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21 de janeiro de 2026
Por Guilherme Nannini
São Paulo, 21/01/2026 – A implementação do acordo entre o Mercosul e a União Europeia (UE) tem potencial para elevar o valor das exportações do complexo de cereais e oleaginosas da Argentina para cerca de US$ 42 bilhões na safra 2034/35. A projeção faz parte de um estudo da Bolsa de Cereais de Buenos Aires com a Fundação Inai, que analisa os impactos da eliminação gradual dos Direitos de Exportação (DEX), conhecidos localmente como “retenciones” (retenções), sobre a competitividade sistêmica do agronegócio argentino.
O tratado estabelece uma mudança estrutural na tributação do setor. Segundo o documento, a partir do terceiro ano de vigência do acordo, a Argentina deixará de aplicar as retenções a todos os produtos destinados ao bloco europeu. A única exceção negociada foi para o complexo soja, que continuará um cronograma específico de desgravação: um teto máximo de 18% será consolidado a partir do quinto ano, reduzindo-se linearmente até fixar-se em 14% no décimo ano após a entrada em vigor.
Os pesquisadores adotaram a premissa de que a redução tributária para a Europa acabará favorecendo toda a cadeia produtiva. O estudo argumenta que a aplicação de taxas diferenciadas por destino é inviável na prática, por causa das dificuldades operacionais de segregar a mercadoria nas etapas iniciais de comercialização. Dessa forma, a tendência é que o alívio fiscal se transmita aos preços internos, incentivando o aumento da área plantada e o investimento em tecnologia.
No cenário mais otimista traçado pela Bolsa, a combinação de menores impostos com a adoção de melhores práticas agrícolas permitiria que a produção total de grãos da Argentina saltasse para 173,1 milhões de toneladas em 2034/35. Esse volume representa um incremento significativo frente às 155 milhões de toneladas projetadas no cenário base (sem o acordo) e às 131 milhões de toneladas da safra 2024/25.
A análise setorial indica que o milho seria o maior beneficiado em volume, com um potencial de produção de 69 milhões de toneladas no cenário com acordo e melhorias tecnológicas, um aumento de 20 milhões de toneladas em relação ao ciclo atual. A soja poderia ter um incremento de 12,1 milhões de toneladas, alcançando 62,4 milhões de toneladas, enquanto o trigo teria um ganho de 6,8 milhões de toneladas. O estudo reforça que, além dos ganhos quantitativos, o acordo limita o uso de mecanismos discricionários, como registros de exportação (ROEs), o que traz previsibilidade normativa ao exportador.
Repercussão política
O governo argentino celebra o tratado como um divisor de águas. O ministro da Economia, Luis Caputo, destacou em publicação no X que a eliminação de tarifas europeias sobre 92% das exportações argentinas coloca o país em pé de igualdade com concorrentes globais que já têm acordos com o bloco, como Chile e México. Segundo Caputo, o acesso preferencial a um mercado de 700 milhões de pessoas e 20% do PIB mundial é essencial para acelerar o crescimento econômico e gerar empregos.
Já o presidente Javier Milei, que classificou a assinatura do pacto como “um feito de grande transcendência política e econômica” e possivelmente a maior conquista do Mercosul, adotou um tom de cautela quanto ao futuro. Milei ressaltou que a assinatura não é um “ponto de chegada, mas de partida”, e alertou para a necessidade de vigilância durante a fase de implementação. Para o mandatário, é crucial evitar que mecanismos de salvaguarda ou barreiras não tarifárias sejam utilizados para restringir o acesso conquistado, o que, segundo ele, atentaria contra o objetivo essencial de liberdade econômica e integração genuína que o acordo propõe.
Contato: guilherme.nannini@estadao.com
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