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Especial/Agrishow: fabricantes no Brasil apontam desafios para chineses em máquinas agrícolas

4 de maio de 2026

Por Tânia Rabello, enviada especial

Ribeirão Preto – O avanço das empresas chinesas no mercado brasileiro de máquinas agrícolas ganhou escala na 31ª Agrishow 2026 e já provoca reações entre fabricantes tradicionais instalados no País há décadas. Com um pavilhão próprio pelo segundo ano consecutivo, o grupo de asiáticos saltou de 18 para mais de 50 expositores, organizado pela Rhino Agri, associação que reúne mais de 500 fabricantes da China com foco em ampliar negócios no Brasil.

Ao Estadão, o CEO da plataforma, Neeson Cheng, resumiu a estratégia: a presença tem como objetivo mostrar o portfólio tecnológico ao agro brasileiro e preparar a instalação de um balcão de negócios permanente no País, facilitando a importação de máquinas e equipamentos.

Do lado das empresas brasileiras, porém, embora o movimento seja tratado com naturalidade, tendo em vista do tamanho do agronegócio brasileiro, que atrai investidores globais, há também um pouco de cautela. “É uma concorrência saudável. Obriga todos a evoluírem”, afirmou ao Broadcast Agro o CEO da Baldan, Fernando Capra. Para ele, o interesse dos chineses reflete o próprio potencial do mercado brasileiro, mas há etapas importantes até a consolidação das marcas do gigante asiático aqui. “Tropicalização, rede de assistência técnica e construção de marca levam tempo. Tudo tem seu ciclo”, disse, lembrando que a Baldan, empresa familiar de Matão (SP), construiu sua presença no Brasil ao longo de quase um século -vai fazer 98 anos este ano.

A avaliação de que o desafio para a aceitação das máquinas chinesas por aqui vai além do preço é reforçada por executivos de montadoras multinacionais com atuação histórica no País. Para o head global da Massey Ferguson e vice-presidente sênior da AGCO, Luis Felli, a entrada de novos competidores esbarra principalmente na estrutura de suporte ao cliente. “O grande desafio para qualquer empresa que queira se estabelecer aqui é a rede de concessionários”, afirmou. Segundo ele, o agricultor brasileiro não compra apenas um equipamento, mas um pacote de confiança que inclui peças, assistência técnica e previsibilidade ao longo de muitos anos de uso.

Felli chama a atenção para um ponto sensível: o valor de revenda. “Uma coisa é comprar uma máquina mais barata. Outra é saber por quanto você vai vender essa máquina no fim da vida útil e quem vai comprar”, disse. Na visão do executivo, esse fator pesa na decisão de compra e ainda favorece marcas já consolidadas, com mercado secundário estruturado.

Além disso, há o desafio técnico de adaptação ao ambiente brasileiro. “Aqui as máquinas trabalham em condições severas, muitas vezes 24 horas por dia. Não dá para simplesmente trazer um equipamento de outro mercado e operar direto”, afirmou Felli. Segundo ele, o processo de tropicalização – que envolve ajustes de engenharia e longos testes em campo – é indispensável e pode levar anos até atingir o padrão exigido pelos produtores locais.

Na visão da indústria nacional, a chegada dos chineses também evidencia mudanças na dinâmica global da cadeia de suprimentos. O COO da Indústrias Colombo, Neto Colombo, destaca que muitos fabricantes, inclusive no Brasil, já dependem, no mínimo, de componentes vindos da Ásia. “O que a gente busca é capturar valor dessa nova dinâmica, oferecendo soluções mais próximas, com menos risco logístico e mais previsibilidade”, afirmou. A estratégia da empresa inclui a produção local de itens hoje importados da China, como redutores planetários, reduzindo a dependência externa.

Ao mesmo tempo, Colombo vê espaço para convivência entre diferentes modelos de negócio. “O produtor busca eficiência, mas também segurança. E isso passa por proximidade, suporte e relacionamento”, disse.

Entre os executivos, há consenso de que o pós-venda é um dos principais diferenciais competitivos no Brasil. Para o vice-presidente da Fendt e Valtra e gerente-geral da AGCO América Latina, Marcelo Traldi, esse fator tende a pesar ainda mais em um ambiente de margens apertadas no campo. “A máquina agrícola é uma ferramenta de trabalho. O produtor não pode correr riscos”, afirmou, em coletiva de imprensa realizada na Agrishow. Segundo ele, a capilaridade da rede, a disponibilidade de peças e a rapidez no atendimento são decisivas na escolha do fornecedor.

Traldi também destacou o histórico das empresas já instaladas no País. “São décadas investindo, desenvolvendo produto, testando em campo. Isso constrói uma base que não se replica de um dia para o outro”, disse. Ele lembra que, mesmo pequenas mudanças em equipamentos exigem validações extensas antes de chegar ao mercado. “Nenhum produto é lançado sem 15 mil a 20 mil horas de teste.”

Apesar disso, o executivo reconhece que a competição tende a se intensificar. “Logicamente, preocupa sempre”, afirmou, ao comentar a entrada de novos players. Ainda assim, ele vê uma vantagem clara para quem já está estabelecido. “No agro, o diferencial é o pós-venda.”

Ao olhar para o movimento como um todo, os fabricantes brasileiros convergem em um diagnóstico: a presença chinesa deve crescer, impulsionada por competitividade em preço e escala industrial, mas enfrentará um caminho mais longo até conquistar a confiança plena do produtor rural. “Não é só colocar a máquina no campo. É provar, ao longo dos anos, que ela vai continuar lá, funcionando”, resumiu Felli.

Contato: tania.rabello@estadao.com

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