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Mercado vê Copom coeso e espera manutenção do nível de juro

Apesar do desfalque na diretoria, avaliação predominante é que não haverá impacto prático para a decisão da próxima semana

23 de janeiro de 2026

Por Daniel Tozzi e Anna Scabello

A próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) ocorre em um contexto atípico: o colegiado está temporariamente desfalcado, após as saídas de Diogo Guillen, ex-diretor de Política Econômica, e de Renato Dias de Brito Gomes, que comandava a Diretoria de Organização do Sistema Financeiro e Resolução. Até o momento, o governo federal ainda não anunciou os substitutos para as duas vagas.

Após o anúncio, os nomes precisam ser sabatinados pelo Senado e, só depois, passam a compor o comitê. Com as próximas indicações, todos os nove membros do Copom terão sido indicados pela administração do presidente Lula.

Apesar do desfalque pontual agora, a avaliação predominante entre economistas do mercado financeiro e ex-diretores do Banco Central (BC) ouvidos pela Broadcast é a de que não haverá qualquer impacto prático para a decisão de juros da próxima semana. A leitura é que o Copom segue plenamente capaz de deliberar mesmo com dois diretores a menos e que as sinalizações recentes do colegiado já deixaram bastante clara a unicidade de seus membros.

Pesquisa do Projeções Broadcast indica que a ampla maioria de instituições do mercado financeiro espera manutenção da taxa básica de juros (Selic) em 15% no encontro da semana que vem. A aposta majoritária de corte na taxa Selic ganhou força após os dados mais fortes da atividade no fim de 2025. Entre 37 instituições consultadas na quinta-feira, 22, 36 esperam que os cortes da Selic comecem depois de janeiro, sendo que 34 acreditam que será em março, enquanto duas instituições veem queda somente a partir de abril. Para apenas uma casa, porém, a flexibilização deverá começar em janeiro, no encontro da semana que vem do Copom.

“O ideal é que o board tenha os nove membros, mas eu não acho que seja um problema tão sério”, afirma o sócio e economista-chefe da Jubarte Capital, Luiz Fernando Figueiredo, que também foi diretor do Banco Central entre 1999 e 2003. “O BC está super unido com a mesma visão, as decisões têm sido unânimes. Não vejo o desfalque como uma grande questão”, reforça.

O ex-diretor de Política Econômica do BC Fábio Kanczuk, que hoje é diretor de macroeconomia do ASA, também avalia que haverá pouco impacto do Copom desfalcado na decisão sobre os juros. Em linha com a maior parte do mercado, o cenário-base do ASA é que a Selic seguirá em 15% na semana que vem, mas, segundo Kanczuk, não haveria qualquer problema em cortar os juros agora, mesmo com o colegiado incompleto.

“Seja no governo ou em qualquer empresa, não vejo motivo para ‘esperar’ por estar com o time incompleto. É uma decisão importante de ser tomada”, frisa. “Uma mudança no perfil do comitê também não atrapalha a decisão”, observa ele.

O sócio e fundador da Eytse Capital, Sergio Goldenstein, acrescenta ainda que o Banco Central tem um corpo técnico bastante capacitado, o que dá segurança para as decisões do comitê, independentemente dos desfalques. “O desfalque não é algo que afeta a decisão. Até porque o BC é uma instituição que age de forma técnica e o corpo técnico continua lá, fornecendo os insumos, O Copom não pode funcionar de maneira torta porque está desfalcado”, frisa.

Precedentes

Ainda que atípico, não será a primeira vez em anos recentes que o Copom toma uma decisão sobre o nível da taxa de juro sem o quadro completo de diretores na reunião. No início de 2022 tanto Diogo Guillen quanto Renato Dias já haviam sido indicados para ocupar cargos de diretoria no BC, mas só foram sabatinados em abril daquele ano. Com isso, o Copom ficou desfalcado nas duas primeiras reuniões de 2022, em fevereiro e março.

Ainda não há, por ora, qualquer sinalização por parte do governo federal sobre os novos indicados. Embora a avaliação no mercado seja a de que um Copom desfalcado exerce pouca influência sobre a próxima decisão de juros, o ideal, dizem os analistas, é que o impasse seja resolvido o quanto antes. “Claro que se isso não se resolve em bastante tempo, complica, é mais chato. Mas por ora não é algo muito relevante”, destaca Figueiredo.

Goldenstein vai na mesma linha. “Quanto antes esses diretores forem anunciados e sabatinados, melhor. O desfalque não pode perdurar por muito tempo, é ruim para a institucionalidade do BC”.

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