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Relatório da ONU aponta que mundo entrou em estado de falência hídrica global

21 de janeiro de 2026

Por Wilian Miron

São Paulo, 21/01/2026 – O uso prolongado da água e a poluição superaram a capacidade de renovação e os níveis seguros, levando o mundo à era da Falência Hídrica Global, aponta relatório do Instituto de Água, Meio Ambiente e Saúde da Universidade das Nações Unidas (UNU-INWEH).

De acordo com o estudo, o ciclo global da água doce saiu do seu limite seguro, assim como já ocorreu com o clima, a biodiversidade e os sistemas terrestres. Com isso, a conclusão é que partes-chave do sistema hídrico já não podem, de forma realista, ser restauradas aos níveis anteriores de disponibilidade e de funcionamento dos ecossistemas.

“Muitos rios, lagos, aquíferos, áreas úmidas e geleiras foram empurrados além dos pontos de não retorno e não podem voltar às linhas de base passadas”, destaca trecho do relatório, ao afirmar que a noção de crise temporária já não é adequada para muitas regiões do mundo.

O relatório aponta, ainda, que 2,2 bilhões de pessoas vivem com insegurança hídrica crônica, ou seja, sem acesso à água potável gerenciada com segurança, e que 3,5 bilhões carecem de saneamento gerenciado com segurança. Outro dado destacado é que pelo menos 4 bilhões de pessoas enfrentam escassez severa de água por pelo menos um mês a cada ano. “Quase três quartos da população mundial vivem em países classificados como inseguros ou criticamente inseguros em termos de água”.

Outra conclusão alarmante da pesquisa é que águas superficiais e áreas úmidas estão encolhendo em escala massiva: mais da metade dos grandes lagos do mundo perdeu volume desde o início dos anos 1990, afetando aproximadamente um quarto da população global que depende deles diretamente. “Ao longo das últimas cinco décadas, a humanidade perdeu aproximadamente 410 milhões de hectares de áreas úmidas naturais, quase a área terrestre da União Europeia”.

Isso inclui, segundo o relatório, cerca de 177 milhões de hectares de pântanos e brejos interiores, área equivalente ao tamanho da Líbia ou a sete vezes o território do Reino Unido. A perda de serviços ecossistêmicos dessas áreas úmidas é estimada em mais de US$ 5,1 trilhões, valor semelhante ao Produto Interno Bruto (PIB) combinado de aproximadamente 135 dos países mais pobres do mundo.

Há efeitos também sobre o lençol freático, que vem apresentando afundamentos do solo, indicando que as reservas subterrâneas estão sendo esgotadas. De acordo com a Universidade da ONU, cerca de 70% dos principais aquíferos do mundo mostram declínios de longo prazo. “A subsidência da terra, ligada à superexploração do lençol freático, agora afeta mais de 6 milhões de quilômetros quadrados, quase 5% da área terrestre global, e quase 2 bilhões de pessoas”. Segundo o relatório, esse processo reduz permanentemente a capacidade de armazenamento de água e aumenta o risco de inundações em muitas cidades, deltas e zonas costeiras.

Além disso, a degradação da qualidade da água reduz ainda mais o volume efetivamente utilizável e acelera a falência do sistema hídrico. Isso ocorre, segundo a ONU, em razão do aumento das cargas de águas residuais não tratadas, do escoamento agrícola, da poluição industrial e da salinização, que degradam rios, lagos e aquíferos.

Mesmo onde os volumes totais parecem suficientes nos registros oficiais, a fração de água segura para consumo humano, irrigação e manutenção dos ecossistemas continua a diminuir.

Contato: wilian.miron@estadao.com

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