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Trump triplica ataques a Powell por juro baixo no 1º ano do novo mandato

Entre insultos como palhaço e burro, presidente dos Estados Unidos mantém chefe do Federal Reserve (Fed) na mira

20 de janeiro de 2026

Por Aline Bronzati, correspondente

Idiota, incompetente, atrasado demais, palhaço, burro. Esses foram alguns dos insultos que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, dirigiu ao presidente do Federal Reserve (Fed) a cada dois ou três dias durante o primeiro ano de seu segundo mandato. Foram mais de 150 ataques desde que o republicano foi empossado, em 20 de janeiro de 2025. Trata-se do triplo do número de insultos disparados contra o chefe do BC americano em todo o primeiro governo de Trump, de 2017 a 2021, mostra levantamento realizado pela Broadcast com auxílio de inteligência artificial.

Estima-se que o republicano tenha criticado Powell publicamente entre 50 e 60 vezes durante os quatro anos do primeiro mandato. Foi o próprio Trump que o nomeou presidente do Fed, em novembro de 2017. À época, Powell era visto como aliado do presidente. A relação, porém, se deteriorou rapidamente, e o republicano passou a atacá-lo ainda no primeiro mandato. Reconduzido ao cargo pelo ex-presidente Joe Biden, em 2021, Powell deve concluir sua gestão em maio deste ano.

Tanto no primeiro quanto no segundo mandato, as críticas de Trump ao presidente do Fed foram motivadas pela mesma razão: o nível dos juros americanos. Depois de três cortes consecutivos, as taxas estão entre 3,50% e 3,75% ao ano. No segundo mandato, o aumento da frequência de ataques de Trump a Powell esteve diretamente relacionado ao calendário econômico dos EUA, em especial à divulgação de indicadores, como emprego e inflação, que influenciam as expectativas de Wall Street para os juros no país.

Dos discursos na Casa Branca aos pronunciamentos a bordo do avião presidencial, o canal mais usado pelo chefe da Casa Branca para agredir o chefe da autoridade monetária foi a Truth Social. No primeiro ano de seu segundo mandato, o republicano fez de 90 a 100 postagens contra Powell. E o volume de ataques cresceu nas semanas que antecederam as reuniões do Comitê Federal de Mercado Aberto (Fomc). Neste período, Trump publicou de três a cinco postagens por semana criticando Powell, segundo levantamento da Broadcast.

Em quase todos os discursos nos quais o tema central foi economia e inflação, Trump criticou Powell. Um dos momentos mais emblemáticos foi quando o presidente dos EUA visitou pessoalmente as obras da sede do Fed, em Washington, em julho de 2025. Ao lado de Powell, o chefe da Casa Branca reclamou do aumento dos custos da reforma, que teriam subido de US$ 2,5 bilhões para US$ 3,1 bilhões, e cobrou novamente que o presidente do BC americano baixasse os juros. Na ocasião, Powell contestou a afirmação de Trump, respondendo: “Não ouvi isso de ninguém do Fed”.

As obras do Fed também estão na origem da recente escalada de Washington contra Powell. Em uma aparição extraordinária, o presidente do Fed divulgou um vídeo, na noite de domingo, 11, para anunciar que o Departamento de Justiça dos Estados Unidos (DoJ) abriu uma investigação criminal sobre seu depoimento ao Congresso, no ano passado, a respeito da reforma da sede do BC americano. Isso não ocorreu no primeiro mandato: se antes a independência do Fed foi testada apenas de forma verbal, agora vive uma crise institucional.

A investigação criminal por parte do DoJ ampliou os temores de Wall Street sobre o risco de interferência política no Fed durante a gestão Trump, especialmente após o fim do mandato de Powell, em maio próximo. O Citi admitiu que ficou “apreensivo” com os recentes desdobramentos envolvendo o Fed. A denúncia também provocou reação de autoridades monetárias ao redor do mundo: banqueiros centrais, incluindo o brasileiro Gabriel Galípolo, assinaram um manifesto conjunto em defesa da independência dos BCs.

O Fundo Monetário Internacional (FMI) reforçou o alerta ao atualizar suas projeções no relatório Perspectiva Econômica Mundial (WEO, na sigla em inglês), divulgado nesta segunda-feira. “A interferência política em instituições econômicas independentes pode aumentar o risco de erros políticos, erodindo a confiança pública”, disse o organismo, no documento.

Trump continuou atacando Powell, mas se distanciou da investigação criminal. Porta-vozes da Casa Branca negaram que o republicano tenha instruído funcionários do DoJ a conduzi-la. Além de pressionar o presidente do Fed e indicar seu principal assessor econômico, Stephen Miran, para uma cadeira no BC, Trump iniciou uma ofensiva para demitir a diretora Lisa Cook, acusada de fraude hipotecária. Uma audiência está marcada para a próxima quarta-feira, 21, e Powell deve comparecer, segundo uma fonte ouvida pela Associated Press.

Para a presidente do Fed da Filadélfia, Anna Paulson, Powell se tornou uma espécie de “herói popular improvável” à medida que virou tema de memes na internet celebrando sua gestão à frente da autoridade monetária. Ela sabe disso porque seu filho de 20 anos lhe envia as montagens que circulam pela internet, conforme relatou ao The Wall Street Journal.

Mas a economista americana Claudia Sahm, referência quando o assunto é Fed, alerta que Powell não é suficiente para salvar o BC americano. “Powell está prestes a deixar o cargo de presidente em alguns meses, e não há sinal de que o presidente (Trump) aliviará a pressão sobre o Fed”, disse ela, que classificou o ataque a Powell bem como sua reação como históricos.

A investigação do DoJ ocorre em meio aos ritos finais da escolha do substituto de Powell na presidência do Fed. O secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, disse que Trump deve tomar sua decisão sobre o candidato nesta semana. Por sua vez, o republicano sinalizou que pode não abrir mão de ter Kevin Hassett como diretor do Conselho Econômico Nacional da Casa Branca. Até então um dos nomes preferidos para suceder Powell, a fala de Trump fez disparar as apostas (63%) de que o ex-diretor Kevin Warsh pode ser sua escolha, conforme a plataforma Polymarket. Na sequência, aparecem Rick Rieder, da gestora BlackRock, e o diretor do Fed, Christopher Waller, empatados com 14%.

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