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O iene em apuros

Aberto a visitas? Saiba por que os turistas estrangeiros estão fazendo a festa no Japão

1 de julho de 2026

Por Fábio Alves

O fim do primeiro semestre foi um pesadelo para as lideranças econômicas em Tóquio: o dólar encerrou o mês de junho cotado no maior nível em relação à moeda japonesa em 40 anos, acima de 162 ienes. Várias autoridades do Ministério das Finanças e do Banco do Japão (BoJ) engrossaram o tom das ameaças de intervenção cambial, mas investidores e analistas não creem que a divisa japonesa conseguirá recuperar ao longo de 2026, ou mesmo de 2027, parte da desvalorização recente.

O iene mais fraco pode resultar em produtos importados mais caros para os japoneses, o que é politicamente impopular. Por outro lado, os turistas estrangeiros estão fazendo a festa no Japão. Nos primeiros seis meses de 2026, o iene perdeu 3,7% ante o dólar.

Só para lembrar: na virada de abril para maio, a primeira-ministra japonesa, Sanae Takaichi, autorizou uma intervenção cambial recorde, quando o dólar ultrapassou 160 ienes, nível visto como “a linha na areia” para o governo japonês, que gastou mais de US$ 70 bilhões para trazer a cotação do dólar para baixo. O impacto teve vida curta. E a moeda japonesa voltou a enfraquecer, especialmente após a maioria dos diretores do Federal Reserve (Fed) ter projetado, ao menos, uma alta dos juros americanos até o fim do ano.

A expectativa dos analistas é a de que, desta vez, o Ministério das Finanças japonês irá gastar mais do que em abril/maio para intervir no mercado cambial. E que essa intervenção é iminente. Desde 2022, o governo japonês fez cinco intervenções para trazer a cotação do dólar para baixo. Esses movimentos sempre aconteceram ao redor de feriados ou de datas importantes na divulgação de indicadores econômicos. Nesta quinta-feira, por exemplo, haverá a divulgação do número de criação de vagas de empregos nos Estados Unidos referente ao mês de junho.

Esse dado é fundamental para a precificação dos investidores em relação à probabilidade de o Fed elevar os juros neste ano. Por enquanto, o mercado precifica um aumento dos juros americanos em setembro. Para agravar a situação, na sexta-feira próxima é feriado nos EUA, para comemoração do dia da Independência, o que irá reduzir drasticamente a liquidez dos mercados globais. Ou seja, uma janela de oportunidade para o governo japonês.

Investidores e analistas têm baixa expectativa de que mesmo uma intervenção cambial de valor elevado irá funcionar e dar maior suporte à moeda japonesa. Isso porque, para muitos analistas, a raiz do problema está na deterioração do risco fiscal do Japão e pela demora do BoJ em elevar a taxa básica de juros, atualmente em 1%, para conter as pressões inflacionárias. Desde que assumiu o governo, a primeira-ministra Takaichi já aprovou rodadas de estímulos fiscais para impulsionar a economia e compensar o aumento no custo de vida dos eleitores.

A vítima dessa combinação tem sido o iene.

Por outro lado, há o sentimento de que, se os investidores globais começarem a precificar mais agressivamente altas de juros nos EUA, a pressão de desvalorização do iene ante o dólar irá aumentar. Conforme um relatório do banco ING, os contratos de opções cambiais embutem uma probabilidade de 37% de o dólar atingir a cotação de 165 ienes até o fim deste mês de julho.

Aliás, a chefe de pesquisa de câmbio para Ásia do banco HSBC, Joey Chew, revisou para cima sua projeção da cotação do dólar: de 155 ienes para 162 no fim deste ano. Ela não vê alívio para a moeda japonesa, prevendo um dólar a 164 ienes até meados de 2027. Assim, a pergunta que fica é: diante de problemas estruturais (gastos públicos crescentes e aperto monetário mais frouxo do que o esperado), quanto o governo japonês terá que gastar para trazer o dólar abaixo de 160 de forma sustentada?

Como iene fraco é pressão sobre o custo de vida dos japoneses, a resposta não é só meramente técnica, mas também política.

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