As tarifas de importação impostas por Donald Trump já fazem a primeira vítima? Acompanhe.
8 de junho de 2026
Por Fábio Alves
As tarifas de importação adotadas pelo presidente americano Donald Trump causaram o primeiro estrago visível a um dos seus principais parceiros comerciais: a economia do Canadá entrou em recessão técnica no primeiro trimestre deste ano, após as exportações que têm peso importante sobre o PIB recuarem em razão das medidas.
Apesar de muitos analistas ainda tratarem o tema “recessão técnica” com cautela, uma vez que o resultado do primeiro trimestre ficou muito próximo da estabilidade e poderá ser revisado para cima na divulgação dos números finais, o fato é que houve um desempenho muito mais fraco da economia canadense.
O resultado do PIB canadense do primeiro trimestre do ano pegou os analistas de surpresa. Conforme a agência oficial de estatística, o PIB caiu 0,1%, na taxa anualizada, entre janeiro e março deste ano, enquanto o consenso das estimativas do mercado apontava para um crescimento de 1,4%. É uma diferença grande em termos do que se esperava e do resultado final.
É bom lembrar que, no quarto trimestre de 2025, a economia do Canadá já havia recuado 1%, na taxa anualizada. Ou seja, o país está em recessão técnica após dois trimestres consecutivos de contração. A última vez que o país registrou dois trimestres negativos de desempenho do PIB foi em 2020, durante a pandemia de Covid-19.
Muitos analistas atribuem a maior parte da culpa pelo desempenho bem mais fraco do que o esperado no primeiro trimestre à queda forte dos gastos públicos e também dos investimentos privados. Por outro lado, as tarifas de importações dos EUA não só afetaram as exportações canadenses, como também minaram a confiança dos empresários para manter investimentos em setores cruciais, como a indústria e a construção civil. Ou seja, a incerteza sobre a política comercial dos EUA em relação ao Canadá foi parte importante no desempenho da economia, quer seja pelo canal de exportações, quer seja pelo canal de confiança empresarial.
Até porque cresceu a ansiedade em relação à renovação do tratado comercial entre EUA, Canadá e México (conhecido pela sigla USMCA), cuja validade vai até o próximo dia 1º de julho. As negociações ainda estão a pleno vapor. O governo canadense enviou uma carta, na semana passada, ao presidente Trump, pedindo a renovação do tratado por mais 16 anos. A dúvida entre analistas é o quanto de concessões aos EUA terá que fazer o governo canadense para conseguir a renovação desse acordo. Enquanto isso, o impacto das tarifas de importação segue causando estragos.
Nos dados do PIB do primeiro trimestre, as exportações canadenses recuaram 0,1%, com queda nos embarques de veículos leves e de caminhões. E isso foi consequência direta das tarifas de importação impostas por Trump. Aliás, na semana passada, o Representante do Comércio dos Estados Unidos (USTR) anunciou nova sobretaxa contra 60 parceiros comerciais que teriam feito uso de trabalho forçado. O USTR sugeriu uma sobretaxa de 10% para Canadá, Equador, Indonésia, México, Paquistão e União Europeia e de 12,5% para outros 58 países, incluindo Brasil, China, Índia e Japão, pela suposta falha na prevenção da importação de bens que teriam sido produzidos com mão de obra irregular.
Diante de um PIB mais fraco do que o esperado para a economia e da incerteza sobre a renovação ou não do acordo USMCA, o banco central do Canadá (BoC, na sigla em inglês) deve manter a taxa básica de juros inalterada em 2,25% na sua reunião de política monetária nesta quarta-feira (10). Seria a quinta reunião consecutiva com os juros básicos inalterados.
Como o Canadá é um grande exportador de petróleo, a expectativa dos analistas é que o aumento das receitas de exportação acabe impulsionando o PIB canadense já neste segundo trimestre do ano, como reflexo da disparada nos preços do petróleo em razão da guerra no Irã. Mas a incerteza sobre o que vai acontecer com o comércio bilateral com os EUA, tanto pelas sobretaxas de importação, quanto pela renovação do tratado tripartite de comércio (USMCA), mantém os analistas cautelosos em bater o martelo para dizer que a recessão técnica será passageira. A ver.
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