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Master: ataque de influenciadores a BC partiu de contas sem relação com o mundo financeiro

7 de janeiro de 2026

Por Jayanne Rodrigues e Carlos Eduardo Valim, do Estadão

São Paulo, 07/01/2026 – No final do ano, várias contas de influenciadores na internet publicaram conteúdos colocando em dúvida a credibilidade de órgãos como o Banco Central e a Federação Brasileira de Bancos (Febraban) no processo de liquidação do Banco Master. E uma coisa chama a atenção nessas postagens: boa parte desses influenciadores não tem nenhuma relação com temas do setor financeiro.

As suspeitas, levantadas pela Febraban, são de que houve um ataque coordenado às instituições, concentrado em um período de 36 horas, no fim de 2025. A liquidação do Master foi decretada em novembro pelo BC e está sob o escrutínio do Tribunal de Contas da União (TCU).

Nesta terça-feira, 6, o vereador de Erechim (RS), Rony Gabriel (PL), e a influenciadora Juliana Moreira Leite afirmaram ter recebido propostas financeiras no fim do ano passado para compartilhar conteúdos em defesa do Banco Master e contra o BC em seus perfis nas redes sociais. Os dois recusaram as propostas.

Mas postagens desse tipo surgiram com força nas redes. No dia 19 de dezembro, por exemplo, o criador de conteúdo Firmino Cortada, que soma mais de 500 mil seguidores apenas no TikTok, publicou um vídeo no qual comenta a decisão do TCU sobre a liquidação do banco, citando uma matéria do portal Metrópoles. No vídeo, ele afirma defender a “autonomia e a liberdade” e diz que o BC precisa ter “autonomia para trabalhar, mas deve seguir as normas” estabelecidas pelo TCU.

Nas redes sociais, no entanto, Firmino costuma abordar temas muito diferentes, como, por exemplo, polêmicas envolvendo a vida privada de influenciadores, como Virgínia Fonseca e Carlinhos Maia.

Nesta quarta-feira, 7, a publicação sobre o caso Master já reunia mais de 300 comentários no perfil do influenciador no TikTok. A maioria foi feita nas últimas horas e critica a suposta publicidade em favor do Master. Em nota, Firmino Cortada afirmou que as manifestações publicadas decorreram de “posicionamento pessoal e independente”, no exercício da “liberdade de expressão”, e que não há “qualquer vínculo comercial, publicitário ou contratual” com o Banco Master ou terceiros interessados.

Ele rebate as acusações e diz que não houve “remuneração, impulsionamento pago ou qualquer contrapartida financeira”, nem “fornecimento de roteiros, diretrizes editoriais ou orientações externas”, e que os conteúdos refletem “análises e opiniões próprias, sem caráter publicitário ou promocional”. O influenciador disse ainda manter compromisso com a “transparência” e a “boa-fé”.

Outro criador que também decidiu opinar sobre o tema, embora não atue no setor financeiro, foi Paulo Cardoso. Nas redes, ele se intitula como hipnoterapeuta, neuropsicanalista e especialista em mente inconsciente e liberdade humana. O vídeo foi publicado no mesmo dia da postagem compartilhada por Firmino, e também faz referência à reportagem do Metrópoles.

Na gravação, Paulo afirma que “quando um órgão como o TCU entra no caso, é porque tem coisa muito errada”. Em seguida, avalia que o despacho menciona uma palavra que classifica como “pesada”, associada, segundo ele, à pressa na decisão.

“Se existiam outras saídas, por que escolheram logo a mais extrema? Por que tanta pressa? Essa história está muito mal contada. A quem interessava a liquidação tão rápida do Banco Master?”, questiona ao final do vídeo.

Em uma publicação feita nesta terça-feira, 6, referindo-se a uma notícia da jornalista Malu Gaspar, de O Globo, o hipnoterapeuta afirma que “não recebeu nada” – uma defesa em em relação às acusações de ter sido pago para criticar a decisão do BC. Em outro trecho, justifica não ter assinado contrato “com banco nenhum” e sustenta que as opiniões divulgadas em seus perfis são “100% livres”.

Dias antes, seguindo a variedade de conteúdos do seu perfil, o influenciador havia publicado vídeos sobre o fim do casamento dos influenciadores Virgínia Fonseca e Zé Felipe. Em outra postagem, deu conselhos ao cravar que “mulher bagunceira não prospera”.

Levantamento feito pela Febraban obtido pelo Estadão/Broadcast mostra que o pico das postagens ocorreu no dia 27 de dezembro, somando 4.560 posts. Houve uma “redução significativa” nos últimos três dias, com 132 publicações registradas nas 24 horas até o dia 5, todas provenientes do X.

Em nota, a Febraban afirmou que faz, de forma periódica, monitoramento com empresas especializadas de postagens em redes sociais relativas à sua atuação e à do setor bancário.

“Nesses levantamentos recorrentes, foi identificado, no final de dezembro, volume atípico de postagens com menções relativas à entidade e seus representantes, referentes ao noticiário sobre liquidação de instituição financeira”, diz a nota. “A Febraban está analisando se as postagens identificadas naquele período caracterizariam ou não eventual ataque coordenado à entidade, sendo que já se observou nos últimos dias uma redução significativa daquele volume atípico.”

De fofocas de celebridades ao caso Master

Marcelo Rennó, que se apresenta como especialista em reels, também é citado entre os influenciadores que teriam participado do movimento contra o Banco Central. Em seus perfis, costuma comentar sobre a relação conturbada entre Fiuk e o pai, Fábio Jr., a saúde do ex-presidente Jair Bolsonaro, o fim do casamento de Ivete Sangalo e outras fofocas envolvendo celebridades.

Na postagem considerada suspeita, Rennó avalia que a decisão do Banco Central é “muito suspeita” e “estranha”. Procurado pela reportagem, ele não se manifestou até a publicação da reportagem. Em vídeo publicado nas redes sociais, no entanto, nega ter recebido qualquer valor para divulgar opinião favorável ao Banco Master.

Uma página chamada Comuacin, acompanhada por 4,1 milhões de usuários, atacou o ex-diretor de Organização do Sistema Financeiro e de Resolução do BC Renato Dias Gomes, responsável pelo veto da oferta de compra do Master pelo Banco de Brasília (BRB). Uma montagem, em uma postagem que depois foi apagada, o mostrava junto a uma foto de fios emaranhados, como forma de sugerir negligência e desordem, e ironizava com a frase “Estou saindo do BC deixando tudo alinhado”.

O texto que abria a postagem escrevia “Críticos dizem que Renato Gomes não deixou legado positivo no Banco Central”. O conteúdo contrastava bastante com o restante do que a conta publicava no mesmo período, como memes sobre o calor dos últimos dias de 2025, a Mega da Virada de 2025, e os relacionamentos entre o jogador de futebol Vinicius Jr. e a influenciadora Virgínia Fonseca, e entre os músicos Ana Castela e Zé Felipe.

Procurados, a conta “comuacin” e os influenciadores Paulo Cardoso e Marcelo Rennó não se manifestaram à reportagem.

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