Selecione abaixo qual plataforma deseja acessar.

Estímulo de R$ 114 bi deve puxar metade da alta do PIB nas eleições

Outra alavanca do crescimento deve ser obras conduzidas por governos estaduais, que estão com caixa cheio

2 de janeiro de 2026

Por Eduardo Laguna e Daniel Tozzi

Em reação ao freio dos juros altos na atividade, o governo lançou medidas de estímulo que, junto com os investimentos dos Estados, devem injetar R$ 114 bilhões em recursos novos na economia em 2026. O valor assegura pelo menos metade do crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) previsto por economistas, impedindo que o crédito caro provoque uma desaceleração maior do crescimento num ano de eleições.

O mercado trabalha com a tendência de que os gastos do governo, as políticas de transferência de renda e o apoio ao crédito darão um novo impulso à demanda, após o impulso fiscal mostrar moderação em 2025. Outra parte considerável do crescimento deve vir das obras conduzidas por governos estaduais, que estão com caixa cheio e passaram a gastar menos com juros após renegociações de suas dívidas com a União.

A expectativa é que os estímulos promovidos pelo governo federal e pelas administrações subnacionais – ou seja, governos estaduais e prefeituras – gerem, na média, um impulso equivalente a 0,9% do Produto Interno Bruto (PIB). A média é obtida a partir de estimativas incorporadas nos cenários de seis instituições consultadas pela Broadcast: XP Investimentos, Bradesco, BTG Pactual, Santander, Itaú Unibanco e Monte Bravo (veja abaixo a previsão de cada uma). Considerando os prognósticos dessas casas de crescimento de 1,7% do PIB em 2026, isso corresponde a R$ 114,3 bilhões injetados na economia.

Do lado do governo federal, a maior contribuição – entre 0,2% e 0,3% do PIB – deve vir da isenção do imposto de renda a salários de até R$ 5 mil. Já o crédito consignado a trabalhadores do setor privado tem impacto no PIB estimado em 0,2%, ao passo que as projeções do impulso vindo dos governos regionais variam de 0,2% a 0,6% do PIB.

Estímulos do governo

O maior fluxo de estímulos no atual governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva se deu nos dois primeiros anos do mandato, quando a ampliação dos programas sociais, a volta dos reajustes do salário mínimo acima da inflação e o pagamento de precatórios atrasados fizeram o PIB crescer mais do que o esperado. A partir do arcabouço fiscal, que estabeleceu limites a gastos e metas de redução do déficit primário, o governo passou a recorrer mais a recursos de fundos, não sujeitos à regra das contas públicas, e a compensações – via tributação de aplicações financeiras, taxação da alta renda e, mais recentemente, redução de benefícios tributários. Foi o caminho para colocar o dinheiro na mão de quem gasta.

Em 2025, o atraso na aprovação do orçamento, sancionado apenas em abril, contribuiu para o impulso fiscal ficar mais próximo da neutralidade – economistas estimam em algo entre -0,4% a 0,3% do PIB. Porém, a execução das despesas voltou a ganhar ritmo no segundo semestre, com novos pagamentos de precatórios e distribuição de emendas parlamentares.

Para 2026, a ampliação do Minha Casa, Minha Vida, o crédito para reformas de casas, os descontos na conta de energia dentro do programa Luz para Todos, a gratuidade no botijão de gás a famílias em situação de vulnerabilidade (Gás do Povo) e a liberação de parte do compulsório da poupança para ampliar os recursos disponíveis ao crédito imobiliário também fazem parte do rol de medidas pró-crescimento.

Nas estimativas do BTG Pactual, cujo departamento de análises econômicas é comandado pelo ex-secretário do Tesouro Mansueto Almeida, a nova tabela do Imposto de Renda, reduzindo também a alíquota paga por quem ganha entre R$ 5 mil e R$ 7 mil, deve representar uma transferência de cerca de R$ 30 bilhões por ano a famílias beneficiadas. Outros R$ 24 bilhões em novos recursos na economia devem ser injetados pelo consignado privado, embora o BTG pondere que esta conta pode ser revista para baixo.

O novo modelo de crédito imobiliário, acrescenta o BTG, deve injetar R$ 37 bilhões entre outubro de 2025 e o fim do ano seguinte, com a maior parte do montante concentrada em 2026. Já o programa de crédito para reforma de residências deve injetar R$ 14 bilhões no próximo ano, já considerando uma taxa elevada de inadimplência, ao passo que a nova faixa do Minha Casa, Minha Vida, prevê a equipe do BTG, deve gerar um impulso adicional de R$ 8 bilhões.

Para o economista-chefe da Monte Bravo, Luciano Costa, que trabalha com estimativas mais conservadoras, o impacto das políticas de impulso à atividade deve contribuir com um quarto do crescimento de 2% projetado para o PIB de 2026. Ele pondera que, por se tratar de uma medida inédita, há pouco lastro para se calcular com precisão o quanto da nova renda disponível se converterá, de fato, em consumo e, consequentemente, estímulo ao PIB. “Depende bastante do comportamento de quem irá receber essa isenção (do imposto de renda) em relação a poupar, pagar dívidas ou consumir na margem”, avalia.

A projeção de PIB de 2026 da Monte Bravo leva em conta ainda um impulso, já mapeado, vindo da aceleração do calendário de obras de estados e municípios em meio ao período eleitoral.

Veja também