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Andrea Illy: preços do café continuarão altos em 2026, mas rentabilidade vai melhorar

8 de maio de 2026

Por Leandro Silveira

São Paulo, 08/05/2026 – A Illycaffè espera recuperar os níveis de rentabilidade em 2026 mesmo diante de um cenário de custos do café ainda mais elevados do que os registrados no ano passado. Segundo o presidente da companhia, Andrea Illy, a estratégia da empresa de repassar preços de forma gradual e disciplinada permitiu preservar volumes de vendas e evitar perda de demanda.

“O custo do café este ano será maior do que a média do ano passado, mas a rentabilidade deve ser normalizada e retornar a níveis ótimos”, afirmou, ontem (7), o executivo, em entrevista coletiva. Segundo ele, a política adotada pela companhia foi “muito disciplinada, muito prudente” e já começa a apresentar resultados positivos.

Illy destacou que a empresa optou por não repassar integralmente aos consumidores a disparada dos custos da matéria-prima, movimento que, segundo ele, poderia ter provocado retração no consumo. “Nós crescemos bastante em vendas, nos volumes. Não encontramos o problema da elasticidade do preço que nós haveríamos encontrado caso tivéssemos aumentado os preços proporcionalmente ao aumento dos custos”, disse.

O executivo classificou a alta do café como “um grande desafio” para o setor. Segundo ele, a média dos preços da commodity no ano passado ficou em patamar equivalente a cerca de três vezes o custo histórico, pressionando as margens da indústria.

De acordo com Illy, a companhia precisou passar por um período de adaptação para absorver os custos mais elevados, revisando despesas operacionais, negociando com o mercado e promovendo reajustes graduais de preços. Esse processo levou a uma “leve diminuição” da rentabilidade em 2025. “Precisamos de um breve período de adaptação para absorver o aumento dos custos, e otimizar outros custos operacionais”, disse.

A receita da illycaffè atingiu 700 milhões de euros em 2025, aumento de 12% em relação ao ano anterior considerando câmbio constante. Porém, o lucro líquido recuou de 33 milhões para 20 milhões de euros, enquanto o Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização) passou de 110 milhões para 90 milhões de euros.

Safra brasileira

O presidente da Illycaffé, Andrea Illy, afirmou que o Brasil deve ter uma safra de café mais abundante neste ano, impulsionada pelo ciclo positivo da cultura e por condições climáticas melhores, mas ponderou que os estoques globais seguem apertados e que os riscos climáticos ainda sustentam preços elevados no mercado internacional.

Segundo Illy, apesar de previsões de produção entre 68 milhões e 72 milhões de sacas, há incerteza sobre o tamanho efetivo da colheita brasileira. “Não sabemos quão grande será a safra”, afirmou. Ele observou que, mesmo com uma produção potencialmente superior ao consumo, encerrando uma sequência de déficits globais nos últimos cinco anos, o excedente “não vai ser suficiente para reconstituir os estoques que são demais baixos”.

O executivo também destacou que o mercado acompanha com preocupação a possibilidade de formação de ocorrência do fenômeno climático El Niño na segunda metade do ano. “Tem acima de 90% de probabilidade de ocorrer um El Niño. Isso representa um ponto de interrogação para o futuro da produção”, disse. Ainda assim, ele ponderou que episódios anteriores do fenômeno climático não impediram boas colheitas em alguns ciclos.

O presidente da companhia também relatou avanço no plantio de novas lavouras de café, movimento que atribuiu aos preços elevados da commodity nos últimos anos. “Observamos um maior número de novas lavouras, consequência de preços mais altos e mais atrativos para crescer a produção”, disse.

Questionado sobre a migração de áreas agrícolas para o café, Illy afirmou que produtores antes focados em soja e milho estão capitalizados e podem investir em novas áreas cafeeiras. Segundo ele, parte desse movimento ocorre em áreas degradadas ou em propriedades que já pertencem aos produtores. “É bastante normal nesse momento”, afirmou.

O executivo ressaltou, porém, que em diversas regiões cafeeiras há poucas alternativas econômicas ao cultivo do café. “Em muitas áreas de produção não tem verdadeiras alternativas ao café para agricultura. Ou seja, você cultiva café ou gado”, disse.

Durante visita a regiões produtoras de Minas Gerais, Illy afirmou ter observado a consolidação da agricultura regenerativa nas principais áreas cafeeiras do Estado. Segundo ele, a prática “em menos de dez anos se tornou universal”, citando regiões como Sul de Minas, Cerrado Mineiro e Mata de Minas.

Contato: leandro.silveira@estadao.com

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