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‘Comércio global segue resiliente, apesar do tarifaço de Trump’

CEO da Coface, Xavier Durand, afirma que os negócios odeiam incerteza, mas comércio é como água e sempre encontra um caminho

27 de fevereiro de 2026

Por André Marinho

A nova tarifa global imposta pelo presidente dos EUA, Donald Trump, alimenta incertezas econômicas, mas o comércio mundial segue resiliente enquanto se adapta ao novo regime tarifário, afirmou o CEO da Coface, Xavier Durand, em entrevista à Broadcast. “As tarifas impactam praticamente tudo, porque as cadeias globais produtivas são muito interconectadas”, disse o executivo francês, durante uma visita a São Paulo nesta semana. “Ainda é preciso ver onde a poeira vai baixar, porque há muita movimentação e as mudanças estão acontecendo quase dia a dia”, acrescentou.

Presente em 58 países, a Coface é uma seguradora de crédito que oferece proteção contra inadimplência, mas tem diversificado o negócio com investimentos na divisão de inteligência de dados. O segmento representa cerca de 5% da receita total da empresa, mas tem sido a área que mais cresce na companhia, de acordo com Durand. Veja os principais trechos da entrevista:

Broadcast: Após a Suprema Corte dos EUA derrubar as tarifas globais dos EUA, Trump anunciou nova sobretaxa de 10% e, em seguida, a elevou para 15%. Qual é o impacto dessa incerteza tarifária para as empresas pelo mundo?

Xavier Durand:
A Coface administra 730 bilhões de euros em risco distribuídos entre 5 milhões de empresas em 200 países e cobre praticamente todos os setores da economia. Estamos envolvidos em tudo o que acontece ao redor do mundo. Nossos economistas dividiram a economia global em 500 segmentos diferentes e acompanham o que vai acontecer em cada um deles com base nas notícias e nos eventos. As notícias do dia têm mudado o tempo todo, então não dá para fazer um comentário geral neste momento. A Coface tem 40% da operação ligada a exportações e 60% ao mercado doméstico. Ou seja, tarifas, em geral, afetam diretamente 40% do nosso negócio, mas, de forma indireta, acabam impactando praticamente tudo, porque as cadeias produtivas são muito interconectadas. O que dá para dizer é que o cenário tem mudado bastante. Ainda é preciso ver onde a poeira vai baixar, porque há muita movimentação e as mudanças estão acontecendo quase dia a dia.

Broadcast: Mas o que é pior nesse caso: as tarifas em si ou essa incerteza?

Durand:
Os negócios odeiam incerteza. Quando você olha alguns anos para trás e vê que, por exemplo, as tarifas nos Estados Unidos saíram de algo entre 1% e 2% para, no papel, 17% – e, na prática, perto de 10% – isso é uma mudança enorme. Ainda assim, o comércio continua acontecendo. O comércio é como a água: ele sempre encontra um caminho. O que temos observado é que o comércio vem migrando, aos poucos, de grandes fluxos entre blocos para mais trocas dentro dos próprios blocos, com um pouco menos de comércio entre eles. As cadeias se reorganizam lentamente, mas de forma consistente. Então, é um movimento gradual de reorganização, não um ?big bang?. O comércio é valioso demais – ele gera muita riqueza – para simplesmente parar de uma hora para outra.

Broadcast: A globalização está ameaçada?

Durand:
Eu não acredito nisso. Ela vem sendo desafiada, sem dúvida. A globalização criou uma enorme quantidade de riqueza e tirou cerca de um bilhão de pessoas da pobreza nas últimas décadas. Apesar de todos os desafios enfrentados pelo comércio internacional, como eu disse, ele tem se mostrado incrivelmente resiliente e gera muito valor. Por isso, tende a continuar encontrando caminhos. Estamos vendo o surgimento de países mais conectados, novos acordos comerciais e a abertura de novos corredores de comércio. Não acredito que seja o fim da globalização.

Broadcast: A escalada tarifária representa algum risco para a projeção da Coface de aumento de 2,8% nas insolvências globais este ano?

Durand:
Acho que essa projeção já incorpora algum nível de tarifas, provavelmente anterior aos eventos mais recentes. Como comentamos, as novas tarifas não são mais altas para a Europa do que eram antes; para alguns países, inclusive, são menores – e ninguém sabe o que amanhã vai trazer.

Broadcast: Falando sobre o negócio da Coface, por que a penetração do seguro de crédito ainda é baixa no Brasil?

Durand:
Antes de tudo, esse produto foi criado na Europa e acabou sendo incorporado à forma como as empresas europeias se financiam. Ele chegou mais tarde a esta parte do mundo, ao Brasil em particular. O que se observa aqui é o mesmo padrão visto em outros mercados: grandes empresas são mais sofisticadas e tendem a recorrer mais ao seguro, enquanto as PMEs muitas vezes nem conhecem o produto. Essa é uma tendência global, inclusive na Europa, mas, no Brasil, trata-se de um produto mais recente e ainda pouco conhecido. Nós iniciamos nossa operação no Brasil há 30 anos. Acabamos de completar 100 anos na Alemanha, 80 anos na França. Em outros mercados, a presença é ainda mais recente e, portanto, nossa atuação é menor. Acho que é basicamente uma questão de tempo e de intensidade de atuação. As grandes empresas já conhecem o produto; com as pequenas e médias, o trabalho de difusão ainda precisa ser feito.

Broadcast: Qual a importância do Brasil para os negócios da Coface?

Durand:
O crescimento hoje acontece em praticamente todas as regiões, menos na Europa. Por isso, estar presente aqui é muito importante. Em alguns setores, o Brasil é claramente um player relevante no cenário global – como em commodities agrícolas. Para nós, portanto, estar no Brasil não é uma opção; é absolutamente estratégico.

Broadcast: Mas há fatores no Brasil que dificultem o crescimento do seguro de crédito?

Durand:
: Existem fatores da própria economia brasileira que podem limitar o ritmo de crescimento esperado tanto da empresa quanto do mercado de seguros. Há setores em que o país é líder global e outros em que tem menor protagonismo. Para nós, a operação é facilitada principalmente por três fatores: disponibilidade de dados; sistemas jurídicos previsíveis no que diz respeito à cobrança e aos direitos sobre recebíveis; e, terceiro, o grau de maturidade e de volatilidade de cada mercado. Tradicionalmente, esta região do mundo convive com mais volatilidade – seja cambial, macroeconômica ou regulatória. Isso torna a operação mais difícil, mas também representa um bom desafio: se conseguimos operar bem aqui, acabamos agregando valor e desenvolvendo competências que podem ser replicadas em outros mercados.

Broadcast: Desde que você assumiu o comando da Coface, há 10 anos, a companhia evoluiu de uma modelo puro de seguradora de crédito para uma empresa de dados. O que explica esse movimento?

Durand:
Nós temos cerca de 5 milhões de linhas de crédito ou garantias ativas para 5 milhões de empresas em 200 mercados. Para isso, contamos com economistas cobrindo o mundo inteiro e fornecendo orientação prospectiva de 18 meses para a área de subscrição de riscos (underwriting). Reunimos dados ?de baixo para cima?: coletamos balanços e monitoramos os resultados dessas empresas ao longo do tempo. Para dar uma ordem de grandeza, tomamos cerca de 15 mil decisões de crédito por dia, em 58 países diferentes. Nossa base de dados cresceu de forma significativa. Hoje, conseguimos identificar cerca de 215 milhões de empresas no mundo, extrair informações, rodar modelos de score, classificar riscos e tomar decisões sobre todas elas. É uma capacidade relevante, cuja eficácia é comprovada pelo fato de administrarmos cerca de 730 bilhões de euros em risco, com histórico de desempenho que valida a qualidade desses modelos. Agora, estamos disponibilizando esses dados para terceiros, seja para gestão de crédito, gestão de cadeias de suprimentos, melhoria de modelos de score ou até para fins comerciais, como prospecção de novos clientes. Isso abre um novo campo de atuação para a empresa.

Broadcast: essa divisão de dados representa quanto do negócio total da Coface em termos de receita?

Durand:
Ainda é pequeno – cerca de 5%. Mas é o segmento que mais cresce em nosso negócio. Ano passado, crescemos cerca de 19% nesse setor. Contratamos por volta de mil pessoas nos seis anos em que atuamos nessa frente.

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