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Novos estímulos do governo Lula na economia em ano eleitoral já somam R$ 140 bi, diz levantamento

11 de maio de 2026

Por Alvaro Gribel, do Estadão

Brasília, 11/05/2026 – Em meio às críticas de integrantes do governo sobre o alto nível da taxa de juros no País, o governo Lula já anunciou R$ 140 bilhões em medidas que vão estimular o crescimento, mas também pressionar a demanda e, consequentemente, a inflação em ano eleitoral.

Segundo levantamento feito pelo banco BTG Pactual, dez propostas já estão em vigor ou em fase de implementação. Entre elas, estão a ampliação da isenção do Imposto de Renda (IR) até R$ 5 mil mensais e políticas de crédito para caminhoneiros e para o Minha Casa, Minha Vida, além de programas para isentar os custos da energia para famílias de baixa renda.

Ao contrário de governos anteriores, que focaram na ampliação das despesas primárias – com impacto direto nas contas públicas -, desta vez o governo Lula procurou acelerar as propostas “parafiscais”, ou seja, sem impacto direto no Orçamento. Segundo o economista Fábio Serrano, do BTG, o cálculo considera o “efeito líquido” das medidas sobre a economia.

“Os R$ 140 bilhões são o que a gente calcula a mais de estímulo, entre 2025 e 2026, sem que haja impacto primário sobre as contas públicas. No caso das medidas de crédito, por exemplo, nós deduzimos da conta o pagamento das dívidas e contabilizamos o que entendemos ser o adicional sobre a economia”, explicou.

Procurado, o Ministério da Fazenda afirmou, por meio de nota, que, desde o início do governo, 72 matérias de perfil econômico foram aprovadas pelo Congresso, sendo 40 com participação direta da pasta.

“O que mostra uma pasta operando em sintonia com as demandas de mudança da sociedade. Medidas como a isenção do Imposto de Renda até R$ 5 mil, o consignado do trabalhador privado, o Desenrola e a regulação das bets têm efeito direto sobre a vida das pessoas.”

O maior estímulo vem da isenção do Imposto de Renda até a faixa de R$ 5 mil, uma das principais bandeiras eleitorais do presidente Lula, e que entrou em vigor no início do ano. Pelas contas do BTG, haverá uma injeção de R$ 31 bilhões na economia, gasto que foi compensado pela tributação da renda de quem ganha mais de R$ 50 mil mensais.

Apesar disso, a proposta tem causado frustração na ala política do governo, já que as pesquisas de intenção de votos não têm capturado melhora na avaliação presidencial pelos efeitos da medida. Na semana passada, o ex-ministro da Fazenda Fernando Haddad, pré-candidato ao governo de São Paulo, fez uma publicação nas redes sociais exaltando a proposta.

“No quinto dia útil, muita gente percebeu algo a menos no holerite: a linha do Imposto de Renda. Quinze milhões de brasileiros que ganham até R$ 5 mil por mês não vão mais precisar pagar imposto de renda. E você, o que faria com esse dinheiro a mais?”, publicou Haddad.

Segundo Serrano, o BTG revisou de 1,7% para 1,9% a projeção de crescimento do PIB deste ano, mas também subiu a projeção de inflação, de 4,7% para 4,9%. A maior explicação para a piora da inflação está no impacto da guerra no Irã, mas as medidas de estímulo também contribuem para pressionar a inflação de serviços.

“Os dados de inflação têm sido revisados para cima, recorrentemente, a gente vê uma inflação de serviços bastante pressionada. Então, uma parte dessa história pode ser a guerra, mas há também uma concentração de estímulos na economia neste primeiro semestre. O PIB, depois de ter ficado estagnado no final de 2025, agora deve voltar a acelerar”, afirmou.

Como as medidas são “parafiscais”, o impacto sobre o primário deve ser limitado. Ainda assim, o último Boletim Macro Fiscal, com estimativas do mercado financeiro, projeta que o governo terá um déficit primário de R$ 50 bilhões este ano.

O resultado ficará abaixo da meta de R$ 34 bilhões estipulada pela Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) para este ano. Ainda assim, o governo irá cumprir a meta, porque poderá excluir despesas autorizadas em lei, como gastos com precatórios.

No final de abril, o governo anunciou a expansão do programa Move Brasil, com R$ 21,2 bilhões em crédito para a compra de caminhões, ônibus e outros veículos pesados.

“A nova etapa do programa – que antes só financiava a compra de caminhões – passa a incluir também o financiamento de ônibus, micro-ônibus e implementos rodoviários (como reboques e carrocerias, por exemplo), aumentando o seu público-alvo e o volume de recursos disponíveis”, disse o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio (Mdic) em nota.

Segundo a pasta, as linhas têm juros abaixo dos praticados pelo mercado e prazo de pagamento de até dez anos, o dobro do prazo da linha da primeira etapa do programa. O BNDES será o órgão que vai operacionalizar esses empréstimos.

Outras políticas de crédito são as alterações feitas nas regras do consignado privado, que podem injetar R$ 24 bilhões, o novo modelo de crédito imobiliário, com R$ 22,3 bilhões, além do Reforma Casa Brasil, R$ 12,9 bilhões, o Minha Casa, Minha Vida, faixas 3 e 4, outras R$ 6,5 bilhões.

A nova fase do programa Desenrola, mais a permissão de uso do FGTS para abater dívidas, pode injetar outros R$ 16,1 bilhões na economia.

Para o economista Luis Otávio Leal, da G5 Partners, do ponto de vista da inflação, o Desenrola é o programa que mais pode estimular o consumo e dificultar a vida do Banco Central em seguir com os cortes de juros.

“Difícil dizer que um programa para reduzir o ônus da dívida sobre o trabalhador é ruim, mas, do ponto de vista da política monetária, é”, afirmou.

“Estávamos vendo um descolamento entre o crescimento da renda e o aumento do consumo, e isso tinha a ver com o nível de endividamento da população. Portanto, se você reduz o impacto do serviço da dívida sobre a renda do consumidor, essa relação entre crescimento da renda e crescimento do consumo vai voltar a se intensificar”, explicou.

No setor de energia, o governo lançou dois programas voltados para diminuir o peso das contas para trabalhadores de baixa renda, o que deve ampliar a renda disponível para o consumo. O Luz do Povo dará gratuidade total na conta para famílias com baixo consumo e inscritas no CadÚnico, enquanto o Gás do Povo dará gratuidade na recarga do botijão de gás de cozinha para famílias com renda per capita de até um salário mínimo.

Por outro lado, calcula Serrano, haverá uma retração de R$ 12,5 bilhões em estímulos pelas mudanças que o governo fez nas regras do saque-aniversário.

“É o único efeito negativo, de uma lista de 11 medidas. É uma proposta do ano passado. O governo restringiu as regras que disciplinavam como as famílias poderiam usar o saque-aniversário do FGTS como colateral para pegar empréstimo”, explicou.

Nas próximas semanas, o governo Lula ainda deve anunciar uma ampliação do programa Desenrola, voltado para pessoas adimplentes, mas que estão endividadas, e também para trabalhadores informais.

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