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7 de janeiro de 2026
Por Vinícius Valfré, Enviado Especial do Estadão
Pacaraima (RR), 07/01/2026 – A cidade brasileira de Pacaraima (RR), na fronteira com a Venezuela, parece ter o espanhol como o idioma oficial das ruas. Com 22 mil habitantes, ela sempre funcionou de forma coligada com a vizinha Santa Elena de Uairén, mas ganhou os contornos atuais a partir do pico da crise imigratória, em 2017. Os venezuelanos estão em toda parte, em trabalhos informais, à frente de pequenos comércios e até vivendo nas ruas.
Apesar da queda de Nicolás Maduro, quase nada mudou na localidade que é a principal porta de entrada de venezuelanos no Brasil. A prisão do ditador, no sábado, 3, não teve efeito na rotina do município, a não ser pelas operações de fiscalização feitas na estrada de travessia entre os dois países.
Até o momento, não houve intensificação do fluxo de imigrantes fugindo dos novos problemas de Caracas. E o contrafluxo de venezuelanos estabelecidos em Pacaraima não chega nem a ser uma questão, por causa das dúvidas sobre os rumos do país.
O Estadão conversou com dezenas de estrangeiros ao longo de segunda, 5, e terça-feira, 6. Eles relatam que a prisão de Maduro trouxe alívio e esperança, mas nada que permita algo além de comemorações parciais.
Para populares que vivem e trabalham dos dois lados da fronteira, há grandes incertezas sobre o que será do país sob Delcy Rodríguez, vice de Maduro empossada como presidente interina.
E ainda que haja considerável melhora social e econômica a partir do fim dos quase 13 anos de governo Maduro, os venezuelanos sabem que isso definitivamente não será percebido de forma imediata nem se converterá em recuperação financeira.
A venezuelana Teresa Castro, 68, é grata ao serviço público de saúde do Brasil por encontrar tratamento para seus problemas oftalmológicos e para um tumor enfrentado pelo marido. E os últimos acontecimentos não a fazem traçar planos de voltar à terra natal.
“Estamos felizes, mas temos medo. Não sabemos o que vai acontecer. Lá, as pessoas nem podem comemorar. Se fazem, são ameaçadas. Então, está muito cedo para saber se vai melhorar ou não. Tem que tirar toda aquela gente primeiro”, opinou.
Ademais, os imigrantes em Pacaraima se prepararam para sair da Venezuela, esgotados pela sobreposição de crises, e muitos estão estabelecidos no Brasil há mais de cinco ou dez anos. Têm alguma fonte de renda, recebem benefícios sociais, conseguiram trazer as respectivas famílias ou as formaram do lado brasileiro.
Às margens da BR-174, Meri e Roniel Chacoa, de 48 e 21 anos, tocam um pequeno restaurante de comida venezuelana. Mãe e filho estão no Brasil há mais de três anos, desde que decidiram buscar melhores condições de vida em Roraima.
“Maduro está fora, mas acho que ele continua mandando. Tiraram uma pessoa, tem as outras ainda. Delcy (presidente interina) é uma pessoa como ele. Se melhorar, vai demorar muito. Talvez uns dez anos”, disse o jovem.
“Para nós foi muito boa a saída de Maduro. É um alívio. Mas não sabemos o que vai acontecer. Delcy é política, pode ser boa ou pode ser má. Pelo que ficamos sabendo, tudo lá ainda está uma bagunça. Não tenho planos de voltar”, completou a mãe.
A rotina comercial do centro de Pacaraima gira em torno dos venezuelanos. Eles trabalham no atendimento ao público em pequenos estabelecimentos e os serviços de transporte informais são operados e utilizados por eles.
Vanessa Vilar, 36, faz renda vendendo café e cigarros avulsos pela manhã. Apesar da informalidade, diz que sua situação do lado brasileiro da fronteira é bem melhor do que em Barcelona, cidade venezuelana a quase mil quilômetros de Pacaraima, de onde se mudou há seis anos.
“Para as coisas melhorarem por lá vai demorar muito. Não tinha trabalho, dinheiro. Não vai ser rápido como algumas pessoas estão pensando. Eu vou ficar por aqui. Queremos por lá alguém que possa mudar as coisas”, disse.
Enquanto isso, o fluxo da Operação Acolhida, estrutura montada pelo governo brasileiro para atenuar o caos em Boa Vista e em Pacaraima, segue normal para este período do ano, segundo autoridades envolvidas na coordenação. Em janeiro, tradicionalmente a chegada de imigrantes é menor.
Rafael Ceño, 31, viajou um dia inteiro com a mulher, de Ciudad Bolívar, a 500 quilômetros de Caracas, para recomeçar no Brasil. “Lá não tem trabalho. A vida está muito dura, não temos dinheiro. Pretendo trabalhar aqui com o que aparecer porque venho em busca de um futuro melhor”, disse.
Apesar da agenda da imigração concentrar os holofotes, Pacaraima tem outra peculiaridade. Dos 22 mil habitantes, a prefeitura estima que só metade vive no centro urbano. A outra é formada por comunidades indígenas espalhadas por um território cinco vezes o da cidade de São Paulo. A terra indígena Raposa Serra do Sol está dentro dos limites de Pacaraima.
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