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Soja: paralisação da Cargill expõe ruído sanitário no fluxo Brasil-China, diz analista

12 de março de 2026

Por Gabriel Azevedo

São Paulo, 12/03/2026 – A suspensão de compras e embarques de soja do Brasil pela Cargill, motivada por mudanças no sistema de inspeção fitossanitária adotado pelo Ministério da Agricultura a pedido da China, deve ter duração limitada, mas levanta dúvidas sobre se Pequim está aplicando critérios sanitários para ajustar o ritmo das compras em um momento politicamente conveniente. A avaliação é do analista de mercado Joe Vaclavik, da Standard Grain, em transmissão nesta quinta-feira (12).

A interrupção foi confirmada na quarta-feira (11) pelo presidente da Cargill no Brasil, Paulo Sousa, em entrevista à Reuters. Segundo ele, o ministério passou a substituir a amostragem padrão de mercado por coleta própria de amostras das cargas destinadas à China, o que tem causado discrepâncias na classificação da soja e impedido a emissão de certificados fitossanitários exigidos para o desembarque nos portos chineses. Sem o documento, o navio não pode descarregar. A trading parou de exportar desde sexta-feira (6) e, como consequência, também interrompeu compras no mercado doméstico.

O efeito no mercado físico brasileiro foi imediato. Segundo Vaclavik, operadores passaram a relatar forte retração nas indicações de compra em regiões produtoras após a paralisação das operações da Cargill. “Os traders brasileiros relatam que os lances de compra de soja local praticamente desapareceram”, disse.

O impasse ocorre justamente no pico sazonal dos embarques brasileiros, período em que o Brasil concentra a maior parte das exportações globais da oleaginosa. A China responde por cerca de 80% das vendas externas brasileiras de soja, o que torna qualquer alteração nos procedimentos sanitários potencialmente relevante para o fluxo comercial.

Vaclavik não descarta que haja motivações além das questões técnicas por trás do endurecimento das inspeções. “Não sei se a China está fazendo algum jogo aqui, talvez por causa da trégua com os Estados Unidos. Talvez o mercado de soja esteja caro demais e eles simplesmente não queiram pagar”, disse.

O comentário ocorre em um momento de reaproximação diplomática entre Washington e Pequim. O secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Scott Bessent, e o representante de comércio do país, Jameson Greer, se reúnem com autoridades chinesas em Paris neste fim de semana, com o comércio agrícola – incluindo a soja – entre os temas esperados na pauta.

Situações semelhantes já ocorreram recentemente. Em novembro de 2025, autoridades chinesas suspenderam temporariamente importações provenientes de cinco unidades de processamento no Brasil após a detecção de trigo tratado com agrotóxicos misturado a carregamentos de soja. Casos parecidos também foram registrados em janeiro e dezembro de 2024, reforçando o histórico de rigor sanitário nas compras chinesas.

Para Vaclavik, porém, o episódio não altera os fundamentos globais da oleaginosa. O Brasil colhe atualmente uma safra volumosa e o problema está concentrado nos procedimentos de certificação das cargas, não na disponibilidade física do produto. “Essa situação não adiciona nem subtrai bushels dos balanços de oferta e demanda. Se eu tivesse de apostar, diria que isso estará resolvido em uma semana. Se não estiver, aí pode virar uma história maior”, afirmou.

No mercado internacional, os preços continuam firmes. O contrato maio da soja em Chicago operava com alta nesta manhã.

Contato: gabriel.azevedo@estadao.com

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