12 de maio de 2026
Por Guilherme Caetano, do Estadão
Brasília, 12/05/2026 – Apesar de o relatório da Comissão Nacional da Verdade (CNV), publicado em 2014, mencionar 5 mil pessoas detidas no Brasil semanas após o golpe de 1964, o governo americano calculava 21 mil presos no mesmo período, em apenas cinco Estados.
E isso, para o pesquisador Felipe Loureiro, traz uma nova compreensão da repressão militar no período. Ele é autor do livro Olhares Ianques: a Ditadura Brasileira nos Arquivos Norte-Americanos, que a Companhia das Letras lança nesta terça-feira, 12.
A obra traz documentos inéditos produzidos por órgãos vinculados ao Departamento de Estado dos Estados Unidos durante a ditadura militar brasileira (1964-1985), que vêm a público agora por meio de anos de investigação via a Lei de Acesso à Informação americana e consulta em bibliotecas americanas.
“Se você comparar com outros momentos, certamente o governo Castelo Branco não foi o pior. Mas isso não significa que foi brando. Nas semanas depois do golpe, teve uma onda repressiva muito grande na sociedade brasileira. E o livro mostra que o próprio governo federal teve dificuldades em controlá-la. Havia muitos militares e governadores, estruturas de segurança estaduais atuando de maneira repressiva, sem que o governo federal tivesse controle sobre esse processo”, diz Loureiro, historiador e doutor em história econômica pela USP, onde leciona no Instituto de Relações Internacionais.
Estadão/Broadcast Político – Como começa sua investigação, e a partir de quê?
Felipe Loureiro – Começa em 2008, no início do meu doutorado. Meu orientador à época, o professor Renato Perim Colistete, me disse que seria fundamental olhar a documentação diplomática norte-americana, porque os Estados Unidos tinham, e ainda têm, uma estrutura informacional muito capilar sobre a sociedade brasileira. Fui para os Estados Unidos ainda no doutorado e me deparei com essa documentação. Essa capilaridade é impressionante. Eles conversam com todo mundo, de empresários a trabalhadores, de lideranças estudantis a jornalistas, líderes políticos, líderes partidários, autoridades governamentais de todos os níveis. Desde 2010, quando estive pela primeira vez no Arquivo Nacional Americano, eu comecei a recolher material sobre o golpe de 64, que me mostrasse os olhares dos norte-americanos sobre os processos que aconteciam aqui no Brasil.
Estadão/Broadcast Político – A história da influência americana no golpe militar de 1964 começou a ser contada em 1976, quando o jornalista Marcos Sá Corrêa revelou a Operação Brother Sam no Jornal do Brasil. No que os documentos que encontrou mais avançam na transparência desse período, e quanto ainda permanece inexplorado?
Loureiro – Até este livro, a gente ainda não tinha uma clareza de que o governo americano tinha uma quantidade tão grande de planos de contingência sobre o Brasil, caso determinados eventos políticos acontecessem. Um desses planos foi feito no fim de 1963 pela embaixada americana, sobre como a Casa Branca interviria militarmente no Brasil para garantir que um grupo favorável aos Estados Unidos fosse vitorioso numa eventual guerra civil. E há um debate muito grande na literatura sobre se os Estados Unidos estavam ou não preparados para desembarcar tropas no Brasil, porque a Operação Brother Sam foi basicamente uma força naval. Mas até que ponto eles estavam preparados para desembarcar tropas? A gente pode responder com segurança que o governo americano planejou o desembarque de dezenas de milhares de soldados em solo brasileiro em caso de necessidade de uma eventual guerra civil entre forças pró-Goulart e forças golpistas. Eu acho que esse é, talvez, do ponto de vista documental, um dos grandes achados que eu tive sobre o golpe de 64. Por outro lado, o que ainda não temos é acesso ao plano da Operação Brother Sam por completo, todos os detalhes do ponto de vista de forças navais, aéreas e terrestres que poderiam ser usadas.
Estadão/Broadcast Político – Seu livro traz uma atualização dos números da repressão. Enquanto o relatório da Comissão Nacional da Verdade, publicado em 2014, cita 5 mil pessoas detidas após o golpe, a Embaixada dos Estados Unidos estimou, já em maio de 1964, cerca de 21 mil presos em apenas cinco estados brasileiros. Além disso, há contagem de pelo menos o dobro de mortes. Apesar das limitações desses dados, eles trazem uma nova compreensão desse período?
Loureiro – Trazem, porque os primeiros anos da ditadura, o período Castelo Branco, não foram brandos como determinados setores da sociedade brasileira pensam. Se você comparar com outros momentos, certamente o governo Castelo Branco não foi o pior. Mas isso não significa que foi brando. Nas semanas depois do golpe, teve uma onda repressiva muito grande na sociedade brasileira. E o livro mostra que o próprio governo federal teve dificuldades em controlá-la. Havia muitos militares e governadores, estruturas de segurança estaduais atuando de maneira repressiva, sem que o governo federal tivesse controle sobre esse processo. A documentação americana mostra que a chamada Operação Limpeza, que era o nome que os militares deram para essa onda repressiva logo após o golpe, foi maior do que se imaginava.
Estadão/Broadcast Político – Os documentos revelam o “completo amadorismo” da investigação conduzida pelo futuro presidente João Figueiredo, que usou reportagens de jornais de oposição como “provas” de subversão e corrupção contra Juscelino Kubitschek. O que isso diz sobre o aparato de repressão na ditadura?
Loureiro – Essa uma contribuição significativa que o livro traz. Porque os relatos norte-americanos nos mostram um governo militar, mesmo na sua alta cúpula, profundamente tomado por narrativas conspiratórias com relação a lideranças políticas, mesmo as democráticas e moderadas, absolutamente distantes da esquerda radical. O exemplo mais emblemático disso é o do Juscelino Kubitschek. Ele se transformou numa espécie de símbolo do “mal” que seria o regime pré-64. Os militares colocam a questão da subversão muito aliada ao comunismo e à corrupção, como se fossem duas coisas unidas, e o JK como a expressão máxima disso. Apesar de Juscelino não ter sido cassado imediatamente, o processo movido contra ele foi arbitrário e amador.
Estadão/Broadcast Político – O livro mostra que os americanos tiveram acesso direto a sessões de tortura perpetradas pela ditadura brasileira, inclusive com um representante da Embaixada dos Estados Unidos atuando como intérprete durante a tortura de um cidadão suíço. O quanto houve de complacência e de indignação entre autoridades e servidores americanos em relação à violação de direitos humanos no Brasil?
Loureiro – Temos, no senso comum, a ideia de que os Estados Unidos, pelo fato de terem sido tão centrais para o golpe de 1964, apoiaram a ditadura totalmente ao longo de sua vigência. É complicado fazer essa afirmação. Houve muitas tentativas, por parte de diplomatas, de dar uma espécie de manto de legitimidade, para que o governo militar não fosse um regime ditatorial, para que mantivesse o mínimo de instituições democráticas funcionando e não violasse abertamente os direitos humanos básicos. Mas a gente percebe que os norte-americanos tinham plena consciência sobre o que estava acontecendo em relação às violações, torturas, mortes, desaparecimentos, prisões arbitrárias. Eu encontrei muito, especialmente de interlocutores em Washington, no Departamento de Estado, uma certa indignação com relação ao que estava acontecendo aqui. Indignação, às vezes, com a própria insensibilidade de determinados americanos no Brasil. Há o caso do embaixador William Rountree, que interpelou o ministro das Relações Exteriores do Brasil após a tortura de um fotógrafo brasileiro da Associated Press, dizendo que aquilo era inaceitável. De qualquer forma, o governo americano não teve a atitude de criticar publicamente a ditadura brasileira, principalmente no contexto do final dos anos 60 e início dos anos 70, que é o período mais crítico em termos de violações de direitos humanos.
Estadão/Broadcast Político – O livro detalha uma reunião secreta em 1971 onde o general Humberto de Sousa Melo, sob ordem do presidente Médici, pediu dinheiro a empresários para equipar o DOI-Codi paulista, incluindo uma sala para interrogar prisioneiros, mascarando as doações como um “fundo educacional” da Fiesp. O financiamento teve participação de muitos empresários americanos. O que levou a esse pedido de contribuição?
Loureiro – O regime queria estruturar um aparato repressivo, que é custoso, e precisavam fazer isso fora do orçamento oficial. Um dos documentos mostra que Médici, quanto era chefe do Serviço Nacional de Informações (SNI), disse ao coronel Vernon Walters (adido militar americano no Brasil) em 1967 que o seu orçamento era muito maior do que estava oficialmente no papel. Mas provavelmente não era suficiente para aparelhar esse aparato repressivo da forma como a ditadura queria. E aí eles pedem uma contribuição direta para os empresários, que já tinham contribuído para a chamada Operação Bandeirantes, a primeira grande estrutura repressiva integrada, antes do DOI-Codi. Essa reunião, contada no livro de forma inédita, tem um pedido do presidente do Brasil para empresas americanas financiarem o DOI-Codi. A gente ainda não tinha evidências documentais de que uma organização empresarial do tamanho da Fiesp estava articulando o financiamento do próprio aparato repressivo. É chocante que a maior organização empresarial do País à época, de uma relevância para o PIB muito maior do que é hoje, tenha sido a grande articuladora de todo esse processo de contribuição.
Estadão/Broadcast Político – O epílogo detalha uma conversa privada com Henry Kissinger (ex-secretário de Estado americano) em 1984, na qual Figueiredo previu uma guerra civil e confessou que estava na ala das Forças Armadas que estava disposta a aceitar o resultado das eleições contanto que isso não significasse entregar o País aos esquerdistas. O que ainda mantinha essa ala das Forças Armadas paranoica e radicalizada em relação aos opositores?
Loureiro – Quando o processo de abertura vai se desenrolando, as Forças Armadas impõem algumas condições ao sistema político para que essa abertura se dê. Quando essas condições não estão claras, do ponto de vista da negociação entre Forças Armadas e a elite política ascendente, tem esses discursos catastrofistas ganhando algum tipo de força, visando colocar essas lideranças políticas na parede para que uma negociação, de fato, aconteça. E é exatamente esse o contexto dessa reunião que Kissinger e Figueiredo, revelada no livro. Naquela época já havia vazamentos à imprensa relacionados a um tal descontentamento dos militares com um suposto esquerdismo do Tancredo (Neves, que viria a ganhar as eleições de 1985). A condição mais importante (para o regime) era que não houvesse perseguição aos militares, investigação sobre violações de direitos humanos, preservação da Lei da Anistia de 1979 e que os militares não fossem para o banco dos réus, como estava acontecendo na Argentina. Havia um medo de eventuais investigações com relação à corrupção existente no regime militar e, no caso do Figueiredo, a ele próprio.
Estadão/Broadcast Político – Por fim, o que mais lhe chamou a atenção nos documentos mantidos pelos americanos?
Loureiro – Muita coisa. Uma delas é sobre corrupção. O livro relata uma conversa entre um almirante de alto escalão com o consulado-geral dos Estados Unidos em São Paulo, em que o brasileiro diz que o regime estava totalmente tomado pela corrupção. É uma das falas mais incisivas e chocantes que eu encontrei de uma figura da cúpula das Forças Armadas dizendo: “Olha, a gente tem que sair do poder o quanto antes, porque a coisa está tão tomada por esquemas de corrupção que isso vai macular a imagem das Forças Armadas”. E me chocou também descobrir que os militares viam, nas eleições de 1989, o Mário Covas ainda mais perigoso do que o próprio Lula. Havia conversas entre militares de São Paulo de que o governo Franco Montoro estava construindo uma “comunização” no Estado, falavam de um comunismo sub-reptício, mais perigoso do que o próprio radicalismo lulista. Essa mentalidade, para mim, é muito chocante.
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