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Hapvida tem melhora operacional, mas judicialização e perda de beneficiários pressiona resultados

13 de maio de 2026

Por Wilian Miron

São Paulo, 12/05/2026 – A Hapvida apresentou resultados mistos no primeiro trimestre de 2026, avaliam analistas de alguns dos principais bancos de investimentos com atuação no País. Os dados apresentados pela empresa combinam melhora operacional, sustentada pela redução sequencial da sinistralidade e avanço do tíquete médio, com continuidade da pressão sobre lucro, judicialização e perda de beneficiários nos planos de saúde. Apesar do cenário ainda desafiador, analistas avaliaram que os números vieram acima das expectativas do mercado, especialmente no Ebitda ajustado.

A receita líquida consolidada somou R$ 7,892 bilhões entre janeiro e março, alta de 5,2% na comparação anual, beneficiada principalmente pelos reajustes de preços dos planos de saúde e pelo crescimento da operação odontológica. O tíquete médio dos planos médicos avançou 7,3% em um ano, para R$ 305, enquanto a base de beneficiários de saúde recuou em cerca de 45 mil vidas no trimestre, concentrada sobretudo na região Sudeste, em meio ao ambiente competitivo mais intenso. Em odontologia, a companhia adicionou cerca de 60 mil beneficiários, encerrando março com aproximadamente 8,7 milhões de usuários em saúde e 7,2 milhões no segmento odontológico.

A sinistralidade caixa ficou em 72,2% no trimestre, queda de 3,3 pontos porcentuais em relação ao quarto trimestre de 2025, refletindo sazonalidade mais favorável no início do ano e normalização do carregamento de contas médicas que haviam pressionado os resultados no fim do ano passado. Na comparação anual, porém, o indicador ainda subiu 0,4 ponto porcentual.

Segundo o vice-presidente financeiro, Lucas Garrido, o trimestre teve “duas metades”: janeiro e fevereiro apresentaram frequência de utilização abaixo da média histórica, enquanto março registrou aceleração acima do padrão sazonal, impulsionada também pelo aumento de doenças infecciosas e retomada de procedimentos eletivos.

O Ebitda ajustado totalizou R$ 803 milhões no trimestre, queda anual de 20%, mas acima das projeções de bancos e corretoras. A margem Ebitda ajustada avançou cerca de 3 pontos porcentuais ante o trimestre anterior, movimento atribuído principalmente à melhora da sinistralidade. Já o lucro líquido ajustado somou R$ 244 milhões, recuo de 41,4% na comparação anual. No critério contábil, a companhia registrou prejuízo líquido de R$ 154,3 milhões, ante lucro de R$ 54,3 milhões um ano antes.

Analistas destacaram que o principal vetor positivo do trimestre foi o controle da inflação médica e dos custos assistenciais. O Bradesco BBI, em relatório assinado por Marcio Osako, Rafael Elage e Henrique Spavieri, classificou o resultado como positivo e ressaltou que o Ebitda veio 14% acima das estimativas do banco.

Por sua vez, o Citi, em análise de Leandro Bastos e Renan Prata, afirmou que o Ebitda ajustado ficou 21% acima do esperado, favorecido por uma sinistralidade médica menor do que a projetada. Para o banco americano, contudo, ainda permanecem dúvidas sobre a sustentabilidade dessa melhora, diante da aceleração da utilização observada em março e da continuidade de pressões em despesas operacionais, judicialização e geração de caixa.

A Ativa Investimentos, em relatório de Lucas Dias, avaliou que os resultados sugerem sinais preliminares de recuperação operacional, embora a trajetória ainda seja considerada incerta e distante de uma normalização mais consistente.

A alavancagem financeira também continuou pressionada. A dívida líquida encerrou março em R$ 5,165 bilhões, alta de 24% em relação ao mesmo período de 2025. A relação entre dívida líquida e Ebitda ficou em 1,38 vez, avanço de 0,41 vez na comparação anual.

Judicialização

A judicialização voltou a ser apontada como um dos principais desafios da companhia no trimestre. Segundo o diretor-presidente, Lucas Adib, as “ferramentas antigas” deixaram de ser suficientes para conter o avanço das ações judiciais, levando a empresa a revisar sua estratégia de atuação.

A companhia pretende ampliar o relacionamento com médicos da rede própria e credenciada para tentar reduzir litígios ainda na ponta assistencial, além de reforçar o uso de automação, análises quantitativas e novas teses jurídicas. No trimestre, a Hapvida registrou aumento de R$ 37 milhões em novos bloqueios líquidos judiciais, em meio ao crescimento do volume de liminares. As despesas com contingências e tributos representaram 3,6% da receita líquida do período.

Apesar das pressões, a percepção predominante entre os analistas foi de melhora operacional inicial. Tanto Ativa quanto Bradesco BBI mantêm recomendação neutra para os papéis da companhia. O preço-alvo da Ativa é de R$ 18,50, enquanto o Bradesco BBI estima R$ 14 por ação. Já o Citi reiterou recomendação neutra/alto risco, com preço-alvo de R$ 11.

Contato: wilian.miron@estadao.com

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