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8 de janeiro de 2026
Por Gabriel Azevedo
São Paulo, 08/01/2026 – A apropriação, pelos Estados Unidos, da produção de petróleo da Venezuela adicionou um novo componente de risco ao mercado internacional de soja ao levantar dúvidas sobre a reação da China e seus efeitos sobre o fluxo comercial entre Pequim e Washington, avaliou o vice-presidente da StoneX, Bertrand Oosterle. Segundo ele, o impacto direto sobre os grãos é limitado, mas o episódio ocorre em um momento sensível, com a China tendo comprado cerca de 10,4 milhões de toneladas de soja americana nesta temporada.
De acordo com Oosterle, as exportações venezuelanas representam aproximadamente 4,5% das importações chinesas de petróleo bruto transportadas por via marítima. Embora não seja uma fatia elevada, o executivo ponderou que o tema pode servir como instrumento de pressão política. “Não é tanto volume, mas é um incômodo, e a China poderia usar isso para limitar, atrasar ou até cancelar compras de soja dos Estados Unidos”, afirmou. Outro risco citado é a possibilidade de o país asiático associar o episódio a disputas geopolíticas mais amplas, como Taiwan, o que poderia levar o presidente americano Donald Trump a retomar tarifas comerciais e afetar diretamente o comércio agrícola.
Apesar desse aumento da incerteza, a China continua entregando parte relevante do compromisso de compras. O volume já adquirido se aproxima do objetivo inicial de 12 milhões de toneladas, estabelecido pelo secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, cujo prazo foi estendido informalmente de dezembro para a primavera do Hemisfério Norte. Esse fluxo contribuiu para sustentar o mercado na Bolsa de Chicago (CBOT) e levou os fundos especulativos a manterem posição levemente comprada em soja, mesmo com as exportações americanas ainda rodando cerca de 17% abaixo da projeção anual do Departamento de Agricultura dos EUA (USDA), melhora frente ao atraso de 19% observado semanas atrás.
O principal ponto de atenção para as próximas semanas, segundo Oosterle, está no mercado doméstico chinês. Desde 19 de dezembro, a estatal Sinograin não realiza novos leilões de soja para consumo interno, após duas operações voltadas a liberar estoques antigos. Sem essas vendas, a capacidade de novas compras externas fica restrita. Ainda assim, a China importou cerca de 600 mil toneladas de soja americana na semana passada. “Para que as compras continuem, é preciso abrir espaço nos estoques. Os leilões são essenciais”, disse.
Na América do Sul, o quadro de oferta é confortável e continua pesando sobre os preços. No Brasil, as estimativas de produção avançaram levemente e agora variam entre 177 milhões e 180,5 milhões de toneladas. A colheita já começou em Estados, como Paraná e Mato Grosso, com produtividade inicial elevada, em toneladas por hectare, embora haja preocupação pontual com a possibilidade de estiagem em janeiro. Na Argentina, a projeção permanece entre 47 milhões e 48,5 milhões de toneladas, sem mudanças relevantes.
Oosterle também comentou fatores regulatórios que entram no radar do mercado. A União Europeia adiou para dezembro de 2026 a aplicação da regulamentação antidesmatamento, o que reduz a pressão imediata sobre exportadores. Em paralelo, comerciantes internacionais no Brasil avaliam a permanência na Moratória da Soja, acordo que veda a comercialização de grãos cultivados em áreas desmatadas após 2008. “Esse debate deve ganhar importância ao longo do ano, especialmente com a EUDR no horizonte”, afirmou.
No trigo, o foco passou a ser a qualidade da safra argentina, já quase totalmente colhida. Relatos indicam baixo teor de proteína em algumas regiões, entre 8% e 9%, abaixo do padrão de moagem, o que aumenta a oferta de trigo para ração. Segundo Oosterle, o mercado começa a perceber que a proporção de cereal forrageiro pode ser maior do que o esperado inicialmente, enquanto a disponibilidade de trigo de melhor qualidade pode ser mais restrita, abrindo espaço para ajustes de preços. O clima frio na Europa e na Rússia também entrou no radar, assim como estimativas privadas que apontam área plantada russa entre 3% e 7% menor e produção entre 81,4 milhões e 83,8 milhões de toneladas, abaixo do ciclo anterior.
No milho, a dificuldade de exportação da Ucrânia, causada por ataques russos a portos e navios, vem deslocando a demanda para outras origens, como o cereal francês. Até 2 de janeiro, os embarques ucranianos somavam pouco menos de 6 milhões de toneladas, contra quase 10 milhões no mesmo período da temporada passada, segundo dados oficiais. Essa restrição ajuda a compensar parte da pressão que o excesso de trigo para ração na Argentina poderia exercer sobre o milho no mercado de alimentação animal.
Por fim, Oosterle destacou a importância do próximo relatório mensal de oferta e demanda do USDA (Wasde), previsto para a próxima segunda-feira (12). Com a normalização dos trabalhos após a paralisação do governo americano, o mercado espera dados mais completos, especialmente sobre produtividade de soja e milho nos Estados Unidos. “Há possibilidade de revisão para baixo nos rendimentos, e isso pode influenciar o humor do mercado”, afirmou.
Contato: gabriel.azevedo@estadao.com
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