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Especial: Ambev tem maior alta da história na Bolsa após 1Tri26 forte no Brasil

6 de maio de 2026

Por Júlia Pestana

Após um 2025 que abalou os volumes da indústria cervejeira, a Ambev entrou em 2026 tentando contar uma nova história. O balanço do primeiro trimestre mostrou a força da operação da companhia no Brasil e a capacidade de voltar a combinar crescimento de volumes e preços, dinâmica que não era observada há vários trimestres. O resultado reacendeu o debate sobre uma possível inflexão operacional da empresa e levou as ações à maior alta porcentual de sua história.

O salto de 15,30% reaproximou a ação dos R$ 17, cifra que não rompe desde abril de 2018. A ação fechou em R$ 16,65, perto da máxima do dia de ontem. Sozinha, a Ambev foi responsável por mais da metade do ganho do Ibovespa na sessão desta terça-feira, quando o índice subiu aos 186.753,82 pontos (0,62%). Sem a empresa de bebidas, teria ganho apenas 0,26%.

A empresa reportou lucro líquido ajustado de R$ 3,8 bilhões no primeiro trimestre deste ano, leve alta de 0,3% na comparação anual. A receita líquida somou R$ 22,5 bilhões, baixa de 0,1%, enquanto o Ebitda ajustado atingiu R$ 7,5 bilhões, com crescimento anual de 1,5%.

A operação de cerveja no Brasil foi o principal destaque do balanço, com crescimento de 1,2% no volume no trimestre, sustentado pelo desempenho de marcas premium e ganho de participação de mercado. Ao mesmo tempo, a receita por hectolitro avançou em ritmo de um dígito alto, indicando uma dinâmica mais equilibrada entre preço e mix.

Na leitura do BTG Pactual e Bradesco BBI, o trimestre não chama atenção apenas pelo “quanto” a companhia cresceu, mas pelo “como”: a combinação de volume e preço, após períodos de pressão sobre a demanda em 2025, sugere melhora na execução comercial e no posicionamento de portfólio, ainda que ainda não caracterize uma virada consolidada.

Mix de produtos

A leitura mais construtiva também é sustentada pela evolução do portfólio. As cervejas premium mantiveram crescimento de dois dígitos, enquanto categorias de maior valor agregado ganharam espaço no resultado.

O segmento de bebidas com menor teor alcoólico e calórico, por exemplo, avançou mais de 60% no período, com destaque para as versões sem álcool.

Para a companhia, esse movimento está ligado à capacidade de capturar novas ocasiões de consumo. “Ser parte de uma empresa global é como ter uma bola de cristal; sabemos o que a cerveja pode ser”, disse mais cedo o presidente da Ambev, Carlos Lisboa.

Custos

Apesar do avanço operacional, o trimestre ainda foi marcado por pressão relevante de custos. O custo por hectolitro subiu cerca de 8,5%, impactado por câmbio e commodities. Ainda assim, a companhia conseguiu expandir margens, sustentada por disciplina comercial e maior participação de produtos de maior valor agregado.

A expectativa é de que essa pressão comece a perder força ao longo do ano. “O primeiro trimestre é provavelmente o de custo mais alto do ano”, afirmou Lisboa, indicando alívio gradual a partir do segundo trimestre.

Outro destaque do período foi a geração de caixa. O fluxo de caixa operacional somou cerca de R$ 3,1 bilhões no trimestre, o maior para um primeiro trimestre em dez anos.

O desempenho foi impulsionado por melhora no capital de giro e reforça, na avaliação de analistas, a percepção de uma execução mais consistente, indo além da dinâmica de receita.

Otimismo com cautela

Apesar da forte reação das ações, a leitura do mercado ainda incorpora ressalvas. Parte dos bancos vê o resultado como um primeiro passo para revisões positivas, mas não como evidência de uma virada plenamente consolidada.

Persistem dúvidas sobre a sustentabilidade da melhora, especialmente na evolução dos volumes ao longo do ano e na qualidade da demanda, em um ambiente ainda pressionado para o consumo.

A própria companhia reconhece que a recuperação deve ocorrer de forma gradual, condicionada à normalização das ocasiões de consumo e à evolução da renda.

No curto prazo, o calendário mais favorável aparece como suporte adicional. A Ambev estima que a Copa do Mundo pode adicionar entre 0,3 e 0,4 ponto porcentual ao crescimento da indústria em 2026, com impacto concentrado no segundo e terceiro trimestres.

Ainda assim, o evento é tratado mais como um impulso tático do que estrutural, mantendo o foco do mercado na capacidade da companhia de sustentar a melhora de volumes e a disciplina de execução ao longo do ano.

Contato: julia.pestana@estadao.com

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