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Ibovespa sobe 25% em dólar, mas risco geopolítico deve pesar no curto prazo

Apetite por diversificação do investidor estrangeiro em um momento de cautela e incerteza global maior pode ser reduzido

3 de março de 2026

Por Luís Eduardo Leal e Aline Bronzati, correspondente em Nova York

Com o Ibovespa chegando ao fim de fevereiro com apreciação de 25,26% em dólar no ano, e acumulando ganho nominal de 17,17% no primeiro bimestre – no que foi seu melhor desempenho para o período desde 1999 -, volta a ganhar corpo o debate sobre a extensão e o grau do rali ainda em curso, considerando também que a B3 é uma dentre diversas opções em mercados emergentes, sejam latino-americanos ou asiáticos.

Apesar da inclinação e rapidez da escalada, instituições globais que acompanham emergentes ainda consideram que há espaço para mais – mesmo que em algum momento, para além da rotação global de ativos, o avanço se torne mais seletivo. Um fator considerado fundamental para que o apetite pelos emergentes se mantenha firme, contudo, é o de que a tendência global de enfraquecimento do dólar não sofra uma reversão acentuada.

Outro aspecto fundamental, com desdobramento importante no fim de semana, é a retomada de percepção de risco geopolítico, com a efetivação de ataque conjunto de EUA e Israel ao Irã, e que pode reduzir o apetite por diversificação em um momento de cautela e incerteza global maior. A proximidade do Irã ao Estreito de Ormuz, por onde passam de 20% a 30% do fluxo mundial de petróleo, é um fator de preocupação, com efeito sobre os contratos futuros da commodity, que chegaram a subir 12% na retomada dos negócios após os ataques do fim de semana.

Há expectativa, também, para o comportamento dos investidores com relação a ativos de proteção, cuja demanda costuma aumentar em períodos de incerteza global, como o dólar, os títulos públicos americanos (Treasuries) e o ouro.

“O enfraquecimento do dólar tem sido um impulsionador fundamental dos ativos de mercados emergentes, contribuindo para melhorar as condições financeiras, estimular os preços das commodities e os fluxos de capital em direção aos emergentes”, ressalta a Oxford Economics. “O cenário mais negativo para os emergentes seria uma reversão, de baixa, para a economia global que conduzisse a uma busca por proteção no dólar”, acrescenta a consultoria, em relatório anterior ao ataque deste fim de semana.

Para a Bolsa, em relatório recente, o Bank of America (BofA) destacava oportunidades, no Brasil, em setores menos acompanhados pelo investidor estrangeiro, mais atento às ações de campeãs das commodities, como Vale e Petrobras, assim como dos grandes bancos brasileiros, que oferecem liquidez essencial à montagem – e eventual desmontagem – de posições. No relatório, o BofA destaca que as ações de menor capitalização de mercado, as chamadas small caps, têm sido negociadas a um desvio-padrão abaixo da média dos últimos três anos, a despeito do recente, e sólido, rali do Ibovespa.

“O rali do Ibovespa tem sido conduzido, em grande medida, por nomes pesos-pesados dentro dos segmentos de commodities, financeiro e de utilities”, observa o BofA, acrescentando que esse conjunto de setores responde por cerca de 75% do índice da B3. Em contraponto, o banco americano destaca que as small caps ficaram para trás no rali e continuam a ser negociadas com desconto. “O índice de small caps tem apresentado performance abaixo do Ibovespa desde o início de 2025”, diz o BofA.

Apesar da escalada do Ibovespa desde 14 de janeiro, quando iniciou uma série de 13 renovações de recordes de fechamento até aqui em 2026, os investidores com foco em América Latina permaneciam positivos com relação a Brasil e Argentina, aponta o Bank of America, citando que 74% dos participantes de seu levantamento consideram que o índice da B3 encerrará o ano acima de 190 mil pontos. “A pesquisa mostra mais propensão a risco, menores níveis de recursos deixados em caixa e uma preferência por qualidade e commodities.”

Dez maiores

Também em recente estudo, o Citi aponta que, considerando o conjunto das dez maiores empresas que integram o Ibovespa, a razão preço-lucro, uma das principais métricas quanto ao nível de precificação de ações, está 0,27 desvio-padrão acima da média, enquanto as 10 menores dentre as componentes do índice da B3 estariam 0,26 desvio-padrão abaixo da média.

O Citi acrescenta que o atual delta de 0,53 desvio-padrão entre os dois grupos se compara ao de 0,27 desvio-padrão que separava ambos há apenas três meses, o que confirma a percepção de que o recente desempenho do Ibovespa se concentrou nas gigantes do índice. Ainda assim, o Citi acrescenta que não considera que as ações de menor capitalização de mercado na B3 conseguirão, no curto prazo, ter um desempenho superior ao do Ibovespa, na medida em que o fluxo estrangeiro tende a continuar mostrando preferência pelos maiores nomes.

“Consideramos que o fluxo para mercados emergentes, e para o Brasil em particular, continuará, com os responsáveis pelos maiores fundos globais dando prosseguimento à diversificação para além dos ativos americanos”, observa o banco, destacando também que o enfraquecimento do dólar reforça os retornos em reais e que com o aumento das cotas no principal fundo ETF de ativos brasileiros em Nova York, o EWZ segue em máxima histórica, praticamente dobrando de abril de 2025, um mês que coincide com a deflagração do tarifaço global pela Casa Branca, para cá.

Fundamentos melhores

Em relatório, a Oxford Economics diz estar overweight (alocação acima da média) em ações de mercados emergentes, com a avaliação de que estão se beneficiando não apenas do fluxo comprador deflagrado pela rotação global de ativos, mas também por uma melhora dos fundamentos. “A temporada de balanços se iniciou de forma sólida, com uma alta proporção de empresas informando lucro por ação acima do esperado, e com analistas elevando suas expectativas para o ano”, aponta a Oxford em relatório assinado pelo diretor de estratégia para ações, Daniel Grosvenor.

Ele aponta também que, além da elevação dos preços dos metais, a recuperação em base ampla da indústria de transformação, manufatureira, tende a estimular setores mais cíclicos no âmbito dos mercados emergentes. Tal movimento, na avaliação da consultoria, deve contribuir para sustentar o ciclo de elevação das projeções para lucro por ação das empresas.

Na América Latina, a Oxford elevou a recomendação do Peru, para overweight, na medida em que o país tem se beneficiado de preços estruturalmente mais altos para metais como ouro e cobre e que, a despeito do recente rali, ainda permanece barato em relação a outros emergentes.

Na Ásia, a consultoria chama atenção para setores cíclicos não associados à tecnologia, que tendem a ser beneficiados por uma recuperação global da indústria de transformação em base mais ampla. Nesse contexto, a Oxford permanece overweight para a Coreia do Sul, um mercado considerado diversificado, com opções tanto associadas à tecnologia e IA como à indústria manufatureira tradicional.

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