elétrica. “Em 2025, esse bônus que derrubou as contas de energia entrou em agosto. Então, a janela de 12 meses em julho de 2026 vai contar com esses dois momentos de queda forte da inflação”, explica ele. “Em agosto, se tudo ocorrer dentro do esperado, a tarifa de energia volta a subir e o acumulado em 12 meses pula de 3,07% para 3,82%”, calcula.

Na visão do economista-chefe da Análise Econômica, André Galhardo, uma inflação abaixo de 4% por 10 meses seguidos significa um nível baixo para o padrão brasileiro. Ele também aposta em uma taxa menor em julho, a 3,25%. “Isso traz dúvidas sobre o real impacto do sobreaquecimento do mercado de trabalho”, observa. Além da ajuda da inflação de alimentos, o próprio mercado de trabalho, ainda que apresente sinais divergentes, já está em processo de acomodação, o que tende a contribuir para a desinflação, segundo Galhardo.

O cenário é corroborado também pelo BNP Paribas. A economista para Brasil do banco francês, Laiz Carvalho, prevê o ponto mais baixo da inflação em julho, praticamente colada nos 3%. Apesar de reconhecer que parte desse bom momento reflete um efeito puramente matemático, com a saída da conta do acumulado em 12 meses de leituras mais salgadas do IPCA do ano passado, ela concorda que é um número bastante positivo. “A inflação corrente ajuda na projeção para a inflação futura e o IPCA de 3% pode ajudar na ‘narrativa’ do governo, pensando em ano eleitoral”, sustenta.

Tanto o atual ministro da Fazenda, Fernando Haddad, que sai do cargo no fim do mês, quanto Lula, já vinham, por exemplo, exaltando que a atual administração conseguiu conciliar crescimento econômico e inflação baixa.

Pelo o que se observa nas pesquisas eleitorais, porém, os bons números da economia não têm sido suficientes para conquistar o eleitorado brasileiro. O cenário atual – inflação sob controle, atividade que cresce com uma taxa de juros de 15% ao ano e desemprego no menor nível histórico – implicaria, em tese, maior aprovação e menor rejeição para o presidente Lula. Contudo, segundo o analista político e sócio da Tendências Consultoria, Rafael Cortez, a economia perdeu o protagonismo de definir, só por ela, o resultado das eleições presidenciais.

“Eu diria que a economia representa um conjunto de variáveis que retrata a situação de bem-estar do eleitor. São condições necessárias, mas não mais suficientes porque a sociedade brasileira tem conflitos de outras naturezas que estão cristalizados e cada vez mais crescentes”, disse.

De acordo com Cortez, antigamente, quando se abria uma pesquisa eleitoral, ficava claro: as pautas de esquerda atraíam mais o apoio do eleitor de baixa renda e com menos escolaridade, enquanto a direita se saía melhor entre os mais escolarizados e com maior renda. Hoje, porém, a situação é outra: a inflação baixa e os programas sociais, por exemplo, passaram a ser percebidos como programas de Estado e não mais de governo.

Segundo o analista político da Tendências, tanto as pessoas mais pobres quanto as mais ricas estão mais preocupadas com pautas pertinentes à segurança, por exemplo, do que com a economia. “Estão mais preocupadas com o combate à corrupção do que com uma inflação que escape ao controle ou um ajuste fiscal”, alerta.

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