7 de maio de 2026
Por Célia Froufe, Cícero Cotrim e Flávia Said
Brasília, 07/05/2026 – O secretário-executivo do Ministério da Fazenda, Rogério Ceron, disse em entrevista à Broadcast nesta quinta-feira, 7, que o uso do Fundo Constitucional do Distrito Federal (FCDF) seria uma forma de o Governo do Distrito Federal (GDF) reforçar a garantia dada para o Banco de Brasília (BRB). A discussão sobre o tema, segundo ele, ainda é embrionária e depende da iniciativa da administração local.
Banhado em problemas desde pelo menos o escândalo do Banco Master, a instituição estatal quer auxílio de cima, mas esbarra em critérios técnicos de classificação de garantias que não consegue superar. O secretário garantiu que não há determinação do Palácio do Planalto para ajudar ou não o BRB. “Hoje, o GDF não tem capacidade de fazer uma operação de crédito sem aval do Tesouro; e, sem o aval do Tesouro, ninguém vai dar crédito para o GDF, pela situação fiscal que ele tem. Mas, hoje, não tem como dar o aval, teria de ser feito algum tipo de exceção. É complexo”, avaliou.
Veja abaixo os principais trechos da entrevista:
Broadcast: O governo do DF insiste que precisa do apoio do governo federal para manter o Banco de Brasília (BRB) de pé. O presidente Lula já proibiu o auxílio da Caixa e do BB. Houve alguma recomendação direta nesse sentido em relação ao Tesouro? O FCDF seria uma alternativa? Como funcionaria?
Rogério Ceron: Não tem nenhuma decisão, hoje, de ajudar ou não ajudar. Mas isso não é um problema do governo federal, é um problema do GDF. Toda a situação do BRB, pelo que está sendo noticiado, tem relação com o Banco Master. Isso é importante de separar. Como fazer a ajuda, se for fazer, são outros quinhentos. Hoje, o GDF não tem capacidade de fazer uma operação de crédito sem aval do Tesouro; e, sem o aval do Tesouro, ninguém vai dar crédito para o GDF, pela situação fiscal que ele tem. Mas, hoje, não tem como dar o aval, teria de ser feito algum tipo de exceção. É complexo. Para isso, teria de reforçar a estrutura de garantia. De repente, poderia fazer, além da contragarantia natural, em relação ao repasse do FPE, uma outra contragarantia em relação ao FCDF. É uma garantia robusta, que se for acionada vai doer para o GDF, mas que é ótima, porque serve como incentivo para que as operações sejam pagas corretamente. Mas essa discussão está em caráter absolutamente embrionário; não há nenhum tipo de tratativa sobre o assunto.
Broadcast: O ex-ministro da Fazenda Fernando Haddad sempre defendeu alterações nas regras que regem o FCDF, como abandonar a vinculação do fundo à Receita Corrente Líquida (RCL), mas enfrentou resistência. Mudanças desse tipo seriam uma opção na mesa para conceder a garantia, gerando um benefício fiscal de longo prazo? E vencendo a resistência do DF?
Ceron: Não dá para descartar um caminho ou outro, mas primeiro tem de haver uma sinalização da outra parte, do quanto se está interessado em fazer esse tipo de operação com o governo federal. Se realmente é necessário e, se for necessário, precisa ser uma coisa séria. Quem colocou o BRB nessa situação não foi o governo federal. Se for para ter uma discussão sobre isso, tem de ser uma discussão estrutural, e não meramente pontual. Se tiver alguma solução, vai demandar mudança em atos normativos, infralegais e eventualmente legais.
Broadcast: O próximo Relatório Bimestral de Avaliação de Receitas e Despesas vai ser publicado no fim deste mês. A Fazenda já tem alguma projeção? No último, esperava-se um bloqueio até bem maior no orçamento, e veio só R$ 1,6 bilhão.
Ceron: Não dá para assegurar nada, porque ainda não tem os números. Começamos a tatear. Mas não me parece que vai ter um impacto tão abrupto. Na receita, está vindo mais ou menos em linha, então, a gente não deve ter grandes mudanças. O que a gente tem é algumas medidas, como crédito extraordinário, que vão, eventualmente, necessitar algum bloqueio. Mas isso a gente vai ter que apurar, quanto está nas nossas projeções, como vai ser a projeção de petróleo. Vamos olhar, mas não está me parecendo que vai ser um relatório bimestral de uma grande guinada, algo muito substancial que vai chamar a atenção. Pode ter números maiores do que foi o anterior.
Broadcast: Só bloqueio, sem contingenciamento?
Ceron: Talvez tenha algum contingenciamento. É até mais arriscado ter contingenciamento do que bloqueio, porque fizemos, por exemplo, as subvenções, que são crédito extraordinário: você tira no limite de despesa, mas ela conta para a meta. Então, se eu não tiver receita adicional, eu vou ter que contingenciar.
Broadcast: Mas vai ter receita adicional do petróleo.
Ceron: A ponderação agora se ela é suficiente. Grosso modo, sim. Mas temos de checar direitinho. Não me parece que seja uma coisa muito abrupta, muito significativa, que somaria coisa de dezenas de bilhões. Posso estar equivocado. Mas a arrecadação está indo em linha do que a gente planejou. E a despesa também – tirando essas questões de subvenções, que tivemos de atuar -, não tem nada muito fora do esperado.
Broadcast: O dólar está mais baixo do que a maioria das previsões de mercado. Um dólar mais fraco ajuda a inflação, mas tem também suas consequências negativas. Com qual patamar a Fazenda trabalha para os próximos dois, três meses?
Ceron: No curto prazo, talvez o câmbio seja o principal canal de transmissão da política monetária, com um impacto grande sobre preços. O diferencial da taxa de juros, em condições normais, atrai mais capital. Tem um adicional agora, perante o que está acontecendo no mundo, de que o Brasil está muito bem posicionado: sem guerra, com estabilidade institucional e econômica, e menos dependente de petróleo que outros países. Poucos países do mundo conseguem uma situação como essa. Então, o Brasil está recebendo muito fluxo. Isso é um ponto positivo, mas uma apreciação excessiva do câmbio é difícil para o planejamento de quem investe no médio e longo prazo. Tem um balanço: é importante para o País ver o real ter o melhor desempenho entre todas as moedas, mas temos de tomar cuidado para não entrar em um processo com consequências negativas.
Broadcast: A emissão em euros do Tesouro teve relação com o acordo União Europeia e Mercosul ou foi dissociada?
Ceron: Não, tem mais a ver com a nossa estratégia de realmente voltar, estar mais presente em outros mercados. Nós sinalizamos isso até no PAF [Plano Anual de Financiamento], de que temos intenção de voltar para o mercado de eurobonds. É uma estratégia de diversificar e até de outros tipos de títulos. Vamos olhar outros mercados. Claro que tem um simbolismo, mas a estratégia já estava dada.
Broadcast: Há possibilidade de outras emissões, não especificamente em euros, ainda neste semestre?
Ceron: Há possibilidade, sim. Neste semestre ainda. Não quer dizer que vai ter, mas é possível que sim.
Broadcast: Se o presidente Lula sair vitorioso em outubro, o senhor se mantém no ministério?
Ceron: Vamos trabalhar, eu estou aqui para o País. Tenho feito com muito orgulho o trabalho, pensando em coisas que eu acredito, que vão melhorar o futuro, pensando muito nessa contribuição para a sociedade, em batalhar para que seja uma reta final muito boa. E o futuro vamos ver. Por ora, o meu desejo aqui é fazer um belíssimo Desenrola, criar soluções que mirem o médio prazo melhor para o endividamento, para o fiscal, para a política econômica.
Contato: celia.froufe@broadcast.com.br, cicero.cotrim@broadcast.com.br, flavia.said@broadcast.com.br
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