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12 de maio de 2026
Por Guilherme Caetano, do Estadão
Brasília, 12/05/2026 – Felipe Loureiro, pesquisador e professor no Instituto de Relações Internacionais da USP, passou 15 anos investigando documentos produzidos por órgãos vinculados ao Departamento de Estado americano durante a ditadura brasileira (1964-1985). E encontrou histórias que dão novos tons e personagens ao período mais sombrio da República.
Uma delas dá conta de que o então presidente do Brasil, Emílio Garrastazu Médici, enviou em 1971 um pedido para a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), por meio do general Humberto de Sousa Melo, chefe do 2.º Exército em São Paulo. O militar queria dinheiro do setor para equipar o Destacamento de Operações de Informação – Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-Codi) paulista, símbolo dos espaços de tortura na ditadura militar.
No encontro que teve com os industriais, Melo alegava “escassez de recursos” para prosseguir com o combate à subversão e ao terrorismo, termos usados para se referir à oposição ao autoritarismo. Àquela época, o País vivia os anos de chumbo do regime militar (1964-1985), iniciado com a assinatura do Ato Institucional nº5 (AI-5), que deu poderes de exceção ao Executivo, possibilitando perseguição, prisões, tortura e morte de adversários políticos.
Procurada, a Fiesp disse que “reafirma o seu compromisso inabalável com o Estado Democrático de Direito e a transparência de suas relações com a sociedade”. Segundo a entidade, os documentos citados pela reportagem “referem-se a supostos fatos ocorridos há mais de 50 anos”.
Thomas Romanach, presidente da General Electric do Brasil, participou de um dos encontros com o enviado de Médici e levou o pedido para os membros da Câmara Americana de Comércio, incluindo seu presidente, Mack Verhyden, da Caterpillar, e o representante da DuPont no Brasil, Lou Rossi.
Segundo os documentos, os americanos reconheceram os riscos associados a uma contribuição para a estrutura repressiva brasileira, uma vez que Henning Boilesen, da Ultragaz, havia sido assassinato pela Ação Libertadora Nacional (ALN) após estabelecer conexões orgânicas com o aparato de repressão em São Paulo. Mas decidiram contribuir com o pedido de Médici mesmo assim.
Para disfarçar a verdadeira finalidade da doação e evitar rastreamento, a proposta que obteve maior aceitação foi a de criar um “fundo educacional” pela Fiesp. As empresas americanas dariam suas contribuições a esse fundo, emitindo recibo, o que lhes permitiria registrar os gastos com o financiamento da repressão sem recorrer a caixa dois.
Por nota, a Amcham Brasil afirmou que “respeita e apoia iniciativas voltadas à análise e à compreensão da história brasileira”. “A entidade não dispõe de registros históricos ou documentos próprios que permitam comentar o conteúdo mencionado no livro citado. A Amcham Brasil – entidade apartidária e sem fins lucrativos – reafirma seu compromisso com os valores democráticos, o respeito às instituições e aos direitos fundamentais, princípios que orientam sua atuação”. As demais empresas citadas foram procuradas, mas não responderam.
A história é contada, por meio de documentos até então inéditos, no livro “Olhares ianques: a ditadura brasileira nos arquivos norte-americanos”, que a Companhia das Letras lança nesta terça-feira, 12.
“Os Estados Unidos tinham, e ainda têm, uma estrutura informacional muito capilar sobre a sociedade brasileira. Eles conversam com todo mundo, de empresários a trabalhadores, de lideranças estudantis a jornalistas, líderes políticos, líderes partidários, autoridades governamentais de todos os níveis”, afirma Loureiro.
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