5 de janeiro de 2026
A decisão da China, de adotar uma salvaguarda às importações de carne bovina, com cotas e tarifa adicional de 55% sobre os 12% já em vigor, deve trazer impactos relevantes para o Brasil, principal fornecedor da proteína ao mercado chinês, avalia o coordenador do Insper Agro Global, Marcos Jank, em entrevista.
Para ele, a medida, que impôs uma cota de 1,1 milhão de toneladas ao Brasil em 2026 – bem abaixo das exportações deste ano ao gigante asiático, que podem alcançar até 1,7 milhão de toneladas -, “foi excessiva” e pode causar distorções internas na China, sobretudo inflação. Abre espaço, ainda, para uma reação diplomática e comercial do Brasil, inclusive com possibilidade de recorrer à Organização Mundial do Comércio (OMC) para questionar as salvaguardas, em um organismo multilateral que a própria China tanto preza. Segundo Jank, a estratégia do Brasil a partir de agora deve ser, além da OMC, trabalhar para ampliar a cota e buscar o remanejamento de volumes não utilizados por outros países exportadores. A seguir, os principais trechos da entrevista:
O que pode ocorrer daqui para frente com as exportações de carne bovina do Brasil diante da salvaguarda imposta pela China?
A salvaguarda é uma medida usada quando um país alega que sua indústria está sendo fragilizada pela competição internacional. Geralmente o país afetado pede um prazo, normalmente de três anos, para se adaptar. O que chama atenção, porém, é que a China anunciou cotas específicas por país, com volumes distintos, algo que não é uma prática usual em salvaguardas. No caso do Brasil, na prática, isso cria um limite claro às exportações brasileiras, que passam a ficar restritas à cota definida.
Com a decisão da China, como fica a taxação para embarcar carne brasileira para lá?
A tarifa extra-cota ficou proibitiva. Antes da salvaguarda, a tarifa de importação da carne bovina era de 12%. Agora, será adicionada uma tarifa de 55%, o que leva a taxação total para 67%. Isso praticamente inviabiliza exportações fora da cota de 1,106 milhão de toneladas definida para o Brasil. Quem ficar fora desse volume, na prática, não consegue exportar.
Quais seriam, então, as alternativas para o Brasil nesse novo cenário?
O primeiro ponto é tentar ampliar a cota. A China impôs um volume muito menor do que o Brasil deve exportar este ano, algo próximo de 1,7 milhão de toneladas. Ou seja, a cota ficou cerca de 30% abaixo do volume efetivo. Inicialmente, se falava em 1,5 milhão de toneladas, mas o número final foi de 1,1 milhão. Isso é um corte muito forte. Além disso, é importante tentar o remanejamento de cotas não utilizadas por outros países. Argentina e Uruguai, por exemplo, têm direcionado mais exportações aos Estados Unidos recentemente. Os próprios Estados Unidos receberam uma cota de 164 mil toneladas, mas em 2025 exportaram no máximo 70 mil toneladas para a China, por causa da crise de oferta interna e dos preços elevados. O ideal seria negociar para que esses volumes não usados possam ser redistribuídos.
Mas aumentar a cota não contraria a estratégia da China de limitar as importações?
As importações cresceram porque, desde a crise da peste suína, o consumidor urbano e jovem da China passou a consumir mais carne bovina. O consumo per capita ainda é baixo, cerca de 7 quilos por habitante ao ano, contra 24 quilos no Brasil. Existe espaço para atender tanto a indústria doméstica quanto as importações. Quando você corta o volume de forma tão drástica, o risco é gerar aumento de preços e inflação. A China poderia, por exemplo, ter usado como referência o volume atual exportado pelo Brasil, e não impor uma redução tão grande nas cotas.
Não pode haver substituição de proteínas dentro da China, com o consumidor migrando para carne suína ou de frango?
A China já é o maior produtor e consumidor de carne suína do mundo, com cerca de 35 quilos por habitante ao ano. A carne bovina atende a um segmento específico, de renda mais alta, que quer consumir proteína vermelha. Mesmo sendo mais cara, é uma carne mais nobre. Pode haver alguma substituição, mas esse público é bastante firme. Além disso, a indústria chinesa de carne bovina é muito menos competitiva, tanto em quantidade quanto em qualidade. Por isso, acho que a China exagerou na dose.
Essa medida pode trazer consequências internas para a própria China?
Sim. A indústria chinesa não faz os mesmos cortes, não tem o mesmo nível de eficiência da indústria brasileira, argentina ou uruguaia. As importações respondem por cerca de 30% do consumo chinês. Ao restringir demais, pode haver impacto em preços e algum efeito inflacionário. Não é algo gigantesco para a economia chinesa, mas existe. Para o Brasil, o impacto é enorme, porque mais de 50% das exportações de carne bovina vão para a China. É nosso segundo maior setor exportador, atrás apenas do complexo soja.
A postura da China surpreende do ponto de vista comercial?
Sim, porque a China vinha se posicionando como defensora das regras internacionais de comércio. Agora, adota uma salvaguarda muito agressiva, semelhante ao que os Estados Unidos vêm fazendo com tarifas e cotas. Isso ocorre justamente num momento em que se fala em “parceria estratégica” com a América Latina, com visitas oficiais e discursos de fortalecimento das relações. Soa muito mal.
O Brasil deveria cobrar essa relação de confiança mútua?
Sem dúvida. O Brasil é parceiro estratégico da China e compra muitos produtos chineses. A China caminha para o maior superávit comercial da história, acima de US$ 1 trilhão. Não parece justo impor uma restrição tão grande. O governo brasileiro deve questionar isso, buscar o remanejamento de cotas e lembrar que, pelo próprio documento da salvaguarda, cotas não usadas em um ano não podem ser transferidas para o seguinte, o que abre espaço para redistribuição dentro do mesmo período.
Existe espaço para questionar essa salvaguarda na OMC?
É algo que precisa ser analisado com cuidado. A China nunca operou com cotas na carne bovina e, de repente, cria um sistema discricionário, com volumes e tarifas arbitrárias. É essencial verificar se essa salvaguarda está de acordo com as regras da OMC. Governo e iniciativa privada devem avaliar se a China não está usando ferramentas semelhantes às adotadas pelos Estados Unidos, que frequentemente impõem tarifas e cotas fora do espírito multilateral.
Mesmo com a OMC enfraquecida, isso seria viável?
A OMC está enfraquecida, é verdade, mas seria muito estranho a China agir fora das regras que ela mesma diz defender. A primeira coisa é verificar a legalidade da medida. A segunda é avaliar se o corte foi drástico demais, inclusive para a própria economia chinesa. E a terceira é trabalhar pelo remanejamento de cotas. Essa deveria ser a linha de atuação do Brasil.
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