Economia & Mercados
13/12/2021 11:50

Lucros se recuperam, mas covid-19 ainda deixa marcas na rentabilidade dos bancos


Por Matheus Piovesana

São Paulo, 13/12/2021 - Próxima de completar dois anos e mais controlada diante do avanço da vacinação, a pandemia da covid-19 ainda tem efeitos sobre os indicadores dos grandes bancos brasileiros. Considerados os cinco maiores bancos brasileiros, o retorno sobre o patrimônio líquido (ROE, na sigla em inglês) ainda está abaixo dos patamares de 2019 em três deles, de acordo com levantamento do Broadcast.

De acordo com especialistas, essa redução é causada por uma economia mais fraca, pela queda dos spreads (diferença entre o custo de captação e os juros cobrados dos clientes) de crédito nos últimos 18 meses e pelo aumento da carteira de crédito dos bancos ao longo da pandemia.

"A carteira de crédito está maior, mas veio acompanhada de menores spreads bancários, fruto de linhas mais conservadoras, como imobiliário, consignado, que têm um risco de crédito menor", afirma Pedro Leduc, analista do setor no Itaú BBA. Dados do Banco Central mostram que o spread do sistema financeiro subiu nos últimos meses, mas ainda está abaixo dos patamares pré-pandemia.

A alta da Selic também é fator importante nessa conta. A taxa, que chegou a 9,25% ao ano nesta semana, deve ultrapassar os 10% no início do ano que vem, em uma rápida elevação - em janeiro deste ano, estava em 2%, a mínima histórica.

Essa alta causa um descasamento nos balanços: os custos de captação, atrelados ao CDI, sobem de forma instantânea. Já os juros da carteira de crédito são elevados mais devagar, conforme os antigos empréstimos vencem e novos são concedidos. A concorrência e a situação da economia podem reduzir essa reprecificação.

"Está muito mais difícil (repassar a alta dos juros ao crédito). A competição está mais difícil, a taxa (Selic) está alta e subiu rápido demais", disse, na semana passada, o presidente do Bradesco, Octavio de Lazari Junior, em encontro com jornalistas. O repasse está ocorrendo, segundo ele, mas de forma mais lenta.

Ao mesmo tempo, o balanço dos bancos está maior. Em 2020, as instituições foram impedidas pelo Conselho Monetário Nacional (CMN) de distribuir dividendos e juros sobre capital próprio (JCP) acima do mínimo estabelecido em seus estatutos, para evitar uma possível falta de liquidez no auge da crise. O resultado é que essa liquidez ficou dentro dos bancos, e contribuiu para aumentar a base sobre a qual se calcula a rentabilidade.

"Nos grandes bancos listados, o lucro, na média, está próximo a 2019, mas como teve menos pagamento de dividendos, o ROE caiu", diz Eduardo Rosman, analista do BTG Pactual. "O lucro está igual, mas o patrimônio está maior."

A crise, de todo modo, deixou o setor longe do "top 10" dos mais rentáveis da economia brasileira. Levantamento da Federação Brasileira de Bancos (Febraban) mostra que em 2020, os bancos tiveram a 16ª maior rentabilidade sobre patrimônio, de 12%, distante, por exemplo, de setores como comércio atacadista e exterior (28%) ou fumo (23%). Em 2019, o setor estava na 10ª colocação, e em 2018, na 11ª.

Concorrência: um tema futuro

A concorrência mais acirrada no setor tende a pressionar a rentabilidade no futuro. Atualmente, é um fator secundário, segundo especialistas, e tende a ser assim mesmo em 2022.

"No médio-longo prazo, o avanço da competição tende a trazer maior pressão sobre a rentabilidade do sistema financeiro, transferindo gradualmente valor ao cliente final", diz Alexandre Sawaya, sócio sênior da McKinsey e líder da prática de serviços financeiros na América Latina. Para a consultoria, no futuro, a rentabilidade dos bancos brasileiros deve convergir para patamares de mercados mais maduros, nos quais ronda os 10%.

Segundo Sawaya, fintechs, como o Nubank, têm apelo junto a um público mais jovem, e mais engajado. "Entretanto, têm o desafio de rentabilização dos seus clientes (por exemplo: as receitas por clientes ainda são em média seis a sete vezes menores do que dos bancos tradicionais)", afirma.

Leduc, do Itaú BBA, afirma que alguns efeitos da maior concorrência já se mostram em indicadores como as receitas com tarifas, reduzidas tanto pela migração de clientes para serviços isentos de tarifas nas fintechs quanto pelo Pix, que tomou parte do espaço antes ocupado por TED e DOC. Mas, diz, os bancos têm vantagens em outros pontos.

"A amplitude de produtos é algo difícil de replicar. Têm vantagem competitiva na distribuição, no custo de captação, e para ofertar crédito", afirma. "A base de depósitos dá a oportunidade de ofertar créditos longos, como o imobiliário. Esse é um produto que engaja o cliente por muitos anos."

Rosman, do BTG, diz ainda que os grandes bancos têm histórico amplo de informações não só dos clientes, mas dos tipos de oferta que dão certo ou não junto a eles, especialmente em um País complexo e de economia volátil como o Brasil. "Eles conhecem há mais tempo e melhor os clientes, já sabem renegociar e antecipar a problemas, e têm escala suficiente para recuperar um imóvel ou carro e leiloar rapidamente."

Contato: matheus.piovesana@estadao.com
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