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Argentina amplia mapa do petróleo e tem potencial de parceria com Brasil

Produção em janeiro foi de 860 mil boe/d, recorde que ajuda a sustentar projeções de 1,5 milhão boe/d no médio prazo

12 de março de 2026

Por Gabriela da Cunha

A Argentina vem deixando para trás a condição de gigante adormecido do setor de óleo e gás para uma posição de destaque no tabuleiro energético. Só em janeiro, a produção de petróleo foi de 860 mil barris equivalente por dia (boe/d), recorde que ajuda a sustentar as previsões da indústria de que o setor será capaz de ofertar aproximadamente 1,5 milhão de boe/d no médio prazo.

O capital de risco estrangeiro tem demonstrado interesse na produção, que também coloca o país como parceiro cada vez mais estratégico do Brasil. No entanto, a consolidação das sinergias entre as reservas argentinas e a demanda brasileira ainda enfrenta gargalos.

O ambiente macroeconômico favorável, o arcabouço regulatório mais administrável do que no passado e o potencial das reservas embasam o otimismo e a tomada de decisão das empresas, resume Rivaldo Moreira Neto, sócio-diretor da A&M Infra.

“Há uma combinação de fatores que não se via há quase 30 anos. A Argentina está crescendo intensamente na produção e, realmente, está posicionada para ocupar o espaço da Bolívia como player de suprimento regional de gás.”

Vaca Muerta

Em 2025, petróleo e gás representaram cerca de 12% das exportações argentinas. O BTG estima que, se as exportações em 2026 forem de 350 mil a 400 mil barris por dia, em média, um aumento de US$ 10 nos preços em decorrência do conflito no Oriente Médio poderia gerar fluxos de exportação adicionais de US$ 1,2 a 1,5 bilhão (cerca de 0,1% a 0,2% do PIB) por ano.

O motor do crescimento da produção no país é a formação de Vaca Muerta, por meio da qual a Argentina tem inundado o mercado global da commodity com seu petróleo de xisto (shale oil).

A possibilidade de expansão do setor, a partir de ganhos contínuos de produtividade e da construção gradual da infraestrutura de midstream, desperta a atenção de investidores estrangeiros, segundo o BTG. Em roadshows nos Estados Unidos e no Reino Unido, as perguntas dos investidores ao banco se concentraram nas reservas da bacia. Na busca por veículos de exposição direta ao setor, o BTG afirma que há preferência pela Vista Energy em relação à YPF e à Pampa Energía, refletindo, em grande parte, a exposição exclusiva da Vista à Vaca Muerta e seu perfil de crescimento mais focado.

Para o Brasil, a produção oriunda de Vaca Muerta, que envolve o método de fraturamento hidráulico e suscita críticas ambientais, é relevante em, ao menos, duas frentes: para a indústria de fertilizantes (ureia) e para as termelétricas de partida rápida, pontua o professor do curso de Engenharia de Energia da Universidade Federal da Integração Latino-Americana (Unila), Walber Braga.

Moreira Neto acrescenta que o shale oil demanda soluções logísticas diferentes e não compete com a proposta do Brasil e que no caso do gás, há múltiplos cavalos nessa corrida. “Existem oportunidades que podem ser exploradas pelo portfólio da Petrobras e pelo Brasil neste momento de abertura do mercado de gás”, diz.

O escoamento de gás natural liquefeito (GNL) argentino para o mercado global tem gerado uma acelerada onda de anúncios de investimentos privados, observa o analista de geopolítica para a América Latina na plataforma de inteligência de risco Rane, Mário Braga.

“De novembro para cá, houve anúncios de investidores do Oriente Médio e da obtenção de financiamento para a continuidade da construção de gasodutos, viabilizando a exportação de gás argentino. Existe essa tendência clara de interesse por lá”.

No dia 4 de março, o consórcio Southern Energy, formado por Pan American Energy (PAE), YPF (Yacimientos Petrolíferos Fiscales), Pampa Energía, Harbour Energy e Golar LNG, assinou o maior contrato de exportação de GNL do país em termos de volume.

“O desenvolvimento do gás na Argentina abre mais uma oportunidade para fortalecer a integração energética da região. Recursos como os de Vaca Muerta e projetos de exportação como os que estamos promovendo posicionam o país como um grande exportador para o mundo”, diz o diretor-geral da PAE no Brasil, Alejandro Catalano.

Pelo retrovisor

Embora a estatização da YPF, promovida pelo governo de Cristina Kirchner, esteja no espelho retrovisor e o próximo ciclo eleitoral tenha grande relevância, o sócio da A&M Infra vê espaço para o país continuar avançando nos mercados interno e externo.

“As características climáticas forçaram a Argentina a buscar uma maior integração com o gás, o que hoje resulta em um mercado muito mais sofisticado que o nosso. Mantida essa trajetória de investimentos, nos próximos dez anos certamente teremos um país que buscará, cada vez mais, seu papel de exportador”.

Para Braga, da Unila, uma eventual mudança de governo no Brasil aumentaria a chance de destravar projetos importantes para repor a oferta de gás oriundo da Bolívia, ao alinhar as agendas de Brasília e Buenos Aires. Um exemplo é o memorando Brasil-Argentina, assinado no G-20, que prevê a possibilidade de importação para o Brasil de 2 milhões de metros cúbicos por dia no curto prazo, aumentando nos próximos três anos para 10 milhões, até atingir 30 milhões em 2030, usando a infraestrutura boliviana mediante pedágio.

“Nessa negociação há o velho calcanhar de Aquiles que são as cláusulas de interrupção em eventuais picos de frio na Argentina”, comenta. “Mas o Brasil precisa agir para garantir a execução do programa Gás para Empregar, que vincula molécula barata à segurança alimentar e à reindustrialização, e construir uma visão de longo prazo”, finaliza

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