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Coluna do Estadão: Relator investigado expõe conflito de interesses na indicação de Messias

29 de abril de 2026

Por Roseann Kennedy*, da do Estadão

Brasília, 29/04/2026 – A indicação do ministro Jorge Messias, da Advocacia-Geral da União, para uma vaga no Supremo Tribunal Federal expõe a crise ética que permeia a relação entre os Poderes no Brasil. O nó crítico não reside apenas na discussão do mérito do indicado, mas na figura do senador Weverton Rocha (PDT-MA), relator do processo na Comissão de Constituição e Justiça, que atua sob a sombra direta de investigação da Polícia Federal no Escândalo do INSS.

A PF afirmou que Weverton atuava como o “sustentáculo” político do empresário Antônio Carlos Camilo Antunes, o Careca do INSS. A instituição apontou o parlamentar como ‘sócio oculto’ do esquema de descontos irregulares de aposentados e pensionistas, e, chegou a solicitar sua prisão, que foi negada. Na ocasião, a Procuradoria-Geral da República avaliou que os elementos disponíveis eram frágeis para sustentar o pedido.

Mensagens interceptadas sugerem que o gabinete do senador funcionava como ponte para interesses do esquema. O “Careca” era presença frequente em Brasília, inclusive foi ao “costelão” – churrasco promovido pelo senador em sua residência.

A situação agravou-se com a prisão de Adroaldo da Cunha Portal em 18 de dezembro de 2025, na Operação Sem Desconto. Ele é ex-secretário-executivo da Previdência e antigo assessor de Weverton. Gustavo Marques Gaspar, outro ex-assessor do senador, também foi preso. Eles são acusados de receber propina para facilitar o esquema e negam as acusações, assim como o Weverton.

Mesmo sem fazer pré-julgamento, a coexistência do papel de relator com o status de investigado estabelece um conflito de interesses que desafia a liturgia republicana. Ao apresentar parecer favorável à aprovação de Messias, Weverton Rocha valida o currículo de quem, se aprovado, comporá a Corte responsável por seu eventual julgamento. E, nesse cenário, a imparcialidade cede lugar à conveniência.

A sabatina de Messias está marcada para esta quarta-feira, 29, mais de quatro meses depois de o presidente Luiz Inácio Lula da Silva indicar seu nome.

Nesse período, a imagem do próprio Supremo foi corroída. A mais alta Corte do País vive sua maior crise reputacional e de credibilidade. O que deveria exigir uma preocupação a mais na escolha de seus novos integrantes.

Mas a chegada de um novo membro pelas mãos de um relator investigado aprofunda o desgaste da Corte na busca por legitimidade.

O pragmatismo da base governista, que se apega à presunção de inocência para manter o arranjo com a escolha de Weverton, ignora o simbolismo de ver um investigado conduzindo a entrada de seu potencial juiz no tribunal.

Isso tudo reforça a conclusão de que o rigor ético tornou-se secundário à necessidade de blindagens mútuas e autoproteção que comprometem a confiança nas instituições.

*Roseann Kennedy é jornalista pós-graduada em Ciência Política e Economia. Há mais de 20 anos em Brasília, cobre as relações entre os poderes e os bastidores da política. Foi colunista política na CBN e GloboNews, editora-chefe e âncora no SBT e SBT News. Pernambucana, torcedora do Náutico, mas também apaixonada pelo Palmeiras.

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