O secretário de estado dos EUA, Marco Rubio, tentou dar um 'oi sumido' para Lula que fingiu de morto e seguiu seu caminho
22 de setembro de 2026
Karla Spotorno, correspondente em Nova York
A saída de uma plenária cheia sempre pode provocar encontros inusitados e outros a serem evitados.
Foi mais ou menos isso que aconteceu nesta terça-feira, logo depois do discurso do presidente dos Estados Unidos Donald Trump durante a 81ª Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU).
Sentados a uma distância de pouco mais de uma fileira de mesas, o Brasil e os Estados Unidos se encontraram num corredor lotado, com altas lideranças e delegados saindo da plenária principal, segundos depois de Trump deixar o púlpito.
Nesse anda e para, cumprimentos para cá e apertos de mão para lá, o secretário de Estado americano, Marco Rubio, quase conseguiu um tête-a-tête com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Numa esquina de corredores do grande salão verde da ONU, Rubio ficou a um passo de Lula – a quem, pelo padrão da diplomacia internacional, não deveria acessar diretamente.
Um chefe de Estado é abordado por outro chefe de Estado, pelo código social dos diplomatas. Não deve ser abordado por um ministro ou secretário de Estado.
Lula chegou a virar e olhar para Rubio, mas retomou seu rumo à saída junto com a comitiva.
Seria ainda mais surpreendente Lula atender a uma abordagem do secretário de Trump, porque ele estava acompanhado do ministro das Relações Exteriores brasileiro, Mauro Vieira. Pela etiqueta ‘diplomática’, é ele o interlocutor direto de um secretário de Estado estrangeiro. Número 1 fala com número 1. Ministro fala com ministro. E Vieira falou. Por poucos segundos, cumprimentou Rubio e também retomou seu rumo, junto com a delegação.
Além de todas as regras do xadrez diplomático, o contexto geopolítico atual não favorece uma quebra de protocolo por parte do chefe de Estado brasileiro.
Como afirmou o ministro da Fazenda, Dario Durigan, na semana passada, Rubio é uma ameaça maior do que o presidente Trump em pessoa. O perigo real não vem do presidente americano, que tem uma “boa relação” com o colega brasileiro, apesar das questões dele com a China, a Rússia e o Oriente Médio. “Rubio tem compromisso com a família Bolsonaro. Trata-se de uma instrumentalização por meio dele. Acho que nosso maior problema vem daí”, disse Durigan.
Mais do que uma ameaça política, Rubio começou a tecer, pessoalmente, uma trama geopolítica na América do Sul. No início do mês, fez um périplo pelo continente, começando pela Colômbia, onde foi recebido pelo novo presidente do país e aliado dos Estados Unidos, Abelardo de la Espriella. Depois da Colômbia, foi ao Equador e ao Peru. O americano assinou acordos de cooperação nuclear civil e outro referente a minerais críticos.
Contra o Brasil, ainda paira o risco de desdobramentos da classificação das organizações criminosas PCC e Comando Vermelho como organizações terroristas internacionais (Foreign Terrorist Organization, FTO, na sigla em inglês) pelo governo Trump.
O tema incomoda não apenas o governo, por uma questão de riscos à soberania nacional, mas também o mundo corporativo. Empresas, bancos, exportadores ou não, multinacionais ou não e seus escritórios de advocacia têm investido tempo e dinheiro para entender onde isso pode chegar. Por ora, ninguém sabe.
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